Queda nas ciências "resulta de uma aposta exacerbada noutras disciplinas", diz ministro

O ministro da Educação participou esta terça-feira na apresentação dos resultados do PISA 2018, numa conferência que teve lugar no Centro Científico e Cultural de Macau, em Lisboa. Os resultados reforçam a evolução positiva de Portugal, mas os jovens portugueses estão piores na área das ciências.

"Portugal é caso único na OCDE" (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico), lembrou o ministro da Educação Tiago Brandão Rodrigues, a propósito dos resultados da edição 2018 do relatório PISA - Program in International Student Assessment (em tradução livre, Programa Internacional de Avaliação de Alunos). O país consolidou os resultados atingidos em 2015, quando superou pela primeira vez a média da OCDE, mas desceu significativamente numa das áreas em foco no estudo: a Ciência. O que o ministro considera ser o resultado de um conjunto de medidas, durante o período de governação que embateu com a crise económica, em que se deixou "de parte" disciplinas como as Ciências Naturais.

Entre as três áreas-chave analisadas no PISA (Leitura, Matemática e Ciência), foi na Ciência que se sentiram as maiores diferenças face aos restantes países e economias, tendo-se mantido mais estável na restantes. Na mais recente edição, a média entre todos os jovens portugueses na literacia científica foi de 492 pontos, "uma diferença significativa de menos 9 pontos" em relação a 2015, embora se mantenha acima da média da OCDE por três pontos. Portugal retoma, assim, resultados próximos do nível observado em 2009 e 2012.

O cenário, disse Tiago Brandão Rodrigues, "resulta de algumas apostas feitas recentemente, principalmente durante a crise, durante a governação 2011-2015, com o falado afunilamento curricular e de uma aposta exacerbada de um conjunto de outras disciplinas, deixando um conjunto de outras de parte, nomeadamente as Ciências Naturais". "Acreditamos que agora com um aposta no programa Ciência Viva, as ciências podem ter agora o seu lugar, de corpo inteiro, nas nossas escolas", acrescentou o ministro, em declarações ao jornalistas, à margem da cerimónia de apresentação das conclusões do PISA, que decorreu esta terça-feira em Lisboa, no Centro Científico e Cultural de Macau.

Segundo a edição portuguesa do PISA, coordenada pelo Instituto de Avaliação Educativa (IAVE), não é mais do que um espelho da "tendência decrescente da pontuação média da OCDE na avaliação das ciências que já em 2015 apresentou uma quebra de quatro pontos em relação a 2006". Assim sendo, "quando se analisa a variação média em ciclos de três anos, Portugal é um dos 13 países que apresenta uma variação positiva e significativa de mais 4,3 pontos na avaliação das ciências".

Portugal foi apelidado de "a maior história de sucesso na Europa do PISA" e a mais recente edição 2018 mostra que o título deverá ser para manter. Apesar de os jovens portugueses de 15 anos (amostra do estudo) terem descido ligeiramente no ranking que avalia a sua literacia, continuam a ser daqueles que registam uma maior evolução positiva, num ranking liderado pelos países do sudeste asiático.

"A escola pública tem de ser um elevador social"

Em Portugal, "a probabilidade de um aluno que se situe entre os 25% mais desfavorecidos obter uma pontuação abaixo do nível 2 de conhecimento é aproximadamente três vezes maior do que a de um aluno com estatuto socioeconómico superior obter esta pontuação", alerta o relatório do IAVE, numa análise às conclusões do PISA. Aliás, "o efeito do estatuto socioeconómico e cultural em Leitura é maior em Portugal do que no conjunto dos países da OCDE".

O PISA mostra que apenas 2% dos estudantes desfavorecidos alcançaram os melhores resultados na Leitura em 2018, contrastando com os 16% mais favorecidos que atingiram as mesmas pontuações. Em média nos países da OCDE, 17% dos estudantes mais favorecidos e 3% dos estudantes mais desfavorecidos foram os melhores em leitura.

E a única forma de combater as estatísticas passa por trabalhar o papel da escola pública, disse o ministro da Educação. "A escola pública tem de ser um elevador social para todos aqueles que não tiverem oportunidade, em casa, de adquirir competências", lembra, garantindo que o governo tem trabalhado no sentido de criar "uma escola que seja para todos". Exemplifica com o Programa Territórios Educativos de Intervenção Prioritária, que trabalha em mais de 100 agrupamentos espalhados pelo país, de forma a prevenir e a reduzir o abandono escolar precoce e o absentismo, a redução da indisciplina e a promoção do sucesso educativo de todos os alunos. Mas também "com uma aposta forte na Ação Social Escolar, para compensar uma iniquidade que existe na sociedade."

Na sessão, esteve também presente o analista da OCDE, Francesco Avvisati, que lembrou como "a equidade é uma das áreas em que há mais espaço para melhorias". O especialista apontou países como França, Alemanha, Luxemburgo e Bélgica como os piores exemplos ao nível da igualdade escolar. Do outro lado da tabela, como bons exemplos, estão Canadá, Irlanda, Finlândia, mas também a China (Hong Kong e Macau).

O estudo internacional, divulgado de três em três anos desde o ano 2000, traça um retrato sobre o desempenho dos alunos de 15 anos de 79 países e economias diferentes. Ao todo, a nível mundial, contou com a colaboração de cerca de 600 mil estudantes, representando cerca de 32 milhões de jovens nesta faixa etária. Em Portugal, foram 5932 alunos e 5452 professores, entre 276 escolas de todas as regiões do país.

Cada um participou numa série de questionários que avaliaram os seus conhecimentos em três áreas-chave - Leitura, Ciência e Matemática, sendo a Leitura a área principal desta edição - e a sua relação com a escola. A grande maioria dos alunos de 15 anos participantes no estudo (57,4) encontrava-se no 10.º ano de escolaridade - um número superior ao registados nos últimos anos, em que havia uma maior distribuição por outros anos. Já 17,2% ainda estava no 9.º ano, 7,2% no 8.º ano e 2,4% no 7.º ano. Há ainda 15,7% destes que se encontravam em em áreas de formação e educação vocacionais ou profissionais.

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG