Químico na água da torneira não é preocupante e bebê-la é seguro, garantem especialistas

Portugal "tem uma percentagem de cumprimento muito elevada" dos valores do componente químico presente na água da torneira que, segundo um estudo, está associado a cancros da bexiga. "Não merece uma preocupação excessiva", diz ao DN o presidente da associação ambientalista Zero. O responsável da Entidade Reguladora dos Serviços de Águas e Resíduos garante que beber água da torneira é totalmente seguro.

Um estudo revelado esta quarta-feira aponta que em mais de 6500 casos anuais de cancro da bexiga, cerca de 5% na Europa, incluindo em Portugal, podem estar ligados à exposição de químicos, os trihalometanos (THM) presentes na água da torneira em vários países, incluindo em Portugal. Mas não há motivo para alarme, dizem os especialistas nacionais. Os dados mais recentes, referentes a 2018, indicam que o país "tem uma percentagem de cumprimento muito elevada" dos limites aos valores deste componente químico, segundio diz ao DN Francisco Ferreira, presidente da associação ambientalista Zero e professor no departamento de Ambiente na Universidade Nova de Lisboa. Para este especialista, há que estar atento, mas o caso "não merece uma preocupação excessiva", refere.

Também o presidente da Entidade Reguladora dos Serviços de Águas e Resíduos (ERSAR) desvaloriza o estudo e garante que beber água da torneira é absolutamente seguro em Portugal.

O valor limite da concentração dos componentes químicos trihalometanos (THM) é de 100 microgramas por litro na água que chega ao consumidor, valor que está estabelecido na legislação portuguesa e na União Europeia. Segundo o referido estudo de investigadores do Instituto de Saúde Pública de Barcelona (ISPB), Portugal está entre os países em que a concentração destes compostos químicos têm picos em que se ultrapassam o valor permitido.

O próprio estudo indica, porém, que a concentração anual média de THM na água da torneira em Portugal é de 23,8 microgramas por litro, menos do que em Espanha, Inglaterra, Grécia e Irlanda, ainda que mas mais do que nos restantes países do centro e norte da Europa. "É uma questão que temos de estar atentos", afirma Francisco Ferreira, que, em 1991, fez uma tese de mestrado sobre a presença destes componentes químicos nos sistemas de distribuição de água nos EUA.

Como aparecem estes componentes químicos na água?

Como surgem os TMH na água da torneira? "São compostos que habitualmente se formam no processo de desinfeção da água para consumo humano, habitualmente água superficial que tem matéria orgânica que se combina com cloro. Os THM resultam desta combinação, da matéria orgânica com o cloro, que é utilizado no processo de desinfeção", explica Francisco Ferreira. "É um composto que se suspeita ser carcinogénico e, por isso, é regulado e há valores limites afixados", acrescenta.

De acordo com os valores do controlo da qualidade da água para consumo humano, referentes a 2018, "das mais de 14 mil análises efetuadas, só 22 estavam em incumprimento", diz o especialista, tendo como base o relatório da Entidade Reguladora dos Serviços de Águas e Resíduos (ERSAR), que disponibiliza estes valores no seu site. "A avaliação dos THM é fundamental, mas não me parece que em termos de valores nós estejamos numa situação efetivamente crítica", analisa, apesar de, afirma, ser uma questão que merece atenção. "Obviamente o nosso objetivo é termos conecentrações menores de THM, mas também é um facto que não estamos numa situação de considerável ultrapassagem dos valores limite".

Ministério do Ambiente garante "confiança" na água da torneira

Os dados de 2019 ainda não estão disponíveis, mas vão no mesmo sentido, disse à Lusa o presidente da ERSAR, Orlando Borges. Garantiu que é residual a percentagem do composto nas estações de tratamento de água, que é resultante do processo de desinfeção, e acrescentou que os valores mais elevados foram detetados no sul do país, nomeadamente no Alentejo.

O responsável da ERSAR garantiu que beber água da torneira é seguro e que a exposição a um composto associado a cancro apresenta valores residuais

O Ministério do Ambiente, em resposta ao estudo, lembrou também, em comunicado, que há relatórios anuais sobre a matéria e que o último, de 2018, "indica que Portugal mantém o nível de excelência, com o indicador de água segura na ordem dos 99%".

O Ministério também garante à população que pode beber água da torneira "com confiança".

"No último relatório publicado, as análises realizadas à água para consumo humano asseguram que a taxa de cumprimento relativamente ao trihalometano é de 99,4%. Os incumprimentos, muito marginais, são comunicados à autoridade da saúde, num prazo de um dia útil", diz o comunicado do Ministério.

"Beber água da torneira é completamente seguro"

Orlando Borges justificou o facto de as irregularidades detetadas serem mais a sul do país devido a questões climáticas, por a água ser menos abundante e ter mais matéria orgânica, mas destacou a "boa performance" do país nesta matéria.

"É 99% seguro" beber água e os valores de THM são residuais, garantiu o presidente da ERSAR, acrescentando que terminar de vez com a questão passa por alterar as formas de desinfeção da água.

Orlando Borges disse ainda que é conhecida a ligação do cancro com o composto, em níveis altos e não no detetado nas análises à água, e acrescentou que as exigências para com as entidades gestoras "são muito altas".

"Beber água da torneira é completamente seguro", incomparavelmente mais do que se a água não fosse tratada, disse o responsável.

O potencial carcinogénico dos THM já era conhecido, mas o estudo divulgado agora pretende estabelecer uma relação direta entre a exposição a esses compostos e casos de cancro da bexiga. "Investigações anteriores haviam estabelecido uma associação entre a exposição prolongada a THM -- seja por ingestão, inalação ou absorção dérmica -- e o aumento do risco de cancro da bexiga", refere o comunicado do ISPB.

O ISPB analisou a presença de trihalometanos na água da torneira de 26 países da UE, à exceção da Bulgária e da Roménia.

Em termos de percentagem, o ISPB lista como países com maior incidência de casos de cancro da bexiga atribuíveis a exposição a THM Chipre (23%), Malta (17%), Irlanda (17%), Espanha (11%) e a Grécia (10%).

No estudo, Portugal regista uma incidência de 9,1%. Menos do que aqueles países, mas mais do queDinamarca (0%), a Holanda (0,1%), a Alemanha (0,2%) a Áustria (0,4%) e a Lituânia (0,4)

De 2021 casos de cancro da bexiga anuais, 183 terão origem em químicos

Os autores do estudo, publicado no boletim científico Environmental Health Perspectives, analisaram dados recentes sobre os níveis de THM nas redes municipais de água da Europa e estimaram a carga de doença para o cancro da bexiga atribuível à exposição a este composto.

Francisco Ferreira explica que neste trabalho do ISPB é seguida uma metodologia padrão, "que avalia uma grande população". No fundo, fazem uma análise nacional e não ao nível das regiões. O estudo indica o número de ocorrências de cancro da bexiga e é estabelecida uma correlação com as concentrações de THM com base em dados atualizados de várias fontes.

Olhando para o estudo, Francisco Ferreira explica que se pode ler que "em 2021 casos de cancro da bexiga que surgem por ano em Portugal, 183 são devido à presença dos THM face à concentração média que os investigadores identificaram em Portugal".

Embora haja, em Portugal, um cumprimento muito elevado dos valores permitidos destes componentes químicos na água potável, Francisco Ferreira afirma que o objetivo passa por reduzir a sua presença. Admite, no entanto, que a tarefa apresenta-se difícil.

"É complicado porque quando temos 66% da nossa água de origem superficial (albufeiras, rios), há sempre algum teor de matéria orgânica e, portanto, é difícil eliminar completamente o problema", considera. "E o cloro é realmente dos desinfetantes que melhor funcionam para evitar problemas de contaminação microbiológica na água que é distribuída", especifica Francisco Ferreira.

Com Lusa

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