Segurança online. Portugal campeão na área onde mais faltam professores e recursos?

Os alunos portugueses são os mais bem preparados pela escola para ter uma presença digital e online segura, conclui estudo internacional sobre alfabetização informática. Apesar da escassez de recursos humanos e materiais nas escolas, o ensino resiste e é campeão nesta área. Mas traz consequências a outras, diz especialista.

É na disciplina de informática que as escolas dizem ter mais défice de professores. O panorama atual motivou inclusive a Direção-Geral da Administração Escolar (DGAE) a autorizar a contratação de profissionais apenas com habilitações de grau superior no âmbito das TIC (Tecnologias da Informação e Comunicação) - e não de ensino -, mas também de docentes de qualquer outra área, desde que estejam acreditados na área de informática, para dar aulas de informática. Enquanto as escolas sufocam com a escassez de professores nesta área, os alunos portugueses somam pontos como campeões na aprendizagem sobre segurança digital e online. O especialista João Marôco explica aquilo que, à partida, soa dicotómico.

O Estudo Internacional de Alfabetização em Informática e Informação (ICILS) concluiu que os jovens portugueses são os mais bem preparados pela escola para usar a internet em segurança, segundo dados divulgados esta terça-feira, que teve como base as respostas dos próprios estudantes sobre o que aprendem nas salas de aula. Mesmo que as dificuldades sentidas nas escolas sejam conhecidas pelo João Marôco, os dados que colocam Portugal no topo da tabela não lhe soaram a surpresa. "Sabemos que uma das áreas das Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC) na qual os professores insistem é exatamente nas questões da segurança online e do ciberbullying", explica o professor universitário de estatística e análise de dados.

Além disso, a promoção da segurança digital e online tem sido o foco de inúmeras iniciativas que decorrem nas escolas, ao abrigo da plano de prevenção e combate ao bullying e ao ciberbullying, lançado no ano passado pelo Ministério da Educação. Ainda em outubro, o governo lançou o programa Escola Sem Bullying. Escola sem violência , de forma a "dotar as comunidades educativas de uma série de instrumentos que ajudem a prevenir e combater esta nova forma de violência, sobretudo entre os mais jovens", lembra. Durante todo o ano letivo, o Centro de Sensibilização SeguraNet, da Direção-Geral da Educação (DGE) promove campanhas de sensibilização, formações e concursos para estimular o conhecimento sobre uma presença online mais segura e responsável.

Certo é que os mais recentes dados divulgados pelo ICILS 2018 em nada parecem refletir as deficiências sentidas nas escolas nas últimas décadas, desde a escassez de professores de informática à falta de material, senão aqueles encontrados nas primeiras conclusões do relatório, já divulgadas em novembro do ano passado, lembra o especialista. João Marôco, que já coordenou estudos ICILS e outros internacionalmente reconhecidos, como o PISA, TIMSS e PIRLS, frisa que estas falhas estão patentes nos dados que apontam que 99% dos jovens portugueses de 13 e 14 anos não sabe ler informação online.

Na melhor das hipóteses, as escolas deveriam garantir "um computador por cada um ou dois alunos". As estatísticas mostram que há atualmente um computador por cada sete alunos.

De forma a estimular o "pensamento computacional", é preciso "que os jovens tenham recursos", sejam eles humanos ou materiais, diz o analista. De acordo com dados da Federação Nacional de Professores (Fenprof), o grupo de recrutamento de professores de informática era o mais afetado: em novembro do ano passado, entre os 20 600 estudantes afetados pela falta de docentes, cerca de cinco mil devia-se a esta disciplina, confirmando a preocupação do analista.

Quanto aos equipamentos, na melhor das hipóteses deveria haver "um computador por cada um ou dois alunos", com "software adequado", acrescenta João Marôco. O que não se verifica nas escolas portuguesas, sublinha, onde a realidade numérica está bastante distante da ideal: segundo o relatório "Educação em Números 2019", da Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência (DGEEC), atualmente há um computador por cada sete alunos.

E não só os materiais estão em falta, como os que existem "estão obsoletos" e a ligação à internet é limitada., lembrou João Marôco. Uma queixa "generalizada entre professores", que "até gostavam de usar mais as TIC em contexto de sala de aula, mas sentem necessitar do apoio da escola não só em termos de formação como de equipamento".

O Ministério da Educação garante que a melhoria dos recursos é uma das suas principais bandeiras para a atual legislatura. Em comunicado, a tutela escreve que, "no âmbito do Orçamento do Estado 2020, vai avançar com uma iniciativa nacional para a melhoria da internet nas escolas, que passa pelo apetrechamento tecnológico e pelo aumento e melhoria dos equipamentos de computação."

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