Nanopartículas eliminam o vírus nos materiais de proteção em hospitais e lares

Uma equipa da Faculdade de Farmácia da Universidade do Porto está a trabalhar num projeto que pode revolucionar a prevenção da covid-19, no âmbito do LAVQ (Laboratório Associado para a Química Verde), que integra investigadores de diferentes universidades e politécnicos de todo o país. Este texto foi publicado originalmente no dia 5 de julho e faz parte de um lote de trabalhos relacionados com a covid-19 que o DN está a republicar.

Através de nanopartículas incorporadas em têxteis (lençóis, batas ou máscaras), torna-se possível destruir o vírus nos materiais de proteção individual. É um passo importante na prevenção da transmissão em hospitais e lares de idosos. Em entrevista ao DN, a coordenadora do projeto, Salette Reis, fala deste momento marcante para a comunidade científica em Portugal.

Como é que nasce este projeto?
O projeto nano2Prevent surge da vontade de várias investigadoras doutoradas do Laboratório Associado para a Química Verde [LAQV, REQUIMTE] a trabalhar na Faculdade de Farmácia da Universidade do Porto, em contribuir, com as suas competências, para a resolução do problema de saúde pública que vivemos causado pela SARS-CoV-2.

Quando começou a ser desenvolvido? Logo no início da pandemia?
Desde que a pandemia começou e a Faculdade de Farmácia foi encerrada [foi uma das primeiras instituições a ser encerradas], as investigadoras mostraram uma grande vontade em não ficar paradas e em contribuir ativamente para o combate a esta situação. Foi só o tempo de estudar como poderíamos juntar as nossas competências para que a ideia surgisse. Depois foi juntar à equipa investigadores nas áreas complementares, juntar esforços, para que o projeto nano2Prevent começasse a tomar forma. Nesta altura o trabalho está iniciado, o tempo de execução é muito curto, mas pensamos que a equipa constituída somente por investigadores doutorados (já habituados a trabalhar em equipa) permitirá a sua execução com sucesso. A equipa está motivada e com muita esperança na proposta que planearam.

Como é que as nanopartículas podem ser usadas na prevenção do vírus?
O nano2Prevent visa contribuir para a prevenção da infeção e controlo da transmissão de SARS-CoV-2 em hospitais e lares, através do desenvolvimento de soluções baseadas na nanotecnologia: primeiro na incorporação de nanopartículas para inativação de vírus in situ, em materiais têxteis usados em equipamentos de proteção individual e roupas de cama; depois na otimização de nanopartículas para deteção direcionada de SARS-CoV-2 em superfícies; e por último a combinação, numa formulação única, dos dois tipos de nanopartículas desenvolvidas para a simultânea deteção e inativação do SARS-CoV-2, em instalações médicas, permitindo assim, a eliminação do vírus enquanto se identifica possíveis focos de contaminação. As soluções baseadas na nanotecnologia propostas contribuirão para parar a transmissão do SARS-CoV-2.

Quantas pessoas envolve esta investigação? Quem são?
A equipa deste projeto é constituída de base por nove investigadoras. Sete investigadoras doutoradas do LAQV, REQUIMTE a trabalhar na Faculdade de Farmácia da Universidade do Porto às quais se juntaram duas investigadoras doutoradas do Centro de Ciência e Tecnologia Têxtil da Universidade do Minho e outra do Centro Tecnológico das Indústrias Têxtil e do Vestuário de Portugal (Citeve).

O sucesso deste projeto resulta dessa complementaridade?
Na verdade, tenho a sorte de coordenar um dos grupos de investigação que integram o Laboratório Associado para a Química Verde, onde atualmente trabalham seis investigadoras doutoradas com contrato de trabalho. É uma equipa multidisciplinar pois todas têm formação de base em áreas diferentes, desde física, química, microbiologia, bioquímica, biotecnologia e ciências farmacêuticas, o que faz que todas se complementem tornando assim possível uma investigação com sucesso. Neste projeto em concreto, a nossa equipa colabora com especialistas da área do têxtil, uma parceria de primordial importância para assegurar o sucesso da execução do projeto em apenas seis meses.

Tratando-se de partículas capazes de destruir o vírus, será possível transpô-las, de alguma forma, para outros materiais que não os têxteis?
Na realidade este projeto inclui duas formulações distintas: uma destinada à incorporação em tecidos, de forma a promover a eliminação do vírus após contacto, e outra para ser pulverizada em superfícies, de forma a permitir a visualização da presença do vírus. A combinação dos dois tipos de partículas numa só formulação está pensada para ser incorporada em tecidos usados em contexto hospitalar e em lares de idosos, mas poderá também ser aplicada em superfícies permitindo simultaneamente a deteção e a eliminação do vírus.

Enquanto responsável pela equipa que desenvolveu este projeto, que importância terá para o meio hospitalar e dos lares?
Queremos com este projeto oferecer um sistema de prevenção que possa ser uma ferramenta útil para minimizar o impacto desta pandemia em particular no meio hospitalar e nos lares, onde se encontram as populações mais vulneráveis e os grupos de risco. Sem dúvida que nestes locais é mais emergente uma prevenção eficaz com deteção precoce da presença do vírus ainda antes do contágio e da disseminação e, em simultâneo, neutralizar o vírus presente nas superfícies em contacto com os idosos e os profissionais de saúde, nomeadamente nos lençóis e nos equipamentos de proteção individual.

Aos olhos do cidadão parece um momento quase revolucionário no combate à covid-19. Aos olhos dos especialistas, como o classificam?
Este momento permitiu à nossa equipa colocar o seu conhecimento e ferramentas, desenvolvidas ao longo de anos de estudo, em aplicações úteis à população. É um sentimento de valorização das áreas de conhecimento que temos desenvolvido. Permitir eliminar o vírus com uma peça de proteção pessoal (por exemplo, máscara ou bata) ou identificar a presença do vírus com um pulverizador irá certamente contribuir para proteger a população em geral, e em particular os profissionais de saúde e a população mais vulnerável. Para nós cientistas é sem dúvida um momento marcante em que o nosso conhecimento e proatividade servem a sociedade, tornando claro o papel da ciência na vida de todos. É bom que os olhos do cidadão nos reconheçam como parte da solução no combate à covid-19.

Uma vez que envolve o universo dos têxteis, isso quer dizer que estamos a falar de um novo tipo de tecido, feito a partir dessas partículas?
Dada a urgência de resposta à pandemia, estamos a falar numa resposta mais imediata, que consiste em utilizar os tecidos já existentes nos hospitais e lares (batas, fardas hospitalares, máscaras, lençóis) e revesti-los com estas partículas. No futuro poderão ser produzidas fibras têxteis com estas partículas imobilizadas e depois produzir novos tecidos.

De que valores estamos a falar no financiamento deste projeto?
O financiamento dado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia é de 40 mil euros em aquisição de bens e serviços. O LAQV, REQUIMTE assegura todos os equipamentos necessários para a execução do projeto.

Uma investigação no feminino

A equipa que desenvolveu o nano2Prevent (Nanoparticles to prevent SARS-CoV-2 transmission, em inglês) é exclusivamente constituída por mulheres. Coordenado por Salette Reis, da Faculdade de Farmácia do Porto, investigadora do LAQV, REQUINTE, conta com a participação das investigadoras Catarina Seabra, Cláudia Nunes, Sofia Costa Lima, Joana Magalhães, Marina Pinheiro e Tânia Moniz, todas elas ligadas ao LAQV. Juntam-se ainda Helena Prado Felgueiras, da Universidade do Minho, Centro de Ciência e Tecnologia Têxtil, e Carla Joana Silva, do Centro Tecnológico das Indústrias Têxtil e do Vestuário de Portugal (Citeve).

O que faz o LAQV

O Laboratório Associado para aQuímica Verde - LAQV integra investigadores de diferentes universidades e politécnicos distribuídos pelo país, incluindo as Universidades Nova de Lisboa, do Porto, de Aveiro, de Évora e o Instituto Politécnico do Porto. O LAQV é a Unidade de investigação portuguesa que aplica princípios de química sustentável a diversas áreas, como ambiente, alimentação e saúde. A missão deste laboratório está organizada em seis linhas de investigação estratégicas, alinhadas com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas. Este é mais um dos vários projetos aprovados no âmbito do Research 4 Covid-19, financiamento excecional criado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), para dar resposta à pandemia por covid-19.

Este artigo faz parte de uma série dedicada aos investigadores portugueses e apoiada por: AbbVie

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