Seca. Governo vai suspender novos furos de água no Alentejo e Algarve

Com a situação de seca que afeta o país, o ministro do Ambiente afirma que é preciso mudar o consumo da água, não só na vida de cada um, mas também na atividade económica, nomeadamente na agricultura e turismo.

Suspender novos furos de água no sul do país e intensificar a promoção da reutilização dos consumos urbanos e na agricultura. Estas são medidas que o Governo anunciou esta quarta-feira para fazer face à situação de seca que Portugal atravessa, em que as regiões mais problemáticas são o Alentejo e o Algarve.

"Objetivamente a seca é um problema estrutural" em Portugal afirmou o ministro do Ambiente e da Transição Energética no final da reunião da Comissão Interministerial da Seca. "Parece claro a todos os que estiveram na reunião que em consenso e em diálogo com todos os setores temos mesmo de mudar o perfil de consumo em Portugal", afirmou Pedro Matos Fernandes.

E para fazer essa mudança nos hábitos de consumo da água, o Governo conta com "três parceiros principais": "as autarquias, a agricultura e, no caso do Algarve, o turismo por causa da rega dos campos de golfe".

Em conferência de imprensa, que contou com Maria do Céu Albuquerque, responsável pela pasta da Agricultura, o ministro do Ambiente referiu que este ano, nas reservas de águas, "há uma diferença muito evidente" a norte e a sul do rio Tejo, sendo o sul do país a região mais problemática.

As duas tutelas vão começar a partir de 30 de novembro a reunir-se com representantes dos setores que representam a maior parte do consumo de água: autarquias, agricultura e setor turístico do Algarve, em foco por causa do consumo de água para manter os campos de golfe.

Para minimizar os efeitos da seca, sobretudo no Alentejo e Algarve, Pedro Matos Fernandes anunciou a suspensão de "novas captações de água subterrânea em algumas massas de água no sul do país", respeitando os compromissos que já existem, fez questão de salvaguardar. "Vamos intensificar a promoção da reutiização daquilo que é o consumo de água ao nível do uso urbano e da rega", acrescentou.

Matos Fernandes assegurou que o Governo está "acompanhar ao dia aquilo que são as situações mais críticas", referindo-se a "um conjunto de albufeiras que se concentram quase exclusivamente no sul do país".

"Se o território tem menos água também a utilização que fazemos dela tem de ser menor", diz ministro

Pensar e fazer de modo diferente é, no fundo, o que o Executivo pretende implementar face ao problema da seca. Nesse sentido é necessário que haja uma mudança nos hábitos de consumo de água de todos os portugueses, reforçou. "Por comsumidor não se entenda só o consumidor individual mas também o da atividade económica, em que no sul do país a agricultura é uma evidencia. No Algarve, não falamos só em agricultura, mas também nos campos de golfe"

De acordo com Matos Fernandes, desde 2015 só em 30% dos meses choveu mais do que seria de esperar. "No último ano hidrológico isso só aconteceu em três meses e um deles é agosto, em que obviamente mesmo que tenha chovido a mais é algo marginal. Sabendo isto, nós temos mesmo que adatar toda a nossa atividade ao território", sublinhou.

"E se o território tem menos água, também a utilização que fazemos dela tem de ser menor", considerou. E essa mudança passa pela vida de cada um dos portugueses, mas também "pela forma como as autarquias lavam as ruas, regam os seus jardins, como os campos de golfe têm de passar a ser regados utilizando cada vez mais águas residuais tratadas". E passa também pela utilização dessas mesmas águas residuais tratadas, por exemplo, "na rega de culturas permanentes na agricultura", afirmou.

Enfrentar este problema passa também pela aprovação de projetos futuros, em qualquer setor, que contemplem "o stress hídrico em que nos encontramos". "Isto é a menor quantidade de água que é expectável que Portugal venha a ter no futuro como água disponível", explicou Matos Fernandes.

Usar a tecnologia para um uso mais eficiente da água

Após a reunião interministerial, o ministro assumiu que o país não estava preparado para enfrentar este problema "estrutural". "Quando nos confrontamos com a seca em 2017 estávamos objetivamente mal preparados, não tínhamos hábitos de trabalho em comum. Nem é só a nível político, mas dos próprios serviços", considerou.

O ministro referiu que depois de 2017, ano em que mais de 80% de Portugal continental esteve em seca severa, houve uma melhoria na forma como se enfrentou o problema, "nomeadamente a transferência de água entre albufeiras, de onde há mais para onde há menos, passaram a ser feitas programadamente, reduzindo imenso o impacto que a seca tem por exemplo na atividade da agricultura". Um setor que tem também de encontrar soluções para minimizar os efeitos da seca.

"Esta situação em que nos encontramos de seca severa é estrutural e isto carece de medidas concretas também na agricultura", afirmou esta quarta-feira a ministra Maria do Céu Albuquerque. "Em conjunto com o Ambiente, mas também com outras áreas da governação, estamos imbuídos com este espírito de trabalharmos em conjunto para encontrarmos soluções que sirvam no imediato, mas que permitam garantir a sustentabilidade da agricultura porque só assim podemos garantir do desenvolvimento do nosso país", afirmou.

Nesse sentido, a ministra da agricultura vincou "a necessidade de olhar para o perfil das culturas, de verificar a sua necessidade hidrica ao longo do seu ciclo de vida e, com isso, fazermos as melhores opções".

Um trabalho que tem de ter como aliado "a utilização de tecnologia para podermos fazer face a um uso cada vez mais eficiente da água", destacou.

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