A mais antiga livraria do mundo

Mora no Chiado aquele que é, desde sempre, um dos meus recantos de Lisboa.

Podia ter escolhido a frente do Tejo, fosse no Cais das Colunas, nas docas, em Belém ou no passadiço ribeirinho do Parque das Nações. Podia ter escolhido outro passeio, na praia da Costa Nova, de costas para as casinhas coloridas às riscas e para as barracas que vendem tripas de ovos-moles, a olhar a ria de Aveiro, os barcos a romperem as águas e a paisagem das gafanhas na outra margem. Podia até voltar aos recantos de jardins de Lisboa, como o 9 de Abril, defronte do Museu de Arte Antiga (e voltamos ao Tejo), ou das Amoreiras ou da Amnistia Internacional.

Podia ainda ter escolhido egoisticamente o recanto do meu sofá de onde se vê a fila de aviões a aterrarem em Lisboa nestes fins de tarde que se prolongam pela noite, com o Aqueduto de fundo. Podia ter escolhido... e a lista é quase sempre infinita, misturando sabores, emoções, afetos e memórias.

Escolho antes aquela livraria de corredor longo que se vai abrindo em sucessivas salas, que anuncia ser a mais antiga do mundo em funcionamento, desde 1732, e que nos avisa o certificado do livro dos recordes, que também se deve vender por lá - a Livraria Bertrand do Chiado.

Escolho então aquele emaranhado de lombadas, estantes de madeira, capas ilustradas de letras e imagens, multiplicadas em páginas de mais letras e possíveis imagens, que procuram seduzir-nos, como nos seduz o espaço, em que podemos ler, espreitar, folhear, apenas pegar, sem que nos olhem à espera da compra que muitas vezes não se faz ou apenas se faz noutros dias mais abonados - e sem que nos cobrem por isso.

Escolho então um local onde se ouvem línguas de diferentes geografias, sem que me sinta atingido por também ali chegar o cosmopolitismo das ruas que os estrangeiros aprendem a gostar, e onde posso sentar-me com um livro na mão, ou dois ou três, e até ser transportado para cada um dos meus recantos favoritos ou, mais importante, para outros recantos no mundo, na imaginação e nas palavras. Não é no fundo um recanto meu, mas dá gosto fazer desta livraria o meu recanto.

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Adolfo Mesquita Nunes

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João Taborda da Gama

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