França proíbe hidroxicloroquina no tratamento da covid-19

A questão voltou ao debate depois de o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ter defendido o uso do medicamento e afirmado que o estava a tomar, a título preventivo, antes de anunciar, no domingo passado, que cessado essa medicação.

A França decidiu nesta quarta-feira proibir a controversa hidroxicloroquina no tratamento de doentes de covid-19, depois de semanas de debate sobre a eficácia deste medicamento e da publicação de um estudo sobre os riscos envolvidos.

"Seja em casa ou no hospital, esta molécula não deve ser prescrita para doentes de covid-19", declarou o Ministério da Saúde francês num comunicado, depois da publicação de um decreto proibindo a hidroxicloroquina no jornal oficial (diário da república).

O decreto, que excetua apenas a prescrição de hidroxicloroquina em ensaios clínicos, surge depois de um parecer negativo sobre o uso deste medicamento em pessoas infetadas com o novo coronavírus do Alto Conselho de Saúde Pública (HCSP) de França.

Chamado a pronunciar-se pelo Governo, o HCSP recomendou na terça-feira "não utilizar hidroxicloroquina no tratamento da covid-19", à exceção de ensaios clínicos, seja isolada ou associada a um antibiótico.

Até agora, e desde o final de março, as autoridades francesas autorizavam a prescrição de hidroxicloroquina nos hospitais e unicamente para os doentes mais graves, sempre decidida colegialmente por médicos.

O medicamento, que em França tem o nome comercial Plaquénil, já era proibido para o tratamento da covid-19 fora dos hospitais.

O decreto hoje publicado, segundo o comunicado do Ministério da Saúde, teve em conta a recomendação do HCSP, chamado a pronunciar-se pelo ministro da Saúde, Olivier Véran, e foi decidido numa altura em que "França foi marcada por tragédias ligadas ao mau uso de certos medicamentos".

Um estudo publicado na semana passada na prestigiada revista científica The Lancet, que apontava para a ineficácia e os riscos da hidroxicloroquina nos doentes de covid-19, relançou o debate em França e levou o Governo a pedir o parecer do HCSP.

O mesmo estudo da The Lancet levou a Organização Mundial de Saúde (OMS) a suspender temporariamente os ensaios clínicos que estava a realizar com hidroxicloroquina em vários países.

Apesar de o decreto oficial hoje publicado em França abrir uma exceção para os ensaios clínicos, a agência do medicamento (ANSM) anunciou que também decidiu suspender temporariamente os ensaios clínicos em França com este medicamento.

A hidroxicloroquina está desde fevereiro no centro do debate público em França, depois de o professor Didier Raoult, do hospital universitário especializado em doenças infecciosas de Marselha (sul), ter divulgado um estudo feito na China, considerado pouco sustentado, segundo o qual o fosfato de cloroquina mostrava eficácia no tratamento de doentes de covid-19.

A questão voltou ao debate depois de o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ter defendido o uso do medicamento e afirmado que o estava a tomar, a título preventivo, antes de anunciar, no domingo passado, que cessado essa medicação.

No Brasil o Presidente Jair Bolsonaro também tem defendido a eficácia da cloroquina e o Ministério da Saúde brasileiro recomendou o seu uso em todos os pacientes, mesmo os que têm sintomas ligeiros.

A cloroquina é habitualmente usada para combater doenças autoimunes como o lúpus ou a poliartrite reumatoide.

O decreto hoje publicado proíbe também a prescrição, à exceção dos ensaios clínicos para a covid-19, do medicamento que associa lopinavir e ritonavir, dois antirretrovirais com riscos cardíacos comprovados.

A epidemia provocada pelo vírus SARS-CoV-2, surgida em dezembro na China, já fez mais de 350 mil mortos e infetou mais de 5,5 milhões de pessoas em todo o mundo.

Em França, mais de 28.500 pessoas morreram, num total de cerca de 183.000 casos.

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