A minha taberna já foi mercearia

A Taberna do Quinzena, em Santarém, ganhou nome e novos clientes. Já não é a taberna dos homens da cidade. Há quem venha de fora - "estrangeiros e tudo" - para petiscar no Quinzena.

Era o costume daquele tempo. Os clientes da mercearia, no 93 da Rua do Matadouro, quase por regra só pagavam as compras a cada duas semanas. Pagavam à quinzena. O pequeno negócio de Francisco Batista, em 1870 - instalado numa pequena casa térrea -, que haveria de batizar o filho José, netos e bisnetos, tornava-se também poiso dos homens da cidade. Era ali que petiscavam, conversavam, jogavam dominó ou cartas.

Os "petiscos e copinhos" que José "Quinzena" e, mais tarde, Fernando Batista "Quinzena" herdaram - dizem-me que o balcão de mármore envelhecido ainda é desses tempos - acompanham os últimos 148 anos da cidade. E vão marcando gerações. As paredes forradas de cartazes tauromáquicos, capotes, farpas e barretes de campino fixam no tempo dezenas e dezenas de anos de touradas. Está lá quase tudo. As estrelas doutras épocas, as ganadarias, os preços, os pormenores de linguagens que hoje já não se usam.

O bisneto Fernando Batista, atual proprietário, mudou o rumo da história há coisa de 25 anos. A mercearia que se tornou taberna iria ser restaurante. E a comida? Só portuguesa e ribatejana. Os vinhos? De produtores locais. A Taberna do Quinzena, igual ao que era - atrevimento meu -, ganhou nome e novos clientes. Já não é a taberna dos homens da cidade. Há quem venha de fora - "estrangeiros e tudo" - para petiscar no Quinzena.

E a memória tem disto, a comida é também a de outros tempos: favas com carne e enchidos, galo de cabidela, queixadas de porco no forno, costeletão de novilho, naco de toiro bravo avinhado e outros petiscos.

E o que mudou na cidade?

A mulher dos gatos já não deambula pela cidade, expulsando demónios que só ela conseguia ver. Clementino, travesti assumido desde os anos 1960, a melhor e a mais requisitada "mulher-a-dias" da cidade, já não passeia pelo Largo do Padre Chiquito de avental e brincos. As redes da Farpela e do Toino que durante décadas apanharam sabogas e fataças e, ouvi dizer, meixão mais transparente do que água apodreceram na casa de estacas, construída entre salgueiros, junto ao Tejo. A relojoaria do Pina fechou. O beco dos Tanoeiros, recanto dos amantes da rádio, é apenas mais um beco.

Nas ruas, já quase não há memória do pintor bêbado que expunha quadros junto à Estátua do Sá da Bandeira e se enfrascava na Brasileira, nem do trotskista que na tasca do Piçarra escrevia centenas de cartas aos presidentes da República. O Asdrúbal, que na inspeção pediu lugar na "Marinha Aérea", por lá continua, aprumado de fato e gravata, arranhando letras de fados antigos.

Tudo mudou. Até a paisagem e a Quinta do Desembargador que tanto encantaram Almeida Garrett e Alexandre Herculano já não são "pátria dos rouxinóis e das madressilvas, cinta de faias belas e loureiros viçosos".

A cidade que vista do céu estende as colinas como se braços fossem para as lezírias, os olivais do norte e o Tejo guarda consigo memórias seculares. A Porta de Atamarma por onde Afonso Henriques entrou, em 1147, para tomar Santarém aos mouros, as imponentes fortificações e os torreões nas Portas do Sol, a Porta de Santiago - outras das entradas da antiga cidade e as suas treze igrejas: a da Misericórdia de 1559; a Igreja da Sé - que chegou a ser casa dos padres da Companhia de Jesus; a Igreja da Nossa Senhora da Graça de 1380 - panteão dos Menezes e de Pedro Álvares Cabral; a Igreja da Piedade - mandada edificar por D. Afonso VI; a manuelina Igreja de Marvila ; a Igreja de Nossa Senhora de Jesus do Sítio - que ocupou os terrenos da ermida medieval de Santa Maria Madalena; a Igreja de São Nicolau - que guarda o túmulo gótico de Fernão Rodrigues Redondo; a Igreja de Santa Cruz - edificada entre 1218 e 1260, anos em que a cidade se transformou num estaleiro de construção; a Igreja de Santa Iria - que alberga o Cristo de Mont'iraz; a Igreja de Santa Maria de Alcáçova - fundada sete anos após a conquista da cidade aos mouros; a Igreja do Santo Milagre; a Igreja de Santa Clara - patrocinada por Afonso III e mais tarde pela rainha Santa Isabel, devota franciscana; e a Igreja do Cemitério dos Capuchos - erigida pelo município em 1865.

Uma caminhada histórica a que não deve escapar a Torre das Cabaças (com quase 32 metros de altura), a Fonte das Figueiras e o seu caminho de silhares de cantaria, a Casa-Museu Passos Canavarro, adquirida por Passos Manuel em 1841, lugar do Paço de D. Afonso Henriques que Garrett descreveu como "notável combinação do acaso! Que o ilustre e venerando chefe do partido progressista em Portugal (...) vindo do Minho, do berço da dinastia e da Nação, viesse fixar aqui a sua residência no alcáçar do nosso primeiro rei, conquistado pela sua espada num dos feitos mais insignes daquela era de prodígios".

E se cansaços houver, esse número 93 da antiga Rua do Matadouro ainda é pátria de "petiscos e copinhos". E não estranhe se ouvir gente e gente a chamar pelo Fernandinho. Não é o dono. É o empregado de mesa mais eficaz e afável da cidade. E o que ele canta. "Boa noite, princesas."

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