Urgência do Hospital Garcia de Orta. "Há colegas que chegam a estar quatro vezes por semana de banco"

A urgência de pediatria do hospital de Almada continua com falta de médicos para preencher a escala. Só existem sete especialistas disponíveis durante toda a semana, sendo que só quatro fazem noites. "Está mesmo em rutura", reafirma o sindicato dos Médicos da Zona Sul.

O Hospital Garcia de Orta, em Almada, continua com falta de pediatras para assegurar a escala de urgência. Para preencher as 24 horas dos sete dias da semana, existem no quadro da unidade de saúde apenas sete especialistas, sendo que três não trabalham à noite por terem mais 50 anos (quando deixa de ser obrigatório fazer o horário noturno no Serviço Nacional de Saúde). Os restantes turnos são cumpridos com recurso a tarefeiros. É este o motivo de mais uma conferência de imprensa à porta do hospital, convocada pela Federação Nacional dos Médicos (FNAM), para esta sexta-feira, pelas 12:00.

Os alertas para a falta de pediatras começaram em março e a administração do hospital respondeu com a abertura de pelo menos três vagas para os quadros, mas estas não foram preenchidas, pelo menos na totalidade. "A situação tem vindo a agravar-se. Não tendo havido nenhuma solução para reforçar as escalas de urgência, há de facto uma grave carência de pediatras. Está mesmo em situação de rutura", diz Tânia Russo, do Sindicato dos Médicos da Zona Sul.

De acordo com os sindicatos, existem sete especialistas no Garcia de Orta a fazer urgência pediátrica, sendo que apenas quatros asseguram as noites. Os restantes três têm mais de 50 anos e por isso podem escolher não fazer o horário noturno. Quando o colégio de pediatria da Ordem dos Médico recomenda a presença de pelo menos dois especialistas em cada turno para garantir a segurança do serviço."Obviamente que sete pediatras não chegam para assegurar isso, nem lá perto", indica a médica Tânia Russo.

"Em sete dias, há colegas que chegam a estar quatro vezes por semana de banco de 24 horas", denuncia Guida Pontes da FNAM.

O DN entrou em contacto com o hospital para saber o que está a ser feito para colmatar a falta de especialista, mas a unidade indicou que não conseguiria responder durante o dia "uma vez que temos o Conselho de Administração em reuniões e eventos externos ao Hospital", remetendo as respostas para mais tarde.

Tarefeiros "encontrados às 19:00 para fazer a noite"

Por enquanto, as falhas nas escalas são preenchidas por tarefeiros, evitando assim o encerramento do serviço como chegou a ser colocado em hipótese há uns meses. O Hospital Garcia de Orta tem um dos valores mais altos do país em contratação de prestadores de serviços. Em 2018, de acordo com o relatório social do ministério da Saúde e do Serviço Nacional de Saúde, divulgado em setembro, foram contratadas 140 243 horas no valor de 3 377 454 euros.

Em causa fica a qualidade do serviço prestado, apontam as sindicalistas, com equipas desfalcadas e que por vezes não se conhecem. Os tarefeiros são "muitas vezes encontrados no próprio dia às 19:00 para ir fazer a noite", diz Tânia Russo.

Todos os dias acorrem às urgências de pediatria deste hospital mais de 130 pacientes, estimava o bastonário da Ordem dos Médicos, em março. Para além do trabalho da urgência, os pediatras de serviço têm ainda de dar assistência à unidade de internamento de curta duração e à urgência interna dos doentes da enfermaria de pediatria.

No ano passado, deixaram a unidade hospitalar nove pediatras, segundo a ministra da Saúde, Marta Temido, que não foram substituídos.

Dez chefes de equipa de urgência ameaçam demitir-se

Em setembro, dez chefes de equipa de urgência do Garcia de Orta ameaçaram demitir-se, numa carta dirigida ao Conselho de Administração. Em causa estava a alegada decisão de remover a cirurgia geral do serviço de urgência, o que iria sobrecarregar mais a medicina interna. "É evidente que isso levará a um esgotamento ainda maior dos Internistas na Urgência, para além de pôr em perigo os doentes do foro cirúrgico, que ficam dispersos numa amálgama de doentes ainda maior", escreviam os médicos no comunicado.

"Os motivos elencados são motivos que se arrastam há vários anos, são situações de constrangimentos quer da estrutura organizacional do serviço de urgência quer da composição das escalas e, de facto, não são uma questão de motivo recente", dizia o diretor clínico da instituição, Nuno Marques, na altura.

Esta segunda-feira, a administração do Hospital Garcia de Orta indicava à agência Lusa que "houve um princípio de entendimento para uma base de trabalho com o objetivo para se tentar ultrapassar os problemas" e evitar a saída dos dez profissionais.

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