Vasco Cid

Vasco Cid

O conservador que revolucionou a Chamusca Caixa de Crédito da Chamusca
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A Caixa de Crédito Agrícola da Chamusca foi fundada em 1929, mas Vasco Cid só entra nesta história em 1976 – já depois do verão revolucionário e de todos os cravos. É o ano em que é eleito para o Concelho Fiscal e, logo a seguir, ainda no mesmo triénio, é desafiado para integrar a direção. O tempo passa sempre muito depressa, sobretudo quando gostamos do que fazemos, e este homem caminha, lado a lado, com as instituições e pessoas da sua terra há 50 anos.

Vasco é da Chamusca, mas veio nascer a Lisboa, no dia 3 de janeiro de 1943. Durante toda a sua juventude quis ser engenheiro mecânico e o sonho era tão forte que se tornou inevitável a escolha do curso. Só que a vida é a vida, surpreendente nos seus arrufos e partidas – o pai morreu e o filho Vasco, esmagado pelo destino, interrompeu o curso e regressou à Chamusca para assegurar o sustento da mãe e das duas irmãs.

Tinha 21 anos e as mangas bem arregaçadas, conhecia a lavoura, tinha ajudado a família sempre que podia e era preciso. Curiosamente, o seu velho pai formara-se em Direito sem nunca exercer. Tornara-se agricultor por herança familiar. Mas deixem-nos oferecer algum contexto: a Chamusca é o segundo maior concelho do distrito de Santarém, tem pouca população e comércio e a pouca indústria é ligada à agricultura, o eixo mais importante da economia da região. Foi e é uma terra de forte identidade rural, celebrada aliás pelo movimento neorrealista português. O “Cancioneiro do Ribatejo”, a que Alves Redol chamou "poema coletivo que um povo analfabeto legou ao futuro, para relatar as suas esperanças e as suas amarguras” é um testemunho vivo dessa ligação.

No entanto, o neorrealismo está longe de ser a única marca cultural ou de memória da terra. A implementação comunista nunca foi maioritária, existiu sempre uma corrente de pessoas mais ligadas à propriedade das terras, às tradições e à defesa da iniciativa privada. Mas prossigamos. Reza a lenda que, no dia de São Pedro, chegavam os pastores para trocar chocalhos. Vinham conhecer os novos patrões e saber as condições de trabalho. Depois, vieram os artesãos de utensílios para a lavoura. Outros tantos homens e mulheres enraizaram-se num Ribatejo único na sua identidade e rico nos seus elementos naturais. A proximidade com as margens do Tejo, que serpenteia no estio serpenteia e transborda nas cheias, é o elemento estruturante e histórico de toda a vida naquelas terras.

Rafael Antunes

Voltemos ao Crédito Agrícola, a Vasco Cid e ao ponto inicial da história do cooperativismo na Chamusca. O Clube Agrícola, antigo Grémio Agrícola, que funcionou no elegante edifício Arte Nova, construído em 1912, juntava os principais proprietários agrícolas do concelho e abriu caminho para a fundação da Caixa de Crédito da Chamusca, em 7 de fevereiro de 1929. Até à década de 1960, foi a única instituição de crédito na região, sem objetivo de lucro, de interesse público e com gestão privada de agricultores. Vasco Cid encontra uma organização local, com dois funcionários e fechada sobre si mesma.

Tranquilamente, sem pressas, impõe a sua personalidade e o seu modo de ver e estar no mundo. Não tem medo de tomar decisões, uma marca de água na sua liderança. E quando os momentos difíceis surgiram, não hesitou. Em 1992, a direção com o apoio maioritário dos associados tomou a decisão de não fazer parte do sistema integrado do Crédito Agrícola Mútuo, tornando-se uma instituição de crédito autónoma. Foi um processo de emancipação difícil, com muitos percalços e um enorme esforço de valorização das suas pessoas. Vasco nunca deixou ninguém sem resposta ou desamparado, deu o exemplo e esta é uma história que dignifica pela coragem, ousadia e convicção numa identidade que define os verdadeiros cooperativistas.

A Caixa da Chamusca confunde-se com a comunidade. Do financiamento de cursos médios e superiores a alunos da terra, passando pelas ajudas aos bombeiros e a associações, inscritas nos concelhos de Chamusca, Golegã e Constância, há muito poucas iniciativas que ali não sejam apoiadas pela Caixa.

Atualmente, Vasco Cid preside à Mesa da Assembleia-Geral. Embora menos interventivo, continua a zelar pelos valores da transparência e do compromisso, investimento do qual se orgulha. A missão que a vida lhe reservou. É um homem conservador e “agarrado às coisas”. Na arqueologia do seu quotidiano, fala dos objetos, das mobílias que contam estórias, das pessoas que já cá não estão, mas também do futuro. É um homem de hábitos, durante vinte e dois anos passou férias em Ibiza, sempre no mesmo hotel. Gosta de comprar, mas detesta vender. Não abdicar das coisas equivale a não abdicar da memória. Preserva as lembranças, as tradições, não parece ser deste tempo. E isto, tendo em conta a força dos ventos, é um enorme elogio.

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