Michelson
Premium

Solidariedade

Vieram de São Tomé para se curar. Mas estão abandonados à sua sorte

Michelson, Carla e Joana vieram da ilha africana para Lisboa à procura de tratamento. Mas os cerca de 60 euros que recebem da embaixada não lhes permite viver condignamente. Três histórias de vida. Quantas mais haverá como a deles?

Michelson David jogava à bola todas as semanas nos campos de terra batida da sua ilha, mergulhava nas águas mornas do Atlântico, dançava noite fora os ritmos africanos... Parece que foi ontem mas já passaram oito anos desde que está paraplégico, agarrado a uma cadeira de rodas e todos estes bons momentos estão guardados no baú das recordações - tinha então 27 anos, hoje tem 35. A sua ilha, São Tomé e Príncipe, está a quilómetros de distância da rua de habitações baixas nas Galinheiras, em Lisboa, onde ocupou uma casa fria, escura, em que a cozinha e a casa de banho se fundem num mesmo cubículo.

Sofre muito com o frio, está há três ou quatro meses com febre, com uma infeção que não lhe tira o sorriso da cara. Tem escaras e feridas profundas, em carne viva, ao fundo das costas e nas virilhas. Mas infelizmente não lhe doem, se assim fosse seria sinal de que tinha recuperado a sensibilidade. As enfermeiras do centro de saúde vão todos os dias fazer-lhe o penso, a alimentação é levada pela Santa Casa.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Viriato Soromenho Marques

Madrid ou a vergonha de Prometeu

O que está a acontecer na COP 25 de Madrid é muito mais do que parece. Metaforicamente falando, poderíamos dizer que nas últimas quatro décadas confirmámos o que apenas uma elite de argutos observadores, com olhos de águia, havia percebido antes: não precisamos de temer o que vem do espaço. Nenhum asteroide constitui ameaça provável à existência da Terra. Na verdade, a única ameaça existencial à vida (ainda) exuberante no único planeta habitado conhecido do universo somos nós, a espécie humana. A COP 25 reproduz também outra figura da nossa iconografia ocidental. Pela 25.ª vez, Sísifo, desta vez corporizado pela imensa maquinaria da diplomacia ambiental, transportará a sua pedra penitencial até ao alto de mais uma cimeira, para a deixar rolar de novo, numa repetição ritual e aparentemente inútil.

Premium

Maria do Rosário Pedreira

Agendas

Disse Pessoa que "o poeta é um fingidor", mas, curiosamente, é a palavra "ficção", geralmente associada à narrativa em prosa, que tem origem no verbo latino fingire. E, em ficção, quanto mais verdadeiro parecer o faz-de-conta melhor, mesmo que a história esteja longe de ser real. Exímios nisto, alguns escritores conseguem transformar o fingido em algo tão vivo que chegamos a apaixonar-nos por personagens que, para nosso bem, não podem saltar do papel. Falo dos criminosos, vilões e malandros que, regra geral, animam a literatura e os leitores. De facto, haveria Crime e Castigo se o estudante não matasse a onzeneira? Com uma Bovary fiel ao marido, ainda nos lembraríamos de Flaubert? Nabokov ter-se-ia tornado célebre se Humbert Humbert não andasse a babar-se por uma menor? E poderia Stanley Kowalski ser amoroso com Blanche DuBois sem o público abandonar a peça antes do intervalo e a bocejar? Enfim, tratando-se de ficção, é um gozo encontrar um desses bonitões que levam a rapariga para a cama sem a mais pequena intenção de se envolverem com ela, ou até figuras capazes de ferir de morte com o refinamento do seu silêncio, como a mãe da protagonista de Uma Barragem contra o Pacífico quando recebe a visita do pretendente da filha: vê-o chegar com um embrulho descomunal, mas não só o pousa toda a santa tarde numa mesa sem o abrir, como nem sequer se digna perguntar o que é...

Premium

Maria Antónia de Almeida Santos

"O clima das gerações"

Greta Thunberg chegou nesta semana a Lisboa num dia cheio de luz. À chegada, disse: "In order to change everything, we need everyone." Respondemos-lhe, dizendo que Portugal não tem energia nuclear, que 54% da eletricidade consumida no país é proveniente de fontes renováveis e que somos o primeiro país do mundo a assumir o compromisso de alcançar a neutralidade de carbono em 2050. Sabemos - tal como ela - que isso não chega e que o atraso na ação climática é global. Mas vamos no caminho certo.