Didier Raoult, o médico que alega ter tratado doentes com cloroquina, num estudo em Marselha.

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E se um remédio para a malária fosse solução para o coronavírus?

Os ensaios clínicos sucedem-se, depois de na China e em França haver resultados otimistas. A cloroquina está a ser testada em doentes com coronavírus. Daqui a umas semanas saberemos se Trump e Bolsonaro - apesar da precipitação - até têm, desta vez, razão.

É uma velha conhecida da medicina tropical, mas de repente está no centro das atenções por causa da pandemia de covid-19. Estudos preliminares apontaram para a possibilidade de a cloroquina, que há décadas é utilizada para tratar a malária, vir a ser usada em doentes infetados com o novo coronavírus.

É preciso, no entanto, esperar que os ensaios clínicos em curso demonstrem a sua eficácia e segurança no tratamento do covid-19, o que só acontecerá, na melhor das hipóteses, dentro de algumas semanas.

Isso não impediu, no entanto, o presidente americano de anunciar que a FDA, a agência dos Estados Unidos para os medicamentos e a alimentação, tinha aprovado uma "droga muito poderosa" para tratar o coronavírus. Referia-se à cloroquina e as repercussões não tardaram.

Apesar de a própria FDA ter emitido um comunicado a desmentir, uma vez que não existe nesta altura qualquer medicamento para a nova doença, o que se seguiu às declarações de Donald Trump foi uma corrida às farmácias no país, que quase limpou das prateleiras aquele medicamento e um seu derivado, a hydroxychloroquine.

Foi tanto assim que os doentes de lúpus, os que o usam no seu tratamento, enfrentam agora a incerteza da sua escassez. Um pouco como aconteceu com o pânico que há cerca de duas semanas fez esgotar temporariamente o papel higiénico nos supermercados em vários países, mas de forma mais grave, aquele medicamento, que é usado no tratamento de lúpus e da artrite reumatoide, duas doenças autoimunes, quase desapareceu das farmácias, pondo agora em risco a saúde destes doentes, como noticia o ProPublica, um site de jornalismo de investigação nos Estados Unidos.

A Lupus Foundation of America já fez entretanto saber que está a trabalhar para garantir que os cerca de 1,5 milhões de cidadãos americanos que sofrem de lupus vão continuar a ter acesso a este medicamento agora tão cobiçado em tempos de pandemia de covid-1

E houve histórias mais ridículas. Em Phoenix, no estado do Arizona, um homem morreu e a mulher ficou em estado crítico depois de ambos terem tomado fosfato de cloroquina, um produto usado para limpar aquários. Depois de melhorar, a mulher falou com o canal de televisão NBC e disse que tinha tomado a substância depois de ter ouvido o presidente Donald Trump e porque tinha medo de ficar doente. "Tinha cá aquilo, porque costumava ter carpas koi. Olhei para o frasco na prateleira e perguntei ao meu marido: 'Hey, isto não é o que eles estavam a falar na tv?'" Os frascos destas pastilhas vendidas em lojas de animais tinham subido para centenas de dólares no eBay - isto apesar dos avisos públicos de que 1) não era a mesma coisa e 2) não há nenhum medicamento contra o covid-19.

Na Nigéria pelo menos três pessoas tiveram de ser hospitalizadas por intoxicação medicamentosa, depois de terem tomado umoverdose daquela droga - comum em África por causa da malária, sendo a única que previne os seus efeitos mais negativos. As autoridades de saúde nigerianas viram-se obrigadas a lançar um alerta público contra a utilização indiscriminada de medicamentos contra a malária no contexto da pandemia.

No Brasil, o presidente Bolsonaro também ajudou a disseminar a ideia: publicou um vídeo nas redes sociais dizendo que o pesquisadores do Hospital Albert Einstein, em São Paulo, teriam iniciado um programa de testes com cloroquina para tratamento de pacientes diagnosticados com covid-19 e que os laboratórios do Exército brasileiro iriam aumentar a produção daquele composto. Medida adicional do seu governo: o Brasil deixou de vender a cloroquina a outros países.

O ensaio do médico estranho

A cloroquina saltou para as notícias a propósito do novo coronavírus SARS-CoV-2 depois de um grupo de médicos e investigadores franceses terem anunciado na semana passada "resultados promissores" no tratamento de alguns destes doentes, como afirmou Didier Raoult, o diretor do hospital de Marselha onde o estudo foi feito.

Segundo aquele médico, citado na revista francesa Science et Avenir , três quartos dos doentes que foram tratados com hydroxychloroquine não apresentavam rasto do vírus seis dias depois do início do tratamento, ao passo que 90% dos que não receberam aquela droga mantinham a presença do vírus no organismo decorrido o mesmo período de tempo. Este estudo, no entanto, não foi revisto pela comunidade científica.

Dos 20 doentes que foram tratados naquele pequeno ensaio, seis receberam também, além da hydroxychloroquine, um medicamento chamado azitromicina (que é normalmente administrada para prevenir infeções severas do trato respiratório em pacientes com infeções virais) e, nesses, a eficácia do tratamento na eliminação do vírus foi de 100%. Face a estes resultados, e mesmo com dúvidas, o governo francês decidiu alargar a outros hospitais e a um maior número de doentes de covid-19 a administração das duas moléculas combinadas, em contexto de ensaios clínicos, para obter conclusões robustas.

Segundo o site de jornalismo de investigação The Intercept, no entanto, este médico e o seu ensaio têm levantado muitas dúvidas na comunidade científica, "pelo seu tamanho pequeno", e escolhas estranhas como foi conduzido. "Há o facto de que seis dos pacientes tratados tiveram condições muito adversas em três dias: um morreu, três foram retirados do estudo para irem para os cuidados intensivos, um estava negativo e um parou o tratamento por causa das náuseas. Estes falhanços foram simplesmente retirados das estatísticas" diz a peça do jornalista Robert Mackey

O médico Didier Raoult é visto como pouco ortodoxo pela comunidade médica - que, como todos, está tão esperançada numa possível cura que escolhe dar o benefício da dúvida ao médico, bastante conhecido e cronista habitual da revista Le Point. Negacionista ambiental, e conhecido pelas suas boutades sobre este vírus - disse, nomeadamente que "este vírus não justifica medidas como se fosse uma catástrofe atómica", anunciou que vai já publicar um livro chamado Epidemias, Verdadeiros Perigos e Falsos Alertas, segundo o jornal local La Provence. La Nouvel Observateur. Um maverick, como ele próprio se descreve à revista francesa Nouvel Observateur, diz que é " uma estrela mundial."

E outros ensaios

Mas a verdade é que a comunidade científica e política está em tanta aflição que a esperança acaba por sobrepôr-se à cautela. E este não é o único ensaio clínico em curso com a cloroquina. Tudo começou, aliás, na China, onde os investigadores foram os primeiros a dar conta de efeitos positivos do medicamento contra o vírus SARS-CoV-2 que provoca a covid-19.

Segundo a agência de notícias chinesas Xinhua, a cloroquina, a cloroquina foi testada em 135 doentes muma dezena de hospitais em Pequim e na província de Cantão. 130 passaram a apresentar sintomas moderados e apenas cinco evoluíram para o estado grave. E, segundo, Xu Nanping, vice-ministra da Ciência chinesa, nenhum dos 130 viu a sua situação agravar-se.

Numa conferência de imprensa em Pequim, Sun Yanrong, vice-líder do Centro Nacional Chinês para o Desenvolvimento da Biotecnologia, deu o caso de uma doente de 54 anos que testou negativo depois de ter recebido aquele tratamento durante uma semana apenas. Segundo esta especialista, a maior parte dos doentes tratados levou também menos tempo a recuperar.

A Comissão para a Saúde chinesa ouviu também um conjunto de peritos, liderado pelo renomado médico Zhong Nanshan, especialista da Academia Chinesa de Engenharia, que ficou impressionado com os resultados obtidos.

Apesar das cautelas, o mundo está a ver aqui um sinal positivo e está a ir atrás dele. A Europa e os Estados Unidos também estão lançados nesta demanda para se perceber se existe aqui um caminho viável para um tratamento eficaz. Em Nova Iorque, o governador Andrew Cuomo anunciou que o estado isa usar 750 mil doses de cloroquina e 70 mil de hydroxychloroquina e 10 mil de azithromycina para fazerem o seu próprio ensaio médico. Mas fez também questão de proibir a venda do medicamento a quem não o use, já, e em pequenas quantidades, apenas para 14 dias de uso. "Nunhuma outra experiência é permitida", disse.

Em Marrocos, decidiu-se recorrer à cloroquina como tratamento em todos os pacientes internados com covid-se, segundo o jornal local La Quotidiene. A nota foi enviada pelo ministério da Saúde para todos os centros hospitalares e diretores regionais. As autoridades instam aos responsáveis que se aprovisionem do medicamento. A farmacêutica Sanofi, que tem uma fábrica deste medicamento em Marrocos, recusou-se a exportar o Nivaquine e o Plaquenil, na semana passada, apesar das demandas. Alegou que só tinha autorização para aquele mercado.

A atenção de Marrocos deveu-se ao facto de o ministro dos transportes, Abdelkader Amara, ter testado positivo para o covid-19, de volta de uma missão à Europa, e ter revelado nas redes sociais que se tinha tratado com nivaquine, um "medicamento para o tratamento da malária, fabricado em Marrocos". ​​​​Os testes em Marrocos estão a ser feitos com um protocolo elaborado por um comité científico e técnico. Marrocos tem 143 casos, cinco mortos.

Medicamento bem conhecido

A Bélgica também começou também nesta segunda-feira a testar um novo tratamento para a covid-19 à base de cloroquina. Uma das vantagens da utilização das moléculas de hydroxychloroquine prende-se o facto de estar amplamente testada para a malária, sendo a sua "toxicidade bem conhecida" dos especialistas, como o microbiologista do laboratório de referência da Universidade Católica de Lovaina, Emmanuel Andre, que anunciou o tratamento.

"Já está também a ser feito um ensaio clínico a nível europeu com a combinação das duas moléculas", informa a investigadora portuguesa em malária, Joana Tavares, do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde (I3S) da Universidade do Porto. Diz que face aos "resultados promissores" este é um passo essencial para se determinar com rigor como se "comportam estas droga com estes pacientes de covid-19", quais as dosagens ótimas ou a duração do tratamento.

Joana Tavares acredita que no contexto urgente da pandemia poderá haver uma resposta mais concreta sobre a real eficácia daqueles medicamentos contra o SARS-CoV-2 "dentro de algumas semanas, talvez um mês". "Mesmo que os doentes não fiquem completamente curados, se deixarem de ter carga viral deixam de transmitir a doença, e isso já será muito positivo", conclui a investigadora.

O laboratório farmacêutico Novartis anunciou entretanto que doará doses de hydroxychloroquine em quantidade suficiente para tratar milhões de pessoas se se comprovar que ela é eficaz no tratamento do covid-19. A farmacêutica suíça está, aliás, a colaborar com os ensaios clínicos em curso. Dentro de algumas semanas saber-se-á a resposta.

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