"Extinção catastrófica". Insetos sob ameaça deixam planeta em risco

Agricultura intensiva, com a utilização em massa de pesticidas, as alterações climáticas e a urbanização de vastas zonas do planeta estão a levar ao colapso das populações de insetos, alerta relatório global

Um século. É este o intervalo de tempo que pode levar ao desaparecimento de todos os insetos do planeta, uma extinção que já está a avançar a um ritmo muito acelerado e que a concretizar-se em definitivo pode ter consequências absolutamente catastróficas para a vida na Terra, alerta o primeiro estudo global nesta área. Os insetos são determinantes em qualquer cadeia alimentar, não só por servirem de alimento para muito animais, mas também, por exemplo, porque mantêm os solos saudáveis, controlam pestes, polinizam a maioria das espécies de plantas e reciclam nutrientes. Funções que a agricultura intensiva, com a utilização em massa de pesticidas, as alterações climáticas e a urbanização de vastas zonas do planeta já estão a ameaçar.


Para se ter uma noção mais precisa da ameaça traçada pelo relatório publicado na revista especializada Biological Conservation , mais de 40% das espécies de insetos estão em declínio e um terço está já em risco. A extinção destes animais está a ser oito vezes mais rápida do que a sentida pelos mamíferos, répteis e aves. A população total de insetos está a cair a uma percentagem de 2,5% todos os anos, que a manter-se leva a uma negra conclusão: estes animais podem desaparecer do planeta dentro de cem anos, trazendo consigo "um colapso catastrófico dos ecossistemas naturais".

A população total de insetos está a cair a uma percentagem de 2,5% todos os anos


"Se não mudarmos a maneira como produzimos alimentos, os insetos como um todo vão entrar no caminho da extinção no espaço de algumas décadas", avisa o resumo do estudo, da responsabilidade de Francisco Sánchez-Bayo, cientista espanhol que trabalha na Universidade de Sidney (Austrália), e do belga Kris Wyckhuys, que faz investigação na Academia Chinesa de Ciências Agrícolas, em Pequim. As repercussões dessa extinção para os ecossistemas do planeta - e, claro, para a humanidade, acrescenta Sánchez-Bayo - "são, no mínimo, catastróficas".

"Daqui a dez anos teremos menos um quarto de insetos, daqui a 50 anos teremos apenas metade dos que temos hoje e no espaço de 100 anos não teremos nenhum"


Em declarações ao Guardian, o cientista espanhol destaca que a taxa de 2,5% de declínio anual nos último quarto de século é "chocante". "É muito rápido. Daqui a dez anos teremos menos um quarto de insetos, daqui a 50 anos teremos apenas metade dos que temos hoje e no espaço de 100 anos não teremos nenhum". Um dos impactos mais diretos é sentido por répteis, aves, anfíbios ou peixes que se alimentam de insetos e que podem "morrer de fome", explica o autor do relatório, que se socorre do exemplo de Porto Rico, onde nos últimos 35 anos houve um declínio na ordem dos 98% dos insetos terrestres.

O regresso à agricultura orgânica


O estudo agora publicado pegou nesse trabalho e em outros 72 para fazer a radiografia da extinção nesta área e percebeu que as borboletas, as traças e as abelhas são das mais atingidas. No caso das abelhas, por exemplo, em 2013 contava-se apenas metade do número de zangões que existiam no Estado americano do Oklahoma a meio do século passado. Em todos os Estados Unidos da América, o número de colónias de abelhas caiu de seis milhões em 1947, para 2,5 milhões na atualidade. Na Europa, mais concretamente em Inglaterra, o número de espécies de borboletas que existiam em zonas cultivadas caiu para menos de metade apenas numa década - entre 2000 e 2009.

"Num passeio de família recente, quando estava de férias, atravessei 700 quilómetros da Austrália rural e não tive de limpar o para-brisas uma única vez. Há alguns anos tinha de o fazer constantemente..."


A principal causa para este declínio é a agricultura intensiva, com a eliminação das árvores e arbustos que rodeavam os campos, que são terraplanados e tratados com pesticidas. Sánchez-Bayo aponta mesmo a utilização de novas classes de inseticidas introduzidas no final do século XX, como neonicotinoides (derivados de nicotina) e fipronil (que há menos de dois anos esteve associado a um escândalo de contaminação de ovos na Europa), como especialmente grave. E os seus efeitos não se limitam às áreas das plantações agrícolas, como se percebe na Alemanha, onde 75% das perdas nas populações de insetos foram registadas em zonas protegidas. A solução passa, então, pela mudança na forma como produzimos alimentos, com os cientistas e defenderem o recurso a quintas orgânicas, com menos utilização de químicos.


Em áreas onde a agricultura industrial ainda não chegou em força, como nos trópicos, são as alterações climáticas e a subidas das temperaturas que estão a extinguir estes animais. Uma extinção que o próprio Sánchez-Bayo testemunhou, num exemplo do quotidiano. "Num passeio de família recente, quando estava de férias, atravessei 700 quilómetros da Austrália rural e não tive de limpar o para-brisas uma única vez. Há alguns anos tinha de o fazer constantemente...".

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