Falta de professores de Informática leva escolas a contratar profissionais sem habilitação

Nos últimos anos, vários professores de Informática regressaram às escolas, depois de anos à espera de uma nova oportunidade. Mas continuam a ser insuficientes para as necessidades. Tudo acontece numa era em que se reivindica mais tecnologia nas escolas.

A falta de professores ainda é uma realidade em várias escolas espalhadas pelo país, sobretudo em Lisboa e Faro. A Federação Nacional de Professores (Fenprof) estima que haja, atualmente, 20 600 estudantes afetados, em disciplinas como Inglês, Geografia, mas principalmente Informática. Este é o grupo de recrutamento com mais falta de professores, deixando 4500 alunos sem aulas. E "já estão a aparecer profissionais nas escolas com poucas habilitações e poucos conhecimentos", diz a presidente da ANPRI - Associação Nacional de Professores de Informática. Fernanda Ledesma conta que "os diretores têm validado tudo, porque estão desesperados para não terem os alunos sem aulas durante o ano inteiro".

Ainda segundo o dirigente da ANDAEP - Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas, começam a chegar às escolas professores com "habilitações mínimas", isto é, "sem a formação necessária para darem com toda a legitimidade esta disciplina", apenas com pequenas formações na área de informática. E o problema começa a ser "transversal a todo o país", explica Filinto Lima. "Dizemos que é mais grave em Lisboa e no Algarve, devido às rendas altas que afastam os professores, mas acontece um pouco por todo o lado. E tem que ver com o facto de esta ser uma profissão desvalorizada e nada atrativa para os mais jovens."

O jovem Miguel Duarte, de 21 anos, parece ser exemplo disso mesmo. O ensino não passa sequer pela cabeça deste estudante do 4.º ano de Engenharia Informática na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP). "Nunca ponderei", garante.

Foi ainda em criança que começou a desenvolver o gosto pela área em que quer vir a trabalhar. "Mexia muito em computadores, era interessado." Por isso mesmo é que não hesita em dizer que o que quer mesmo é "trabalhar em Informática e não ensinar sobre ela". E confessa: "Até agora não me cruzei com um colega que dissesse que quer dedicar-se ao ensino."

A solução poderá passar "não só por valorizar mais esta profissão", mas, a curto prazo, "fazer algumas alterações aos normativos sobre a acumulação de funções de horas extraordinárias", diz a presidente da ANPRI. "Se um professor puder fazer acumulação e ganhar mais, se calhar já se arrisca a deslocar para outra escola e cidade. Se eu tiver um horário de 12 horas que ninguém quer, posso distribuí-las pelos professores que já estão a lecionar, se estiverem dispostos a aproveitar. A solução está do lado do ministério", esclarece Fernanda Ledesma.

Na sua perspetiva, esta solução resolveria a necessidade de colocar docentes sem habilitações. "Não estou a criticar a entrada de novas pessoas, porque nós precisamos disso. Mas põe em causa a qualidade de ensino", lembra.

Docentes estão a voltar, mas ainda "não são suficientes"

Apesar da escassez de profissionais neste grupo de recrutamento, desde 2014 que o número de docentes de Informática em funções tem aumentado, depois de anos em sentido decrescente. Segundo a presidente da ANPRI, a dicotomia é simples de explicar: depois de "anos em que a Informática deixou de ser valorizada nas escolas", retirando professores das mesmas, "alguns estão agora a voltar", diz Fernanda Ledesma. Ainda assim, "não são suficientes".

Se antes os profissionais "tentavam (candidatar-se) por todos os lados", quer para empresas quer para escolas, agora o paradigma mudou. "Neste momento, há muita oferta para a área de informática" e não é nas escolas que os formados encontram as melhores opções de empregabilidade, confessa Fernanda Ledesma. "A situação inicial numa empresa não é logo a melhor, as pessoas não começam logo a ganhar muito bem - embora, ao fim de um tempo, consiga estar a ganhar muito mais do que na educação -, mas aqui pesa a questão da progressão. A nossa área é bastante atraente para trabalhar, mas não para ensinar."

Uma tese reiterada por Ângela Gaspar, de 35 anos, professora de Informática em Santarém. "Só está no ensino quem gosta de ensinar. Ganha-se muito mais nas empresas." Mas, por paixão, ela própria é o exemplo contrário à regra que diz existir. "Acabei o meu curso em 2008, consegui colocação até ao ano de 2010, a partir daqui fui concorrendo a ofertas de escola, mas nunca havia horários. Fui dando umas aulas extracurriculares, na altura em que o computador Magalhães chegou às escolas, mas depois nunca mais consegui ter horário", conta. Como ela, "muitos outros saíram".

Entre os anos 2010 e 2014, decresceu drasticamente, de cerca de cinco mil para cerca de três mil, segundo dados da Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência (DGEEC). O que a presidente da ANPRI diz ter sido fruto das políticas dos antigos ministros Maria de Lurdes Rodrigues e Nuno Crato", que "cortaram horas no currículo".

"Pensavam que as novas tecnologias não eram necessárias nas escolas, fecharam cerca de cem turmas de ensino profissional na área de informática, para inaugurar a nova via do ensino vocacional (que entretanto voltou a fechar), acabaram com os CEF", recorda Fernanda Ledesma. Por isso, "milhares de docentes ficaram de fora e muitos destes nunca mais conseguiram ter colocação, tiveram de refazer a vida deles". "Alguns foram fazer formações e concorreram para empresas, outros abriram o seu próprio negócio e outros concorreram para escolas profissionais." A verdade, conta, é que "ninguém ficou à espera que o ensino os quisesse receber outra vez".

E "assim chegamos ao dia de hoje", com um número de profissionais que continua a ser insuficiente para cobrir as necessidades das escolas. Porque entretanto os CEF regressaram, bem como os cursos profissionais de Informática.

Aos poucos, alguns docentes começam mesmo a voltar. Como é o caso da professora Ângela Gaspar, que depois de cerca de oito anos afastada do ensino, por falta de oportunidades, tirou proveito da conjuntura e regressou às salas de aula. Durante seis anos, trabalhou "numa área que nada tem que ver nem com o ensino nem com a informática". Até que, no ano passado, começou a aperceber-se de "que estavam a abrir alguns horários a concurso e que havia falta de professores". "Como não estava a sentir-me muito realizada no meu trabalho, concorri", lembra.

Apenas 20% dos alunos em Portugal mostram estar preparados para trabalhar de forma independente com computadores.

O incremento do número de professores de Informática faz-se notar particularmente a partir de 2015, como reflexo de medidas tomadas pelo Ministério da Educação nos últimos anos, no sentido de abrir mais oportunidades de aprendizagem de Informática nas escolas. Fernanda Ledesma dá o exemplo do projeto de Iniciação à Programação no 1.º ciclo do ensino básico, iniciado em 2015 e que envolveu mais de 70 mil alunos até 2017, altura em que fechou, pois a tutela "achou que as alterações que estava a fazer ao currículo (como o alargamento da disciplina de TIC do 5.º ao 9.º ano) cobriam esta aprendizagem". Justificação com a qual a presidente da ANPRI não concorda. "O que fizeram foi dividir o tempo que dávamos em TIC por vários anos", lamenta.

As estatísticas, essas, "oscilam consoante as vontades políticas", frisa a presidente da ANPRI.

A profissionalização como entrave a novas entradas

Um dos entraves a que mais jovens se interessem pelo ensino deve-se, em parte, ao percurso necessário para a formação, garante a professora Ângela Gaspar.

Já houve dois tipos de percurso académico para os professores de Informática. Antigamente, a classe docente deste grupo de recrutamento poderia seguir imediatamente para cursos superiores em ensino de Informática, entretanto "extintos" porque "já não havia professores de Informática suficientes", explica a representante da ANPRI, também ela professora de Informática.

Por isso, atualmente, "a maior parte dos professores chegam de diferentes cursos de Informática (do ensino superior) e, depois de lecionarem durante algum tempo, optam entre fazer mestrado no ensino ou profissionalizarem-se em serviço". Daqui, seguem para a disciplina de TIC (Tecnologias da informação e comunicação - obrigatória do 5.º ao 9.º ano de escolaridade), para cursos profissionais, opcionais de Informática no ensino secundário ou mesmo para os Cursos de Educação e Formação (CEF) do ensino básico.

"Os alunos têm falta de competências na área digital, por consequência das más políticas desta altura, em que se cortou porque se assumiu que os alunos já sabiam tudo de informática. O que se veio a comprovar é que não sabem", diz a presidente da ANPRI.

Mas chegar à profissionalização - que permite que os docentes estejam aptos para concorrer a todos os concursos da escola - pode ser difícil. Há apenas dois cursos de profissionalização no país, um em Lisboa (na Universidade Nova) e outro em Vila Real. A professora Ângela nunca teve oportunidade de o fazer, por isso, só pode concorrer a ofertas de escola (que põe a concurso os horários que não são preenchidos pelos professores contratados). "Dura cerca de dois anos e seria um grande esforço, por estar tão longe", explica. "Depois há a profissionalização em serviço, para a qual temos de ter cinco anos de ensino. Mas chegar aos cinco anos de serviço não é fácil."

Por isso mesmo, Ângela considera que uma das principais medidas a ser tomadas no sentido de cativar mais professores para os estabelecimentos de ensino passa por apostar na formação mais fácil. "Porque eu não ganho o mesmo do que um professor profissionalizado."

Uma disciplina "essencial" nesta "era global"

Quando há um problema, como a falta de professores, "a solução dos ministérios tem sido a de cortar", diz a presidente da Associação Nacional de Professores de Informática. "É o caminho mais fácil", cortar no número de aulas, nos recursos. "E eu só espero que isso não aconteça. Porque os alunos têm falta de competências na área digital, por consequência das más políticas desta altura, em que se cortou porque se assumiu que os alunos já sabiam tudo de Informática. O que se veio a comprovar é que não sabem", lamenta Fernanda Ledesma.

E há realmente estudos que o comprovam. De acordo com o mais recente relatório do International Computer and Information Literacy (ICILS), que avaliou a literacia em computadores e informação, bem como o pensamento computacional, apesar de terem nascido rodeados de tecnologia, os jovens de 13 e 14 anos de hoje mostram grandes debilidades no uso das tecnologias. O estudo testou os conhecimentos de mais de 46 mil estudantes de 12 países e dois sistemas educativos, entre os quais três mil estudantes de 215 escolas portuguesas.

Segundo o documento, apenas 20% dos alunos em Portugal mostram estar preparados para trabalhar de forma independente com computadores. Um em cada quatro (27%) encontra-se no nível 1 (numa escala até 4), demonstrando ter apenas um conhecimento funcional dos computadores enquanto ferramentas profissionais.

"A informática já não é uma moda há algum tempo e os decisores levaram anos até perceber isto", diz a presidente da ANPRI. Para Fernanda Ledesma a solução está no reforço do ensino específico de Informática e não na "integração transversal de informática nas várias disciplinas". "Acho muito bem que os professores o façam, mas não garante o acesso a todos os alunos, porque posso ter a sorte de ter uma direção de turma dinâmica e com acesso a todas as disciplinas, como posso não ter nada disto. E a informática é essencial, nesta era global, já faz parte do dia-a-dia deles", lembra.

Fundação Calouste Gulbenkian concluiu que os alunos que estudaram com o equipamento registaram um sucesso escolar de quase 100%.

O caminho para bons resultados deverá fazer-se também através do fomento de ferramentas nas escolas, frisa. Mas o parque informático das escolas está frágil. De acordo com o relatório "Educação em Números 2019", da Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência (DGEEC), no ano em que o computador Magalhães (um portátil distribuído por todos os alunos do 1.º ciclo) tomou de assalto as escolas, havia um aluno por computador no 1.º ciclo, mas agora há cerca de sete, uma década depois.

Não só faltam computadores como os que existem estão obsoletos e a internet é limitada. Ainda neste ano, a Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas correu as escolas do país de norte a sul para fazer um registo das maiores dificuldades encontradas pelos diretores no processo de ensino e aprendizagem. "Este foi um dos temas mais focados. É uma queixa generalizada", contava ao DN o presidente da associação, Filinto Lima.

Mas provas não faltam de que os estudantes podem aprender melhor com o auxílio da tecnologia. Depois de lançar o projeto Tablets no Ensino e na Aprendizagem (TEA) em várias escolas, de 2014 a 2016, a Fundação Calouste Gulbenkian concluiu que os alunos que estudaram com o equipamento registaram um sucesso escolar de quase 100%. A investigação mostrou que os alunos participantes na experiência "foram todos aprovados, à exceção de um, tendo sido calculada uma taxa global, para estes alunos participantes, de sucesso escolar muito próxima dos 100%". O programa envolveu no início do primeiro ano um total de 51 alunos e 18 professores, e no segundo 44 alunos e 15 professores.

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