"Os totalitarismos acontecem porque as pessoas preferem fingir que não veem"

O psicólogo Jordan B. Peterson tem um milhão de seguidores do YouTube e a aura de uma estrela pop. Esta quinta-feira fez uma conferência no Campus de Carcavelos da Universidade Nova de Lisboa, e foi aplaudido de pé

Muito antes da hora marcada, já o amplo átrio do edifício principal da Nova SBE, transformado em auditório para poder acomodar todos os que queriam ouvir Jordan B. Peterson, estava cheio. Eram jovens, na maioria, e o entusiasmo palpava-se no ar.

Para muitos dos que acorreram ao novo Campus de Carcavelos da Universidade Nova de Lisboa, o psicólogo canadiano, que o New York Times já considerou "o mais influente pensador do mundo ocidental" e o Daily Mail "um profeta para os nossos tempos", é um velho conhecido do YouTube. Jordan B. Peterson tem um milhão de seguidores no seu canal YouTube, através do qual faz palestras e dá conselhos de vida, e 9500 dos seus fãs apoiam-no financeiramente.

A conferência na Nova SBE, esta quinta-feira, foi por isso uma oportunidade que muitos não quiseram perder - na assistência estavam bem mais de mil pessoas, que romperam em aplausos e gritos quando ele fez a sua aparição e, numa espécie de entrada triunfal, desceu a escadaria até ao palco, à maneira de uma estrela pop.

Psicólogo e professor catedrático da Universidade de Toronto, Jordan B. Peterson é autor de vários livros. O último, "12 regras para a Vida, Um antídoto para o Caos" (Lua de Papel), tornou-se um best-seller internacional, e foi o ponto de partida para a conferência. Mas quem estava à espera de ouvir falar, uma a uma, das 12 regras para a vida do livro, não viu concretizada a expectativa.

Em vez disso, Jordan B. Peterson preferiu abordar "os fundamentos conceptuais" sobre os quais assenta as suas 12 máximas - a primeira de todas é esta: "levante a cabeça e endireite as costas", que é como quem diz, "ou somos verticais, ou somos esmagados", porque as leis da natureza não perdoam.

O conferencista lançou-se então numa vertiginosa viagem através de ideias e conceitos, em sucessão imparável de referências. Desde a metodologia da investigação em psicologia, ao mapeamento que o cérebro humano faz do espaço envolvente, dos primórdios dos mamíferos aos antepassados humanos, e à sua luta pela sobrevivência contra os predadores, e de como isso forjou os nossos medos primordiais, como é o caso do medo do escuro, que vemos surgir nas crianças quando começam a gatinhar e a andar.

Ordem e caos. Caos e ordem. Nesta dicotomia, e na forma como ela afeta a vida humana - "o caos gera ansiedade, mas é ao mesmo tempo uma poderosa fonte de criação, ligada ao feminino", disse - assenta Peterson uma parte essencial das suas teorias. Para as ilustrar, recorre a mitos primordiais, como o do dragão, "que é uma boa imagem da ameaça dos predadores, que os nossos antepassados tiveram de enfrentar nas planícies", e às histórias mitológicas da criação.

Estudioso dos totalitarismos - "dediquei uma parte da minha vida a isso, tanto para os totalitarismos de direita como de esquerda, não faço distinções", garantiu - Peterson falou ainda do risco que são as tentações totalitárias. "Se emergirem, é melhor estarmos despertos", alertou. "Os totalitarismos acontecem porque as pessoas se demitem e preferem fingir que não veem", disse, sublinhando que "a única forma de evitar essa tragédia é que cada ser humano procurar fazer da sua vida uma vida com um sentido profundo". Olhando com firmeza o mar de jovens na plateia, Peterson concluiu: "Essa é a vossa responsabilidade".

A plateia aplaudiu de pé.

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