Entre águas contaminadas e ovas de saboga

No Alentejo profundo há um lugar que tem tanto de desolador como de belo. Onde o que está arruinado é o que lhe dá alma.

O meu recanto é um espaço aberto, tão vasto que se pode passar ali um dia sem que note a presença humana. Um lugar onde abundam sinais de alerta, chamando a atenção para os cursos de água e solos contaminados, assim como para o perigo de derrocada de diversas estruturas em ruínas. Onde pode parar o carro, abrir as portas, pôr o som ao máximo e deambular por ali sem a preocupação de estar a perturbar alguém ou ser alvo de um assalto. É um espaço desolador, abandonado, árido e poluído, mas aos meus olhos é um dos mais belos de Portugal, pela sua singularidade, pela forma como a cor do chão muda à medida que o dia avança, pelo prazer da descoberta que se renova a cada visita.

Falo do complexo da Mina de São Domingos, que após mais de um século de exploração, primeiro centrada na extração de cobre e depois principalmente de pirite, encerrou as portas em 1966. Seguiu-se um longo processo de degradação, que nem a classificação como conjunto de Interesse Público em 2013 conseguiu travar. Hoje é possível visitar todo o complexo através de percursos devidamente assinalados, de carro, bicicleta ou a pé para os mais corajosos, onde junto aos edifícios mais emblemáticos, como a Achada do Gamo, se encontram várias informações sobre a história do local.

Todos os anos regresso a este triângulo geográfico formado por Mértola, Minas de São Domingos e o Pomarão. Em busca de uma estrada poeirenta que me guie até um novo destino, sempre com o Guadiana por perto

Mais difícil é imaginar o tempo em que mais de mil pessoas ali trabalhavam e viviam, quando estava ainda em pleno funcionamento uma linha férrea (é possível visitar as ruínas da antiga estação da Moitinha) que ligava a mina ao porto fluvial do Pomarão, para que o minério fosse depois transportado de barco através do rio Guadiana.

Sim, escolher como recanto preferido um sítio onde quase tudo está destruído pode ser estranho. Falemos então do que está em redor e que completa o quadro. Como a praia fluvial da Tapada Grande, um açude de águas límpidas e rodeado de sombras que convida a um mergulho em qualquer altura do ano. Falemos da gastronomia local, do cozido de grão, dos secretos de porco preto com migas ou da imperdível salada de ovas de saboga que podemos degustar no restaurante A Paragem, nos Corvos, casa que ganhou fama à conta das suas... pizas caseiras. Não esqueçamos Mértola e o seu castelo fortificado, onde do alto da torre de menagem se observa a vastidão do Parque Natural do Vale do Guadiana. E, acreditem, fica ainda muito por contar.

Foi há dez anos que visitei pela primeira vez este pedaço de Alentejo profundo, longe das praias da moda e dos passeios a cavalo à beira-mar. Desde então, todos os anos regresso a este triângulo geográfico formado por Mértola, Mina de São Domingos e o Pomarão à procura do mesmo sentimento de tranquilidade que experimentei. Em busca de uma estrada poeirenta que me guie até um novo destino, sempre com o Guadiana por perto. Até hoje, nunca me desiludi.

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