Hepatite C: Portugal vai ou não cumprir a meta?

Vários países comprometeram-se a reduzir o número de novos casos em 90%, mas também em reduzir as mortes associadas às hepatites em 65%, até 2030. A Direção-Geral da Saúde acredita que "temos tudo para lá chegar", mas há vozes céticas.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) propôs que até 2030 todos os países erradicassem a hepatite C como problema de saúde pública. Em Portugal, lançam-se as apostas. Se por um lado há especialistas que garantem que as medidas de prevenção e tratamento atuais são suficientes para alcançar o compromisso, por outro há quem denuncie que as falhas no diagnóstico podem tornar impossível lá chegar.

"Grande parte dos especialistas acreditam que podemos chegar à meta. A tutela está confiante, mas eu próprio assinei um documento que será em breve entregue ao Parlamento onde denunciamos a impossibilidade de lá chegar sem resolvermos algumas lacunas primeiro." Quem o diz é Luís Mendão, presidente do Grupo de Ativistas por Tratamentos (GAT) e uma das vozes de apelo à luta contra a infeção. Já a diretora para a área das hepatites virais da Direção-Geral da Saúde (DGS), Isabel Aldir, está confiante em que "temos tudo para lá chegar".

A meta atribuída prevê que, até 2030, os países se comprometem a reduzir o número de novos casos em 90%, mas também em reduzir as mortes associadas às hepatites em 65%. A primeira é, desde logo, "um enorme desafio", pois "é preciso que saibamos exatamente quantos casos temos a cada ano e onde temos de chegar", alerta Isabel Aldir, em entrevista ao DN.

Dez ou 40 mil: quantos infetados há em Portugal?

De acordo com a OMS, "a hepatite pode ser encontrada em todo o mundo. As regiões mais afetadas são África e Ásia Central e Oriental". Mas, em Portugal, o número de infetados continua a ser "a questão de um milhão", diz dirigente do programa para as hepatites virais da DGS. Luís Mendão acrescenta mesmo que as declarações de especialistas podem variar entre os dez mil e os 40 mil infetados. Por outro lado, Isabel Aldir garante já se sentir confortável para dizer que o número "anda ali entre os 35 e os 40 mil infetados".

"Já temos cerca de 25 mil pessoas identificados e com pedidos de tratamento - a maioria já com tratamento concluído. No máximo, acho que há por diagnosticar e tratar uns 15 mil, porque todos os estudos que têm sido feitos neste momento vão neste sentido", justifica. Contudo, a questão é muito polémica quer a nível nacional quer a nível internacional. "Até o ECDC já está a tentar desenvolver uma ferramenta para se estimar a população que existe com hepatite C", conta.

"Não sabermos onde estamos", continua Luís Mendão, é a primeira barreira à meta de 2030.

"Temos de montar um sistema de monitorização que permita sabermos qual a dimensão da infeção em Portugal."

Diagnósticos de proximidade

O dirigente do GAT explica que a divergência nos números se deve à falta de "seriedade nos diagnósticos". "O que temos mais seriamente (confiável) é o número de pessoas para quem os médicos pedem medicamento. E esta deve ser a nossa prioridade: temos de montar um sistema de monitorização que permita sabermos qual a dimensão da infeção em Portugal."

Isabel Aldir lembra mesmo que há alguns grupos populacionais que merecem especial atenção, por serem "transmissores da infeção e a perpetuarem". Nomeadamente as pessoas com dependência de substâncias, que "têm maior dificuldade em pedir um plano terapêutico, agendamento de consultas e exames". E que, por não se tratarem também aumentam a possibilidade de transmitir a infeção para outra pessoa.

A taxa de sucesso dos medicamentos situa-se atualmente nos 96,5%, um número que contrasta com os atingidos no passado. A viragem aconteceu em 2015 com a introdução de medicamentos inovadores no país.

Nestes casos, a solução é diagnósticos de proximidade, diz. "Temos de nos aproximar destas pessoas e tratá-las nos ambientes que frequentam", através de parcerias com associações que já cuidam destes núcleos. "Não posso ficar confortavelmente sentada no meu gabinete à espera de que chegue um indivíduo com problemas de consumo, porque ele não vai aparecer. E tem tanto direito a ser tratado quanto qualquer outra pessoa", reitera.

Mas Luís Mendão acrescenta ainda mais dois núcleos de pessoas vulneráveis: as que nunca chegaram às unidades de saúde, bem como as que passaram pelos hospitais, foram diagnosticadas e nunca regressaram para tratamento.

"A larga maioria das pessoas que já sabem que têm hepatite C estão tratadas", garante Isabel Aldir. A taxa de sucesso dos medicamentos situa-se atualmente nos 96,5%, um número que contrasta com os atingidos no passado. A viragem aconteceu em 2015 com a introdução de medicamentos inovadores no país. "Antes disso, e já numa fase relativamente boa, tínhamos 50% de cura na melhor das hipóteses. Quando começámos a tratar, tínhamos cerca de 10%. E eram tratamentos pouco tolerados pelos doentes. Os que existem agora são altamente tolerados e a larga maioria precisa apenas de fazer tratamento durante oito semanas."

Sobre o que já foi feito, considera que Portugal "tem motivos de orgulho". "Quando participamos em fóruns internacionais, os colegas olham para nós sempre com grande admiração", conta. "Temos quatro anos de disponibilidade destes fármacos, tratámos a larga maioria das pessoas que têm infeção diagnosticada, temos acesso a tudo o que é opção terapêutica, tratamos as pessoas independentemente de estarem numa fase inicial ou mais avançada, e estamos agora a fazer uma microeliminação, investindo no diagnóstico e na aproximação de algumas comunidades", remata.

Ao contrário do que acontece no caso da hepatite B, para a hepatite C não existe vacina disponível. Por isso, a estratégia de atuação baseia-se na prevenção, principalmente de comportamentos de risco. São várias as formas de transmissão da doenças: através de agulhas partilhadas, equipamento médico não esterilizado, tatuagens e piercings aplicados também com equipamento não esterilizado, giletes reutilizadas, gravidez (em que as mães são portadoras do vírus), relações sexuais sem proteção e mesmo contacto com feridas abertas.

A SOS Hepatites denunciou a existência de hospitais do país que ainda não deram neste ano qualquer tratamento prescrito para doentes com hepatite C. Um relatório aponta Portugal como um dos países europeus que mais demoram a ter acesso a medicamentos. inovadores

Atrasos no acesso aos medicamentos

De acordo com o Relatório Primavera 2019, do Observatório dos Sistemas de Saúde, o tempo para acesso à inovação terapêutica em Portugal era cinco vezes mais longo do que o melhor resultado europeu no período de 2015 a 2017. O que faz do país um dos que mais demoram a ter acesso a medicamentos inovadores, comparativamente aos restantes europeus.

Se a Alemanha registou uma demora média de 119 dias, Portugal demorou 634 dias (quase dois anos). E "um exemplo paradigmático foi o do tempo para decisões (...) [no caso] das terapêuticas inovadoras da hepatite C", refere o documento, considerando que isto acontece "com uma frequência excessiva" e que é "incompreensível" numa área em que a previsibilidade é muito elevada.

Ainda em maio deste ano, a SOS Hepatites denunciou a existência de hospitais do país que ainda não deram neste ano qualquer tratamento prescrito para doentes com hepatite C. Apenas Santa Maria e Egas Moniz distribuem tratamentos em tempo útil.

Entre 2015 a 2017, os tratamentos para os doentes de hepatite C eram pagos pela Administração Central do Sistema de Saúde. Já no final de 2017, passaram a ser pagos pelas administrações hospitalares. "Neste momento, temos tratamento, mas estamos entre quatro meses e um ano à espera de que seja dado ao doente, porque as administrações não compram", disse a responsável da SOS Hepatites, Emília Rodrigues, em declarações à Lusa.

Em resposta às declarações da associação, a Direção-Geral da Saúde garantiu desconhecer os casos denunciados, garantindo que, em média, decorrem dois meses desde que o médico faz o pedido até ao doente iniciar tratamento.

A OMS estima que existam cerca de 71 milhões pessoas no mundo infetadas com hepatite C.

OMS pede mais investimento

A Organização Mundial da Saúde (OMS) deixou na sexta-feira um apelo a todos os países, pedindo que aproveitem as recentes reduções nos custos de diagnóstico e tratamento da hepatite para aumentarem os investimentos na eliminação da doença.

Segundo um estudo encomendado pela organização, investir seis mil milhões de dólares por ano (5,4 mil milhões de euros) na eliminação das hepatites em 67 países de desenvolvimento médio e baixo poderia fazer que se evitassem 4,5 milhões de mortes prematuras até 2030. E ainda mais de 26 milhões de mortes depois deste prazo.

Para atingir a meta de 2030 e eliminar a hepatite viral como ameaça à saúde pública, diz o documento, seriam necessários 58,7 mil milhões de dólares (52,6 mil milhões de euros).

A OMS estima que existam cerca de 71 milhões pessoas no mundo infetadas com hepatite C. Calcula ainda que 13,1 milhões (19%) sabiam da sua doença em 2017, mas que desses apenas dois milhões (15%) receberam tratamento. Também nesse ano 1,75 milhões de pessoas desenvolveram uma infeção crónica por hepatite C.

Este domingo assinala-se o Dia Mundial das Hepatites.