Novo tratamento para o cancro. "É uma terapêutica com potencial futuro"

O IPO do Porto administrou pela primeira vez em Portugal uma terapia no tratamento do cancro do sangue que pode salvar a vida de alguns doentes que já testaram outras opções. Especialistas acreditam que há cerca de 60 doentes que beneficiarão desta terapêutica, que poderá ser alargada a outros tipos de tumores.

Pela primeira vez em Portugal, um doente foi submetido a uma terapia para o tratamento do cancro do sangue assente na modificação genética de células CAR-T, administrada no Instituto Português de Oncologia (IPO) do Porto. O presidente da Sociedade Portuguesa de Oncologia não tem dúvidas de que este é um grande passo para determinados doentes e "uma terapêutica presente com potencial futuro". Em entrevista ao DN, Paulo Cortes e o hematologista do Instituto Português de Oncologia explicam os contornos da nova técnica que pode salvar a vida de tantos.

Uma mulher de 39 anos foi a primeira a testar este tratamento, esta terça-feira, na qual foram infundidos os Linfócitos T geneticamente modificados. E são precisamente as células geneticamente modificadas a grande inovação desta terapia, explicou o diretor da Clínica de Onco-Hematologia, José Mário Mariz, em declarações à Lusa. A ideia surge no âmbito de um programa de acesso precoce (PAP) aprovado pelo Infarmed.

Taxa de sucesso prevista é de 40%

Segundo Paulo Cortes, "o facto de em Portugal já podermos ter acesso a esta tecnologia é absolutamente louvável". O presidente da Sociedade Portuguesa de Oncologia elogia o "acesso a terapêuticas inovadoras" no sistema de saúde nacional. "Obviamente, é de saudar", pois "é a esperança de alguns doentes", remata.

Nuno Miranda, hematologista do Instituto Português de Oncologia, conta que "a primeira vez que se assistiu à eficácia disto foi numa menina chamada Emily, da Pensilvânia, com leucemia linfocítica" e "que agora está bem". A terapia tem como destinatários os doentes com linfomas e leucemias não controladas que já passaram por várias intervenções terapêuticas convencionais sem sucesso. Esgotadas todas as opções, estes doentes ficam com uma esperança média de vida de seis meses, pelo que esta nova técnica pode ser mesmo a boia de salvação. Destes doentes, 40% pode mesmo ter a patologia controlada ao final de dois anos.

"A minha esperança é que isto possa ter maior aplicabilidade, além deste tipo de tumor, também nos tumores sólidos, muito mais frequentes. É uma terapêutica presente com potencial futuro".

60 beneficiários por ano

No caso das leucemias, "há uma diminuição da taxa de recaídas nos doentes que são transplantados depois de fazer CAR-T", acrescenta Nuno Miranda. Os benefícios de um transplante a seguir a este procedimento deve-se, sobretudo, ao facto de ser uma doença mais agressiva e com "maior capacidade de fugir ao sistema imunológico", ao contrário do que acontece com os linfomas.

O especialista prevê que venham a existir à volta de 60 doentes por ano, em Portugal, sob esta terapia. Mas "se aumentar o número de doenças tratáveis (com esta terapêutica), pode aumentar também significativamente o número de doentes", lembra.

Aliás, "importa mesmo perceber que este tratamento não será para todos", lembra também o presidente da Sociedade Portuguesa de Oncologia. Paulo Cortes explica que está desenhado de forma "imunologicamente mais inteligente" e dirigido a determinado grupo de doentes. "Terá sempre de ser para casos selecionados".

Ainda assim, acredita no potencial futuro desta nova técnica e está confiante de que poderá ser alargada a tumores sólidos. "A minha esperança é que isto possa ter maior aplicabilidade, além deste tipo de tumor, também nos tumores sólidos, muito mais frequentes. É uma terapêutica presente com potencial futuro".

"Temos de nos preocupar com a sustentabilidade disto, em termos do número de doentes a que se aplica"

350 mil euros por doente

Há anos que Nuno Miranda espera por isto. "Esta ideia estava a ser trabalhada desde 1999. Só não havia ainda a tecnologia e a investigação é morosa", justifica. Por isso, a chegada desta terapia a Portugal não foi uma surpresa.

O que ainda não se sabe é exatamente como ficará fechada a avaliação farmacoeconómica desta terapêutica. Prevê-se que o tratamento ronde os 350 mil euros por doente, englobando apenas a transformação de células e não as despesas indiretas. Em Portugal, os custos estariam ao abrigo do Serviço Nacional de Saúde, mas Nuno alerta para a sustentabilidade da introdução desta terapia. "Temos de nos preocupar com a sustentabilidade disto, em termos do número de doentes a que se aplica".

Para já, o método pioneiro apenas estará disponível no IPO do Porto, embora o Ministério da Saúde adiante que também vai ser realizado no IPO de Lisboa.

O especialista Nuno Miranda adianta ainda que atualmente está a ser preparado um laboratório na Europa, mais especificamente na Holanda, para o tratamento destas células. Até agora, "a maioria da investigação da China, havendo ainda uma quantidade significativa de investigação nos EUA (onde estes Linfócitos T foram geneticamente modificados)".

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