Ötzi: a múmia congelada estava em fuga e sem armas

Ötzi, a múmia pré-histórica que foi encontrada por acaso no gelo há 26 anos, estava em fuga e praticamente sem armas

Ötzi morreu de uma queda a 3210 metros, foi descoberto acidentalmente em setembro de 1991 e desde essa altura que tem sido analisado ao milímetro para que os arqueólogos possam compreender melhor a forma de vida que existia na Europa há 5300 anos.

Desde a altura da sua descoberta que os restos mortais deste homem "congelado" têm sido uma fonte inesgotável de informações sobre a época em que viveu. O mais recente exame dos arqueólogos centrou-se nas ferramentas de pedra com que viajava e que estão expostas, tal como a múmia, no museu que lhe é dedicado em Bolzano (Itália). E segundo essas investigações Ötzi era um homem em fuga, cujas armas e utensílios estavam esgotados.

"Durante a sua última viagem, Ötzi levava um conjunto muito limitado de ferramentas de pedra", explicou Ursula Wierer, diretor de um novo projeto de pesquisa e arquiólogo da Soprintendenza Archeologia, Belle Arti e Paesaggio de Florença e das províncias de Pistoia e Prato. Os resultados do trabalho, realizado por oito investigadores de especialidades diferentes, foram publicados pela revista Plos One e, segundo essa análise, quando morreu Ötzi tinha um punhal já desgastado, duas pontas para 14 flechas, um raspador de três ferramentas de pedra e uma espécie de chave de fendas que se acabou por perceber ser um apontado. Também levava um machado de cobre e um arco que não estava completo.

"A maioria das armas já tinha sido afiadas várias vezes e, portanto, já eram pequenas", adiantou Wierer, segundo contou o diário espanhol El País, acrescentando que as análises agora conhecidas permitiram concluir que era destro.

Com estas descobertas mais recentes, nomeadamente aos resíduos no estômago, percebeu-se o percurso de Ötzi - ficou assim conhecido por ter sido descoberto no maciço de Ötzi, nos Alpes. Esteve a uma altitude de 2500 metros, depois passou para os 1200 metros e depois subiu para uma zona onde haveria apenas neve: 3000 metros, onde foi atingido por uma flecha nas costas. Foram ainda detetados ferimentos que lhe terão sido infligidos quando estava a 1200 metros.

O que não se consegue perceber é a justificação para ter andado por várias zonas e a subir e descer. "Infelizmente, nunca saberemos", frisou Ursula Wierer. "Com este novo estudo foram confirmadas as suas ferramentas de pedra. Mas, as razões da sua viagem e qual a explicação para ter sofrido dois ataques nos últimos dias de vida e quem os fez isso continua a ser um mistério", concluiu.

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Catarina Carvalho

Arnaldo, Rui e os tuítes

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