Porque é que o vídeo de fim de ano do Youtube se tornou o mais odiado?

Plataforma de partilha de vídeos passou o ano de 2018 em revista mas deixou os utilizadores zangados. A culpa parece ter sido daquilo que o vídeo não mostrou

Aquele que era suposto ser um vídeo de celebração dos melhores momentos do Youtube em 2018 rapidamente se tornou no vídeo mais odiado da história daquela plataforma, ultrapassando nesta altura os 13 milhões de "dislikes"(o símbolo de "não gosto", com o polegar para baixo) e batendo já largamente o anterior recorde, que pertencia ao videoclipe da música "Baby", de Justin Bieber.

O vídeo "YouTube Rewind 2018: Everyone Controls Rewind", produzido pela equipa da plataforma para passar em revista o melhor conteúdo produzido na plataforma ao longo do ano, inclui alguns dos principais criadores de conteúdo do Youtube, como Ninja, The Try Guys ou Bongo Cat, e outras estrelas mais "convencionais" do showbizz, como o ator Will Smith e os apresentadores/comediantes Trevor Noah e John Oliver, entre outros.

O problema, no entanto, parece estar naquilo que o vídeo não mostra. Assim que o Youtube Rewind 2018 foi publicado, as reações de diversos criadores e utilizadores da plataforma sucederam-se na crítica à omissão por parte do Youtube de vários momentos e personagens marcantes daquela comunidade.

Criadores vs. anunciantes

Entre as ausências mais notadas está, por exemplo, a luta de boxe realizada em agosto entre KSI e Logan Paul, duas estrelas do YouTube que lutaram num espetáculo altamente divulgado e assistido por milhões. Assim como a omissão de Youtubers proeminentes como Felix Kjellberg, conhecido por "PewDiePie," Shane Dawson ou Erika Costell.

Os críticos do vídeo de fim de ano do Youtube apontam que este pareceu, sobretudo, ter sido feito para agradar aos anunciantes, retirando referências a conteúdos e criadores polémicos, num ano em que a plataforma sofreu com a retração de algumas marcas depois da polémica da associação de anúncios a conteúdos de natureza extremista.

Logan Paul, um dos criadores de conteúdo ausentes do Rewind 2018, tem mais de 18 milhões de seguidores mas ficou este ano marcado ppor uma grande polémica, tendo filmado um cadáver pendurado numa árvore no Japão. Outro influente youtuber, Felix Kjellberg, com mais de 77 milhões de seguidores, tem sido muito criticado por fazer vídeos que incluem piadas nazis e elogios a canais anti-semitas do YouTube.

A reação do Youtube

Uma porta-voz do YouTube, Andrea Faville, reagiu em comunicado para reconhecer que "destronar 'Baby' não era exatamente o nosso objetivo este ano". E acrescentou: "Um feedback honesto pode ser doloroso, mas estamos atentos e agradecemos o quanto as pessoas se importam". Faville lembrou que "tentar capturar a magia do YouTube num único vídeo é como tentar capturar um relâmpago numa garrafa", mas salientou uma lição, deixando elogios à comunidade da plataforma: "Também aprendemos que a criação de conteúdo pode ser realmente difícil e isso reforça o nosso respeito e admiração pelos criadores do YouTube que fazem isso todos os dias."

Entretanto, muitos dos criadores ausentes do vídeo de fim de ano publicaram reações nas redes sociais. Como esta, de Felix Kjellberg, no próprio Youtube.

Exclusivos

Premium

Viriato Soromenho Marques

Madrid ou a vergonha de Prometeu

O que está a acontecer na COP 25 de Madrid é muito mais do que parece. Metaforicamente falando, poderíamos dizer que nas últimas quatro décadas confirmámos o que apenas uma elite de argutos observadores, com olhos de águia, havia percebido antes: não precisamos de temer o que vem do espaço. Nenhum asteroide constitui ameaça provável à existência da Terra. Na verdade, a única ameaça existencial à vida (ainda) exuberante no único planeta habitado conhecido do universo somos nós, a espécie humana. A COP 25 reproduz também outra figura da nossa iconografia ocidental. Pela 25.ª vez, Sísifo, desta vez corporizado pela imensa maquinaria da diplomacia ambiental, transportará a sua pedra penitencial até ao alto de mais uma cimeira, para a deixar rolar de novo, numa repetição ritual e aparentemente inútil.

Premium

Maria do Rosário Pedreira

Agendas

Disse Pessoa que "o poeta é um fingidor", mas, curiosamente, é a palavra "ficção", geralmente associada à narrativa em prosa, que tem origem no verbo latino fingire. E, em ficção, quanto mais verdadeiro parecer o faz-de-conta melhor, mesmo que a história esteja longe de ser real. Exímios nisto, alguns escritores conseguem transformar o fingido em algo tão vivo que chegamos a apaixonar-nos por personagens que, para nosso bem, não podem saltar do papel. Falo dos criminosos, vilões e malandros que, regra geral, animam a literatura e os leitores. De facto, haveria Crime e Castigo se o estudante não matasse a onzeneira? Com uma Bovary fiel ao marido, ainda nos lembraríamos de Flaubert? Nabokov ter-se-ia tornado célebre se Humbert Humbert não andasse a babar-se por uma menor? E poderia Stanley Kowalski ser amoroso com Blanche DuBois sem o público abandonar a peça antes do intervalo e a bocejar? Enfim, tratando-se de ficção, é um gozo encontrar um desses bonitões que levam a rapariga para a cama sem a mais pequena intenção de se envolverem com ela, ou até figuras capazes de ferir de morte com o refinamento do seu silêncio, como a mãe da protagonista de Uma Barragem contra o Pacífico quando recebe a visita do pretendente da filha: vê-o chegar com um embrulho descomunal, mas não só o pousa toda a santa tarde numa mesa sem o abrir, como nem sequer se digna perguntar o que é...