A história da Caixa Agrícola do Guadiana Interior está ligada à vida de José Madeira. Poucos lugares são assim, aparentemente despovoados e sem margem de crescimento, mas com uma alma e uma identidade distintivas que os condenam à superação. É nesse Baixo Alentejo, profundo, silencioso e agreste, que um homem ousou mudar o perfil de uma instituição que pouco ou nada parecia poder ambicionar. Vinte e cinco anos da sua vida foram dedicados a um lugar que era apenas um cofre com um funcionário que fechava a loja às quintas-feiras por ser dia de caça. Um quarto de século de dedicação que terminou com aplausos e agradecimentos da terra, nos últimos dias de 2020. .Estamos a apressar-nos e falta-nos um pouco de contexto. José Madeira licenciara-se na Universidade de Évora e era professor de matemática, na Escola Secundária de Serpa. Foi nos corredores da universidade que se apaixonou por Maria José, colega de curso e depois de profissão. Construíram uma família com dois filhos, o Gonçalo e o Francisco. Uma verdadeira equação perfeita. Um professor que ganhava um pouco mais por estar na agricultura, no negócio de cereais. A família tinha uma casa agrícola, responsabilidade que trazia desde o tempo em que não havia regadio e tudo era sequeiro. Outros tempos, antes das barragens e das condutas de regadio e da agricultura intensiva ou do lago artificial que vive à parte de tudo o resto, o Alqueva. Uma barragem que tudo mudou: paisagens, realidades, culturas, costumes. .Recuemos então aos seus primeiros dias no Crédito Agrícola. O ano é 1995 e a seca nesses meses é particularmente austera. José fazia parte dos órgãos sociais da Caixa de Serpa e, inesperadamente, o homem que dirigia o projeto morreu. Desafiaram-no para o substituir. O Baixo Alentejo Interior de então era predominantemente rural e agrícola, o cultivo da terra constituía a fonte de rendimento da larga maioria da população. O ambiente era terrível e a seca ameaçava não deixar pedra sobre pedra. Há manifestações desesperadas, ameaças sindicais e da CAP, 30 por uma linha. Uma crise que não poupou ninguém, a sua família começou inclusivamente a vender as suas explorações a espanhóis. Para surpresa de todos, dos irmãos também, José disse que sim a um desafio que mais ninguém desejava sem se desvincular imediatamente da agricultura. Foi fazendo as coisas, um dia de cada vez, objetivos concretos e navegar à vista. Motivou-o a ideia de impossibilidade, as relações humanas e o poder contribuir para o desenvolvimento da região. Se as coisas fossem colocadas assim, não havia como não se entusiasmar. Afinal, seria o responsável por uma instituição que poderia criar condições para apoiar famílias, empresas e a região. .As coisas começaram a correr bem. Em 1997, Serpa fundiu-se com Moura e a Vidigueira (que fizera uma fusão com Cuba), para com capital próprio e fortalecido poder, conseguir responder a operações de maior envergadura. Passou a chamar-se Caixa de Crédito Agrícola Mútuo de Guadiana Interior. Já acontecera uma tentativa anterior de fusão de Serpa com Beja, mas os sócios chumbaram a proposta já com o projeto pronto para ser assinado.Foi uma enorme aventura numa instituição centenária. A Caixa de Serpa nascera, como dezenas de outras instituições cooperativas, em 1911, logo a seguir à Instauração da República. O contexto era propício à criação de Sindicatos Agrícolas depois transformados em Caixas Agrícolas. Nessa época revolucionária, nomeadamente nos últimos meses de 1911, havia fome e desemprego no Alentejo profundo. Foi então que um movimento de trabalhadores alentejanos e ribatejanos abalou os alicerces de produção do país, mas ninguém sabia muito bem o que fazer a seguir. Não havia tradição sindical ou exemplos de resistência. O sul do país, lugar de isolamento e abandono, assistiu a uma série de movimentações que, embora anárquicas, eram o sinal do combate inequívoco contra o secular marasmo do campo alentejano. Como bem escreveu Raul Proença, autor do Guia de Portugal, valia a pena ir a Serpa “só para ver morrer o Sol”. É nessa terra, pátria das pátrias do Cante Alentejano, que José Madeira nasceu. .Mas sigamos a estória. Que, a certa altura, se torna rocambolesca. Depois de vencer, sem discussão, as eleições que lhe renovaram a legitimidade como líder da sua Caixa Agrícola, a Caixa Central colocou dúvidas na sequência de uma avaliação feita por uma comissão que, por lei, passara a ter a missão de fiscalizar os elementos que compunham a administração após cada processo eleitoral. As dúvidas reportavam-se à aprovação de créditos vários anos antes, em 2004. José Madeira percebe que o seu destino estava traçado e sai em dezembro de 2020 suspeitando que, parte do processo fora político - sempre defendera que cada caixa devia ter uma autonomia própria, o que não era o caminho da cúpula da Caixa Central que pretendia o contrário: centralizar o poder. A partir de certa altura tornou-se cristalino que não havia espaço para quem ousasse discordar. José Madeira saiu de consciência tranquila. Ou se mantinha cooperativista ou perdia a face, para ele nunca houve dúvidas de qual o caminho justo. As contas de José estão certas. Não podemos esquecer que é tudo uma questão de matemática, até as canículas para calcular a chuva obedecem a contas exatas. As contas de sobrevivência são as que se aprendem mais rápido. .Uma parceria com a Agrimútuo