Eles não gostam do Natal. E a culpa é do cinismo e da solidão

Enquanto milhares de portugueses andam embrenhados no espírito natalício, há quem preferisse saltar já para janeiro. Desavenças familiares, divórcios, a perda de alguém e a solidão são algumas das razões pelas quais muita gente não gosta do Natal.

"Não tenho nada diretamente contra o Natal, mas há coisas das quais não gosto. Há alguns momentos que são forçados e que seriam mais úteis se fossem mais praticados durante o ano." Quando pensamos em pessoas que não gostam do Natal, The Legendary Tigerman é um dos primeiros nomes que surgem. "Fuck Christmas, I Got Blues" - o nome do seu segundo álbum e do concerto que se tornou uma tradição de Natal - espelha bem o seu sentimento em relação à quadra.

Para o artista Paulo Furtado, de 48 anos, o Natal deixou de ser a época mais maravilhosa do ano no início da adolescência. "A minha antipatia primária com o Natal era por não ser uma noite feliz como deveria ser. Todas as famílias, num determinado momento, passam por isso. As pessoas não gostam de falar sobre o assunto, mas toda a gente já teve um Natal que acabou em discussão ou no qual as pessoas se zangaram", diz o músico. Naquela altura, começou a sentir alguma revolta em relação à época natalícia: "Pensava que era bom que nos reuníssemos mais vezes e não só no Natal."

A "obrigação de as coisas estarem bem, ou de se fingir que estão bem" durante esta quadra, é uma das coisas que mais o chateia. "É o cinismo que isso implica. O Natal realça mais os problemas do que os sentimentos bons", sublinha. Por outro lado, prossegue,"para quem não tem família ou para quem está sozinho ou mais solitário numa determinada fase da vida, pode ser um momento muito complicado, muito triste".

Depois de jantar com os pais no dia 24, Paulo Furtado costumava ir ao cinema ver filmes de karaté. "Sentia vontade de fazer alguma coisa." E sabia que não era o único. "De uma maneira espontânea, comecei a tentar criar uma alternativa para as pessoas que sentiam o Natal de uma maneira diferente." Fez o primeiro concerto em 1999, no Porto, e mais tarde levou o espetáculo para a Galeria Zé dos Bois, em Lisboa, onde se mantém (dias 25 e 27 de dezembro) - um dos poucos momentos one man show.

Para muitos, o concerto é uma forma de ultrapassar "esse feeling" menos positivo em relação à quadra. "Mas tem uma parte do que é bom no Natal, que é as pessoas juntarem-se por coisas que gostam, para celebrar o rock n'roll". Quase 20 anos depois do primeiro espetáculo, as coisas já não são "preto no branco" como eram. "Há muitos graus de cinzento. Há pessoas que pensam que tenho um grande ódio ao Natal, mas não tenho. Até há natais dos quais gosto, o que tem que ver com o facto de haver crianças, para as quais é uma noite especial", conta ao DN.

Embora não se identifique com o Natal, Legendary Tigerman não é "radical ao ponto de não colaborar para que os outros sejam mais felizes". Janta com a família - a sua ou a da companheira - e troca prendas simbólicas. "Não quero boicotar o Natal. Não faço um finca-pé de não dar prendas porque não me identifico."

Solidão em evidência

São várias as razões pelas quais muitas pessoas deixam de gostar do Natal. "Pelo stress crescente associado a esta época, que interfere com o prazer do dar e receber, do estar com família e amigos. Mas, sobretudo, porque há pessoas que estão sós e/ou perderam pessoas significativas, normalmente da família. No primeiro caso, pelo contraste evidente com tudo o que os rodeia, que é de aconchego familiar, e que coloca em maior evidência a sua solidão; no segundo caso, pelo vazio muito pregnante deixado pela perda", explica a psicóloga Madalena Lobo.

Há festas natalícias nas empresas, com os amigos, os ex-colegas de escola, a família. O Natal dura cada vez mais tempo, o que "agudiza a solidão de quem a sente. E como a solidão também tem vindo a aumentar, cada vez mais a época natalícia nos divide entre quem a festeja e quem a teme e se afunda na tristeza".

A solidão dói, diz a diretora da Oficina de Psicologia, "e mais dói neste contraste entre famílias (aparentemente) felizes, largamente publicitadas em anúncios variados, e pessoas sós que desejam ardentemente terem com quem festejar o Natal".

Para Susie Filipe, atriz e baterista, de 30 anos, dezembro é "um mês doloroso". "A época natalícia vem sempre lembrar-me quão desintegrada é a minha família e quão falta me faz esse lar de infância e velhice. Com o avançar da idade é cada vez mais assustador. Mas a partilha e o amor pelo próximo são sentimentos que me acompanham o ano inteiro e, por isso, dezembro não é um mês diferente", diz ao DN.

Tal como Legendary Tigerman, Susie encontra na música o seu refúgio. "Continuo a não fazer a árvore de Natal com os meus pais, a não passear com eles nas ruas iluminadas, a não saber o que são os dias de que o Natal toma conta, as prendas e as brincadeiras do Pai Natal, o jantar e o convívio em família. A música ainda vai sendo a melhor parte." E os amigos. "Os amigos, os pais dos amigos e as mães que a vida me vai dando roubam-me sempre para umas boas noites de lareira. São sempre momentos irrecusáveis."

Quando a família se desintegra

Maria Inês Santos, de 30 anos, era uma "criança muito entusiasta" com o Natal, porque tinha uma vertente muito consumista, que, assume, ainda não a largou. "Como tinha muitos presentes, gostava muito daquilo", recorda a editora de conteúdo. Com o divórcio dos pais, a magia desapareceu. "O Natal passou a significar ter de me dividir e deixar um deles num dos dias. Começou a ser muito triste perceber que a outra pessoa ficava triste, porque não estava com os filhos", conta.

Aos 12 anos, Maria Inês percebeu "que o Natal era muito mais sobre acentuar a solidão e o que estava mal do que sobre união". Quando não é bom, "é muito mais intenso do que quando é bom". Além disso, critica, "há a exigência da sociedade, tal como na passagem de ano, de que seja uma festa, que seja bom e que invistas para que seja especial, mas a vida pode não te permitir isso".

A juntar a isso, as perdas. "As pessoas vão morrendo. Vão sendo muito mais as ausências e os momentos em que estás a recordar velhos natais do que aqueles em que crias novos natais." Enquanto não nascem mais crianças na família, o Natal "é passado a recordar outros".

Dificilmente Maria Inês se voltará a identificar com a quadra natalícia. "Se pudesse, ia já para fevereiro." Mas, no futuro, não quer "ser sabotadora" dos natais dos filhos. "A ser mãe, quero que tenham natais como os que eu já tive, mas também com a noção de que não vai ser sempre assim."

É para agradar às crianças que muita gente continua a festejar o Natal, mesmo não gostando. Mas essa não é a única razão. Segundo a psicóloga clínica Madalena Lobo, "os rituais, as tradições, cumprem uma função importante na nossa organização pessoal". "Permitem-nos pontuar a passagem do tempo, reconfortar-nos com a familiaridade dos passos que são dados, (re)encontrar uma linha estruturante de vida e, no caso de rituais/tradições sociais, sentirmo-nos parte de um todo", conclui.

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