E que tal um copo de vinho do Porto?

No dia Internacional do Vinho do Porto, Dirk Niepoort e Pedro Poças Pintão lamentam que os portuguesas conheçam tão mal e bebam tão pouco este vinho fortificado que, mesmo sendo tão tradicional, tem caminho para a inovação. E deixam, cada um, uma sugestão. O melhor é experimentar.

Preste atenção à temperatura do vinho. Use um bom copo. Tenha boa companhia. São estes os três conselhos que Pedro Poças Pintão deixa a quem vai beber um vinho do Porto. No Dia Internacional deste vinho, o presidente do Conselho de Administração da centenária casa Poças só acrescenta mais uma, mas também importante, sugestão: opte por um bom vinho. A tarefa de escolher entre a "diversidade incrível" de propostas no mercado pode tornar-se confusa, admite, sobretudo quando o português sabe tão pouco acerca deste vinho fortificado que chega com sucesso aos quatro cantos do mundo.

"Infelizmente os portugueses não bebem vinho do Porto", lamenta, sem conseguir apontar uma causa para este panorama. "Todos têm uma garrafinha para o Natal e para a Páscoa... Mas o português infelizmente não bebe muito vinho do Porto", concorda Dirk Niepoort, outro produtor de vinhos, presidente da Niepoort, fundada em 1842. Nascido no Porto, terra que sente como sua, cresceu numa época em que o Vinho do Porto era protagonista único na região demarcada mais antiga do mundo e desempenhou um papel fundamental na criação da identidade de vinhos de mesa deste local.

"Não somos revolucionários ao nível do Porto", assume acerca da Niepoort. Mas acredita que há vários caminhos possíveis nesse sentido, nomeadamente ao nível da qualidade e da dinâmica das colheitas. Criativo e inovador, trava quase a fundo quando o alvo é o vinho do Porto. "Acredito que o vinho do Porto devia ser snobizado", diz, defendendo que este "não é um vinho para todos os dias" e "deve ser levado a sério". Por isso, não faz parte do clube de fãs dos Porto Pink. "Está a abrir alas para a banalização", receia. "É quase sinal de desespero. Aquilo a que se propõe é atrair a juventude... É um caminho... Se calhar, sou eu que sou velho de mais na minha cabeça", diz, enquanto repete a sua receita para o vinho do Porto: "Deveríamos snobizar", o que passa também por aumentar os preços. Porque não tem dúvidas: o vinho do Porto "é uma coisa única, diria que o melhor vinho fortificado do mundo".

Neste último argumento, Pedro Poças Pintão não poderia estar mais de acordo, mas acredita que o vinho do Porto também pode ser cor de rosa. "Sendo normalmente tomado como digestivo, começa a haver formas de o beber antes da refeição", realça o responsável pela casa Poças, que no ano passado lançou vinhos do Porto diferenciadores, mais virados para a mixologia, como os BRIG"S branco e rosé.

Pedro Poças Pintão admite que a história do vinho do Porto pode ser "limitativa" quando se pensa em inovar, mas garante que, ao mesmo tempo, é o querer inovar que os faz olhar para trás. Foi o que aconteceu com o lançamento do Poças Quinado, em 2017, um vinho que era muito apreciado no Brasil e nas antigas colónias e que, acreditava-se, tinha propriedades farmacêuticas, nomeadamente na prevenção da malária. Ou dois anos depois, quando chegou ao mercado a The Coopers Limited Edition Colheita 2006, um pack de dois Vinhos do Porto de qualidade superior, fruto de diferentes formas de envelhecimento: um em barrica de 550 litros com contacto direto com a madeira, outro em balseiro com 15.450 litros de capacidade, passando por oxidação mais lenta. Finalmente, o Vermouth Soberbo, um vinho aromatizado inspirado em essências e registos antigos da Poças dos anos 30 e 40.

Exportações a crescer

"Há toda uma história que queremos respeitar e é isso que o torna especial", diz Pedro Poças Pintão acerca do vinho do Porto, tipologia que em 2021 alcançou vendas totais de quase 391 milhões de euros, sendo o terceiro ano consecutivo de crescimento após vários de quebra. As exportações cresceram 8%, mas ao nível do mercado interno o sector ainda ficou 19% baixo de 2019. Um efeito da falta de turistas e um sinal de que, de facto, os portugueses não bebem vinho do Porto, e o olham, diz Dirk Niepoort, como "uma coisa para os estrangeiros".

Com uma estratégia continuada e regular de promoção a nível interno, talvez o panorama se altere. Com isso, e com os conselhos de quem sabe do assunto. Dirk Niepoort sugere um Nat Cool Porto Trudy, que "é simples, apetecível, fresco e não pretende ser o melhor do mundo"; Pedro Poças Pintão deixa a dica para um Tawny Poças 20 anos, "um momento de felicidade depois de meter os filhos na cama".

sofia.fonseca@dn.pt

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