No Bairro Alto romano, o ponto de encontro é o largo da igreja

Trastevere é o bairro de Roma onde os jovens se juntam para sair à noite ou beber um aperitivo ao final da tarde. Tudo no largo da igreja, que parece conviver bem a mundanidade que a rodeia

Trastevere, ou para português ler "além do Tibre", é um dos bairros históricos de Roma. E se a capital italiana partilha com Lisboa as sete colinas, também este bairro tem uma correspondência com a capital portuguesa. Tal como o Bairro Alto também ganhou uma nova vida e é um dos bairros mais trendy da cidade italiana.

Não importa o ponto de entrada, todas as suas ruelas vão dar à praça onde reina a Basílica de Santa Maria in Trastevere. E é aqui que os jovens se encontram para sair à noite, conversa ou simplesmente assistir aos constantes espetáculos de rua. Mas também para frequentar as suas lojas mais alternativas.

No ano em que fiz Erasmus acabámos ao acaso por nos tornar moradoras do bairro. O único motivo, aliás, porque éramos olhadas com inveja pelos nossos colegas italianos. Era aí que ficava o bar onde seguimos todos os jogos do Mundial que Itália acabaria por vencer e onde sempre fomos recebidos como se fossemos da casa. Tanto que no final acabámos a convencer a Valentina, dona do bar, a trocar a sua lua-de-mel tropical por Lisboa, em pleno mês de fevereiro.

É por esta atmosfera de festa, mas também de proximidade que se torna inevitável visitar as suas ruas em cada visita a Roma. E é por isso que não me esqueço de incluir Trastevere nas dicas que dou aos amigos que visitam a cidade.

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Há 30 anos exatos, Berlim deixou de ser uma ilha. Vou hoje contar uma história pessoal desse tempo muralhado e insular, num dos mais estimulantes períodos da minha vida. A primeira cena decorre em dezembro de 1972, no Sanatório das Penhas da Saúde, já em decadência. Com 15 anos acabados de fazer, integro um grupo de jovens que vão treinar na neve abundante da serra da Estrela o que aprenderam na teoria sobre escalada na neve e no gelo. A narrativa de um alpinista alemão, dos anos 1920 e 1930, sobre a dureza das altas montanhas, que tirou a vida a muitos dos seus companheiros, causou-me uma forte impressão. A segunda cena decorre em abril de 1988, nos primeiros dias da minha estada em Berlim, no árduo processo de elaboração de uma tese de doutoramento sobre Kant. Tenho o acesso às bibliotecas da Universidade Livre e um quarto alugado numa zona central, na Motzstrasse. Uma rua parcialmente poupada pela Segunda Guerra Mundial, e onde foram filmadas em 1931 algumas das cenas do filme Emílio e os Detectives, baseado no livro de Erich Kästner (1899-1974).Quase ao lado da "minha" casa, viveu Rudolf Steiner (1861-1925), fundador da antroposofia. Foi o meu amigo, filósofo e ecologista, Frieder Otto Wolf, quem me recomendou à família que me acolhe. A concentração no estudo obriga a levantar-me cedo e a voltar tarde a casa. Contudo, no primeiro fim de semana almoço com os meus anfitriões. Os dois adolescentes da família, o Boris e o Philipp, perguntam-me sobre Portugal. Falo no mar, nas praias, e nas montanhas. Arrábida, Sintra, Estrela... O Philipp, distraidamente, diz-me que o seu avô também gostava de montanhas. Cinco minutos depois, chego à conclusão de que estou na casa da filha e dos netos de Paul Bauer (1896-1990), o autor dos textos que me impressionaram em 1972. Eles ficam surpreendidos por eu saber da sua existência. E eu admirado por ele ainda se encontrar vivo. Paul Bauer foi, provavelmente, o maior alpinista alemão de todos os tempos, e um dos pioneiros das grandes montanhas dos Himalaias acima dos 8000 metros. Contudo, não teria êxito em nenhuma das duas grandes montanhas a que almejou. As expedições que chefiou, em 1929 e 1931, ao pico de 8568 metros do Kanchenjunga (hoje, na fronteira entre a Índia e o Nepal) terminaram em perdas humanas. Do mesmo modo, o Nanga Parbat, com os seus 8112 m, seria objeto de várias expedições germânicas marcadas pela tragédia. Dez mortos na expedição chefiada por Willy Merkl, em 1934, e 16 mortos numa avalancha, na primeira expedição comandada por Paul Bauer a essa montanha paquistanesa em 1937. A valentia dos alpinistas alemães não poderia substituir a tecnologia de apoio à escalada que só os anos 50 trariam. Bauer simboliza, à sua maneira, esse culto germânico da vontade, que tanto pode ser admirável, como já foi terrível para a Alemanha, a Europa e o mundo. Este meu longo encontro e convívio com a família de Paul Bauer, roça o inverosímil. Mas a realidade gosta de troçar do cálculo das probabilidades.