Ir ao dentista e pagar 50 cêntimos. Em Lisboa é possível

O consultório dentário social na freguesia de Santo António é o terceiro no país e a Câmara Municipal de Lisboa investiu cerca 70 mil euros na reabilitação do espaço.

"Aqui é que eu aprendi a lavar os dentes. Faça assim, faça desta maneira, incline a 45 graus", exemplifica Luís Domingues, de 71 anos, bem-humorado e sem esconder os poucos dentes que ainda tem. Considera que por aprender a lavar os dentes "já valia a pena" frequentar o Centro de Apoio à Saúde Oral (CASO), na freguesia de Santo António, em Lisboa.

"Tenho a boca praticamente destruída", afirma. À conversa no corredor, diz que os anos lhe mostraram que a falta de cuidados dentários afeta a perceção que as pessoas têm umas das outras. "Quando nos apresentamos a alguém, é feita uma radiografia visual", explica, e uma dentição fraca pode criar uma ideia menos positiva, que "psicologicamente afeta as pessoas" e pode limitar oportunidades de emprego.

"O aspeto físico da pessoa é marketing", vinca, acrescentando que "à medida que as pessoas vão avançando na idade essas coisas vão pesando cada vez mais".

Sediado no segundo piso do Centro Social Laura Alves, o primeiro Centro de Apoio à Saúde Oral da capital portuguesa foi inaugurado há cinco meses - através de uma parceria entre a Junta de Freguesia de Santo António, a Câmara Municipal de Lisboa e a Organização Não Governamental (ONG) Mundo a Sorrir - e o espaço foi readaptado com um consultório com cadeira médico dentária, um gabinete de esterilização e um gabinete de apoio psicossocial.

É o terceiro Centro de Apoio à Saúde Oral no país, que já existe no Porto, há nove anos, e em Braga, há sete.

André Moura, sociólogo e coordenador técnico do CASO em Lisboa, é um dos três funcionários em permanência neste centro, além da médica dentista e da assistente. Conta ao DN que além destes três funcionários, há "por volta de dez voluntários" a trabalhar em função da disponibilidade que têm e "são todos médicos dentistas", que recebem formação no Porto antes de entrarem para a equipa.

O coordenador técnico do projeto explica que o material utilizado "foi adquirido pelo projeto e pelo financiamento" que a clínica dentária recebe. "Tivemos o apoio da Junta de Freguesia de Santo António na reabilitação das instalações, mas o projeto é, em muito, financiado pela Câmara Municipal de Lisboa, nomeadamente em 60% da sua totalidade", afirma.

"É com esse valor que conseguimos remeter para os equipamentos e consumíveis", vinca, acrescentando que "a outra parte também reverte do valor simbólico que as pessoas pagam por casa consulta". O valor a pagar pelos utentes é calculado em função do rendimento 'per capita'.

"Temos escalões [que vão] desde os 50 cêntimos aos sete euros. Esse valor é sempre todo revertido para o projeto", explica.

"Não é apenas dar o peixe, é dar a cana e ensinar a pescar"

André Moura refere que o tratamento se faz em dois momentos: "Um inicial, no qual damos apoio psicossocial à pessoa, no qual entendemos quais são as expectativas da pessoa e onde explicamos o tipo de tratamentos que fazemos".

"Depois fazemos toda a parte da destartarização, limpeza dos dentes, do restauro daqueles dentes que, efetivamente, dão para restaurar e a extração dos que não dão para utilizar", explica.

O CASO em Lisboa tem protocolos com três laboratórios que produzem próteses dentárias e as doam ao centro. "Podem custar entre 250 a 300 euros", refere André Moura. Esta doação permite que o consultório e os utentes não sejam sobrecarregados com o investimento das próteses, além de os laboratórios receberem "um recebido de donativo" que permite reduções fiscais.

"Tudo o que são branqueamentos, colocação de aparelhos e próteses fixas não fazemos, porque são mais dispendiosos e não temos forma de garantir", explana.

O CASO em Lisboa também faz "educação para a saúde oral" e entrega uma pasta dos dentes e uma escova a cada utente, na primeira consulta, para que as pessoas terminem os tratamentos e preservem a dentição reabilitada. Nas palavras do sociólogo, "não é apenas dar o peixe, é dar a cana e ensinar a pescar".

Encostada à porta do consultório, Maria João Jesus, de 53 anos, frequenta o centro "há cerca de dois meses".

A reconstrução de "um dente da frente" e duas raízes que tiveram de ser retiradas levaram a lisboeta ao consultório. Apesar da resistência inicial, porque entrava "em pânico" quando se sentava na cadeira médico dentária, considera que o projeto deve ser replicado em outras freguesias da cidade, uma vez que "há muita gente que não tem chance de ir ao dentista".

O coordenador técnico do projeto concorda e afirma que o centro gostaria de "ter protocolo com todas as freguesias de Lisboa", mas ainda só foi possível estabelecer protocolos com as instituições das freguesias adjacentes à de Santo António.

Na altura da inauguração da clínica dentária, em abril, o objetivo era chegar ao final do ano com 75 utentes, mas André Moura está confiante de que o número vai ser bastante superior: "Vamos certamente passar os 75 utentes, vamos passar em muito esse número".

O sociólogo descreve o CASO em Lisboa como um local onde "as pessoas fazem toda uma adaptação para uma nova reintegração social". Há casos, como o de pessoas que trabalhavam na prostituição, que procuravam novas oportunidades de emprego e, por vezes, "a barreira da falta dos dentes era muito grande", uma vez que "nas entrevistas não conseguiam arranjar a vaga, porque a aparência não era aquela esperada".

Reabilitação foi financiada em cerca de 70 mil euros pela autarquia

O Presidente da Junta de Freguesia de Santo António, Vasco Morgado (PSD), diz que o balanço dos primeiros cinco meses "é muito bom, mas a parte principal [do projeto] vai começar em setembro" com o regresso às aulas: "O futuro é das nossas crianças, vamos às escolas fazer vigilância e prevenção, além de ajudar quem não pode" pagar as consultas de medicina dentária.

"Uma vez em cada período vamos às escolas dar formação, vamos distribuir pastas dos dentes", explica.

Vasco Morgado reconhece que o centro "tem estado bastante ocupado" e "o apoio psicossocial é muito importante". Ao DN conta que o município da capital "comparticipou as obras", com um financiamento "à volta de 70 mil euros", com "tudo o que foi necessário para ter um consultório a funcionar"

Em consonância com Maria João Jesus, o social-democrata considera que projetos como este deviam ser replicados: "Todas as pessoas precisam de cuidados de higiene oral" e poderá haver " freguesias onde [um projeto como este] seria ainda mais preciso", porque acredita que "basta haver uma pessoa a precisar" para fazer sentido a criação de uma clínica dentária social.

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