Um tio da sua mulher surpreendeu-o quando bebia o café habitual de todas as manhãs: “Chico, acabaste de ser nomeado para o Conselho Fiscal da Caixa Agrícola”. Francisco Rebelo, na altura administrativo no Centro de Saúde do Tabuaço, não imaginava, apesar da surpresa, que a sua vida mudaria radicalmente a partir dali. Do Conselho Fiscal para a presidência da Caixa de Crédito Agrícola do Vale do Távora e Douro foi um passo natural - e Francisco estaria longe de imaginar que se dedicaria à Caixa como se aquele espaço de confiança tivesse passado a ser a sua segunda família… e tantas vezes a primeira. Francisco Rebelo nascera num ano especial. A Segunda Grande Guerra terminara há dois anos e os lisboetas assistiam ao apoteótico e celebrado Cortejo Histórico, evento que Salazar desejava grandioso para que se celebrasse condignamente os 800 anos da conquista da capital aos mouros. Com organização e direção artística de José Leitão de Barros, o cortejo encheu as ruas de apetrechos riquíssimos, centenas de figurantes, animais exóticos. .Era um tempo de otimismo. Portugal ficara de fora da guerra e estava na primeira linha entre os que apoiaram o Plano Marshall. Salazar pedira a adesão à Organização Europeia de Cooperação Económica, o que se concretizaria no ano seguinte, em 1948. Mas tornemos ao desfile que não deixa de ser uma metáfora do tempo, o sinal de que enquanto a Europa vivia obcecada e comprometida com o futuro e a democracia, Portugal permanecia no passado, a glorificar os heróis da fundação. Era isso que importava. A glória do Império Colonial português estava em cada esquina de cada arruamento - Francisco ouviu uns anos mais tarde falar muito disso. A Rua dos Anjos, onde morava com o irmão e os pais, engalanara-se com provas inequívocas da grandeza eterna da Pátria.Na sua juventude, Francisco Rebelo conheceu aquela zona histórica de trás para a frente. Os mosteiros, a vida, o comércio, o antigo Barateiro dos Anjos no 16A, o Lisboa Ginásio Clube e edifícios com caravelas lisboetas nas fachadas, encimadas com a data da inscrição. Havia também uma esquadra da polícia onde o pai chegou a trabalhar - um pai inspetor e uma mãe doméstica. E ele e o irmão a dobrar esquinas em corrida, a ziguezaguear pelas ruas da cidade, na pendura dos elétricos em movimento. Enquanto o irmão brilhava nos quadros de honra das escolas por onde passava, Francisco era um insurreto assumido. Perdia-se nas lutas de índios e cowboys e as marcas que ainda tem no queixo provam-no ainda hoje. .Frequentou o Liceu Camões e a Mocidade Portuguesa, onde praticou remo e campismo. Os treinos de remo e canoagem aconteciam na Doca de Santo Amaro, em pleno rio Tejo. Para os acampamentos-escola o Exército emprestava tendas, atrelados, tanque-de-água, autotanques, fogões, macas-cama, o necessário para que os rapazes aprendessem e praticassem o que poderia vir a ser futuro.Viria a ser o futuro do irmão do Francisco. A guerra colonial e uma mobilização para Angola que foi sentida pela família em 1964. Nesses meses foram mobilizados cinco mil soldados e o seu irmão não tornaria. Os pais desesperaram com a possibilidade do seu mais jovem ir, impediram-no de frequentar a Academia Militar e Francisco teve a sorte de apenas fazer tropa na Artilharia. Dias difíceis e trágicos. Que Francisco anotou num diário que guardava com um cadeado. Desde os 14 anos que anota tudo, um hábito de toda a vida, 70 agendas escritas da primeira à última folha, uma vida em registo. Lá estão as férias em Tabuaço, a terra dos pais quando os “barragistas” aumentavam a população e o movimento na vila. Abria-se a água das 6h00 às 8h00 horas e depois das 18h00 às 20h00. Os rapazes jogavam à bola na rua, e quando avistavam a GNR, fugiam desalmados. Na agenda lá está seu casamento com Maria Adelaide, em setembro de 1971, e o nascimento da sua única filha. E também o tal dia em que o tio o apanhou de surpresa..A Caixa de Crédito Agrícola funcionava numa garagem. Era uma estrutura pequena com graves problemas. Francisco conseguiu resolver o principal dos dramas: a possibilidade de perder o alvará por não cumprimento do acordo de empréstimo com a Caixa Geral de Depósitos. Francisco ganhou então as eleições e mudou por completo o paradigma. Tabuaço era o penúltimo concelho mais pobre do país, um lugar com problemas nos acessos e um traçado com um século, o que condenava a vila ao isolamento. O que era uma dificuldade passou a ser uma oportunidade. Ali, mais do que noutro lugar, tornava-se fundamental uma Caixa Agrícola que defendesse o cooperativismo. Tudo teria de ser um todo, a terra e a Caixa, uma família unida na dificuldade. Francisco orgulha-se de ter ajudado a nascer um lar, uma fundação e uma associação de desenvolvimento agrícola e prestação de serviços que passou a apoiar os agricultores da região. Os tabuacenses não são nem nunca foram investidores. Francisco nunca saiu de uma reunião com uma decisão que não fosse tomada coletivamente. Ouvir os seus pares e os associados era uma regra sagrada. Hoje, no tempo de todos os balanços, a sua consciência está tranquila. Quando sai à rua continua em família. A amparar quem lhe pede ajuda ou faz perguntas. E a ser ajudado nas más surpresas, como a morte da mulher há pouco mais de dez anos. E na vida, como no trabalho, Francisco continua a escalada, e sempre que tropeça, a filha dá-lhe a mão. É uma ajuda preciosa. Seguem juntos. .Uma parceria com a Agrimútuo