Sida: Portugal atingiu meta dos 90-90-90, mas objetivos "são modestos"

O país estava ainda longe de atingir a meta definida pela ONU relativa ao tratamento dos doentes diagnosticados. Esta sexta-feira, a Direção-Geral de Saúde anunciou que este objetivo foi alcançado.

O objetivo foi alcançado. Portugal conseguiu atingir a meta dos 90-90-90, um programa das Nações Unidas para o combate ao VIH/Sida que estipulava o objetivo de 90% dos infetados diagnosticados, 90% em tratamento e 90% com carga viral não detetável. O país entra agora no lote de países que alcançaram as três metas, ao lado de países como a Dinamarca, Islândia, Suécia, Grã-Bretanha e Irlanda do Norte. Mas Luís Mendão, um dos doentes seropositivos mais antigos de Portugal, considera que são metas pouco ambiciosas face à evolução da medicina.

"Estes objetivos foram determinados em 2013/2014, quando a realidade sobre os medicamentos era outra e quando ainda não havia a noção universal de que qualquer pessoa infetada deveria ser imediatamente tratada. Por isso, são objetivos modestos quando falamos na realidade de 2019", defendeu, em entrevista ao DN.

Aos 62 anos, Luís dá rosto ao Grupo de Ativistas por Tratamentos (GAT). Foi em 1996 que recebeu o diagnóstico de sida e, desde então, quase tudo mudou para os doentes em Portugal. Principalmente no que toca à carga de medicamentos necessários para o controlo do vírus. "Quando fui diagnosticado, comecei com o regime no qual tomava 32 comprimidos por dia à segunda, quarta e sexta-feira, e 30 nos restantes dias da semana", lembra. De duas em duas horas, num processo que começava às quatro da manhã e terminava à meia-noite. Fora as "muitas restrições alimentares". "Se fosse diagnosticado hoje, teria apenas um comprimido por dia."

Para 2030, a ONU propõe a meta dos 95-95-95.​​​​​

Segundo a diretora do Programa Nacional para o VIH/sida, Portugal tinha em 2017 (os últimos dados disponíveis e que colocam Portugal ao alcance desta meta) mais de 92% de pessoas com a infeção já diagnosticada e 90,2% de doentes diagnosticados em tratamento. Quanto à última meta de 90, os dados oficiais indicam que 93% dos doentes em tratamento tinham o vírus suprimido. Isabel Aldir destacou que o vírus indetetável é equivalente a ser intransmissível, daí a importância de se atingir estas metas.

Os resultados alcançados por Portugal deveram-se a várias políticas de saúde. Mas a dirigente destacou uma decisão "absolutamente fundamental" tomada em 2015, quando se incluíram todas as pessoas infetadas e assintomáticas em tratamento, independentemente dos valores do parâmetro laboratorial que mostram como o sistema imunitário está afetado. "O ano de 2016 foi um ano de transição, por isso, nesse ano, ainda não tínhamos conseguido atingir os 90 nesta meta. Com mais um ano de processo, conseguimos chegar lá. Agora, temos o pleno", acrescentou, em declarações ao DN.

O programa da ONU para o combate à sida tem agora metas mais ambiciosas até 2030, que passam por elevar os três objetivos a 95%. O que Isabel Aldir admite ser "um desafio muito grande".

"Os 90% significam que em 100 pessoas consigo detetar 90, mas há ali dez que passam não detetadas. Para atingir a meta dos 95, significaria que só há cinco às quais não conseguiria chegar", começa por explicar. "Apesar de o número parecer uma diferença mínima, é um esforço muito grande. Encontrar esta população [a mais] vai exigir da nossa parte cada vez mais conhecimento e mais organização. Temos de conseguir chegar a população que muitas vezes não tem contacto com os serviços de saúde. E isto não é um trabalho exclusivo da saúde. É preciso trabalhar com o poder autárquico, aqueles que estão mais próximos das pessoas, mas também com as organizações."

Antes disso, alerta, é necessário fazer evoluir os métodos de prevenção da doença. "Se não detetarmos as pessoas, não temos como as tratar", por isso, este deve ser "o ponto de partida desta cascata". Embora reforce que depois da prevenção não se deve descurar a retenção em tratamento dos doentes diagnosticados.

Luís Mendão apela ainda ao investimento nesta área da saúde, uma daquelas em que "tratando mais doentes o Estado paga menos no total". O preço unitário dos medicamentos tem decrescido e se em 2016 significava "um custo de 230 milhões ao Estado", em 2018 este valor "situa-se nos 272 milhões". "E com menos conseguimos tratar mais pessoas", recordou. Por isso, propõe que seja realocado mais dinheiro "para se poder agora saltar para o objetivo seguinte", a meta 95-95-95 estabelecida pela ONU.

Ainda que consciente do desafio que será alcançá-la, a diretora do Programa Nacional para o VIH/sida acredita que Portugal tem "todas as condições para a atingir".

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