Ritmo cardíaco, oxigenação, febre. A app que deteta sintomas de covid nos idosos

Se um destes parâmetros estiver alterado, a aplicação emite um alerta. O projeto, que já está em protótipo, chama-se HomeSafe e foi criado por alunos da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, que dizem que agora só falta o financiamento.

É a primeira vez que estão todos juntos presencialmente, desde que, em abril, se lançaram neste projeto de desenvolver uma aplicação que ajudasse os lares a identificar mais cedo potenciais casos de covid-19.

O país estava em confinamento e as notícias de surtos em lares eram preocupantes. De acordo com os dados da Direção-Geral da Saúde relativos ao mês de abril, cerca de 40% das mortes por covid-19 em Portugal foram de idosos residentes em lares e tornou-se claro para um grupo de estudantes de Engenharia da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa (FCT NOVA) que era urgente desenvolver uma forma mais eficiente de monitorizar os sintomas da doença nesta população de risco: tosse, fadiga, dores de cabeça, aumento da temperatura, diminuição dos níveis de saturação de oxigénio e alteração da frequência cardíaca.

Foi assim que nasceu o projeto HomeSafe, no âmbito da plataforma BeyondCOVID, desenvolvida pela FCT NOVA para encontrar soluções tecnológicas para combater a doença, que contou com o empenho e o trabalho voluntário dos estudantes Carolina Nascimento, Daniela Martins e Joana Coutinho, do Mestrado Integrado em Engenharia Biomédica, João Corvo e Andrian Moldovan, do mestrado integrado em Engenharia Eletrotécnica e de Computadores, David Moura, do mestrado integrado em Engenharia Informática, Marie Marechal, do mestrado em Materiais Avançados e Reciclagem Inovadora e Pedro Dias, ex-aluno de Engenharia Biomédica, sob orientação de Cláudia Quaresma, professora no Departamento de Física e Ana Rita Londral, diretora do Value for Health CoLAB.

O João, a Daniela, a Joana, a Carolina, o Pedro e a professora Cláudia Quaresma não escondem o orgulho e o entusiasmo de poderem já mostrar (e explicar) o protótipo, em fase final de testes, em que estão a trabalhar desde abril.

João Corvo é o primeiro a falar, para explicar o dispositivo: "Tem um apoio para o braço ligado a um oxímetro, que mede os batimentos cardíacos e a oxigenação, e a um sensor de temperatura, que mede a febre. A função é medir esses parâmetros, especialmente em pessoas idosas, e, se estiverem alterados, através da nossa aplicação, gerar um sinal de alerta", diz.

A aplicação é instalada num smartphone ligado por Bluetooth ao dispositivo, em que cada utilizador antes de se registar responde a um questionário e, depois de fazer login, antes de cada utilização, responde a outro.

"Para criarmos o questionário, fizemos vários testes com os nossos avós para perceber se eles conseguiam adaptar-se ou não, e isso foi muito importante para percebermos que as questões tinham de ser o mais simples, objetivas e diretas possível", diz Joana Coutinho.

Uma das coisas que surpreenderam Daniela Martins foi que, estando à disposição dois modos de interação - escrito e de voz -, a maioria dos avós preferiu o escrito.

"Pusemos dois modos de interação, um de escrita e outro de voz, para as pessoas que não se sentem à vontade para escrever, e para nossa surpresa a maioria optou pela escrita. No caso de voz, as perguntas são lidas e a resposta é dada através do microfone. Para fazer o login basta pôr o nome e a data de nascimento, porque as pessoas mais velhas por vezes têm dificuldade em memorizar passwords, e nós tivemos isso em consideração. Antes da medição dos parâmetros, o utilizador deve responder a um questionário com perguntas de despisto sobre covid-19", explica Daniela, adiantando que o grande objetivo do dispositivo é uma permanente monitorização de sintomas, que faz a triagem, evita idas desnecessárias ao hospital e permite uma deteção precoce de casos de covid-19, reduzindo assim o risco de surtos.

A coordenadora Cláudia Quaresma esclarece que a aplicação foi criada a pensar na covid-19 e nos mais velhos, mas pode ser adaptada a outras faixas etárias e outras patologias respiratórias. "A grande utilidade é que o dispositivo, estando ligado à instituição cuidadora do idoso, seja lar seja apoio domiciliário, ao SNS ou à Saúde 24, por exemplo, emite um alerta automático caso os parâmetros se apresentem alterados, sem que a pessoa tenha de fazer nada, e esta é imediatamente sinalizada".

"Mas também pode ser usado por uma pessoa que já tenha a doença para monitorizar a evolução dos sintomas e dar alerta quando estes sofrerem alterações", acrescenta Joana, orgulhosa do protótipo em fase final de testes.

"Este é o protótipo que vamos testar em laboratório, mas depois haverá todo o desenvolvimento de design para o tornar mais ergonómico. Agora só falta o financiamento. Mas temos de dizer que contámos com a colaboração de vários parceiros para chegar até aqui: o centro de investigação UNIDEMI, o CHRC, da Nova Medical School, o Hospital Curry Cabral, a empresa PLUX, que disponibilizou os sensores, e a FCT FABLAB, que além do suporte feito através de impressão 3D apoia na fase de testes", diz a professora Cláudia Quaresma. "Já estamos a imprimir outro suporte, que é uma pulseira", adianta Pedro Dias.

O que espera este grupo de estudantes da sua invenção? "Que tenhamos financiamento, mas sobretudo que ajude os lares a detetar as pessoas que estão e não estão infetadas, que é uma dificuldade que todos os dias ouvimos nas notícias", diz João Corvo, em jeito de porta-voz.

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