Diretor da Impresa vê "com desconfiança" ajudas diretas do Estado ao jornalismo

O diretor-geral de informação da Impresa, Ricardo Costa, disse esta segunda-feira ver "com desconfiança" a atribuição de ajudas diretas do Estado aos órgãos de comunicação social, sublinhando que a independência jornalística "deve andar a par" da económica.

"Acho possível e desejável a criação de projetos de literacia, não me choca que exista projetos de reconversão tecnológica [...], formação e qualificação de emprego, mas vejo com ceticismo e desconfiança a exigência de ajudas diretas do Estado [aos media]. A independência jornalística deve andar a par da independência económica", afirmou Ricardo Costa, que falava na conferência "Financiamento dos Media", organizada pelo Sindicato dos Jornalistas (SJ).

Durante a sua intervenção, este responsável defendeu que os órgãos de comunicação social devem ser remunerados pelos direitos de autor que "outros aproveitam e ter parte da publicidade que vão gerar", referindo-se a gigantes como o Google ou o Facebook.

Ricardo Costa disse ainda que, "apesar de parecer redutor", os media devem ser vistos como uma indústria, o que reflete a recusa "em atirar a toalha ao chão" e que existem modelos de negócio dentro do ecossistema digital.

Opinião semelhante foi partilhada pelo diretor de informação da TVI, que participava também numa "mesa redonda" sobre os modelos de negócio e gestão dos media, ao assegurar que os media são uma indústria com características particulares. "É a realidade dos factos. Estamos ao sabor das regras de mercado. Defrontamos a concorrência e criamos produtos para gerar procura, também contratamos recursos e [utilizamos] tecnologia para que esses produtos se diferenciem e tenham qualidade e pagamos impostos", notou Sérgio Figueiredo.

Já sobre o papel do Estado, o diretor de informação da TVI frisou que passa por olhar para este setor como olha para outros "que fizeram a viragem do país".

Por sua vez, o diretor do jornal Público também se mostrou contra o financiamento direto do Estado aos media. "Essa ideia de ver o Estado a financiar a empresa é algo que a mim me preocupa e assusta", garantiu Manuel Carvalho, reconhecendo, porém, que os meios de comunicação se encontram numa "crise estrutural".

O diretor do Público vincou, por outro lado, que é importante fechar os conteúdos, criando valor acrescentado, uma vez que "o que é exclusivo, é exclusivo e, quem quiser que compre".

O administrador do Global Media Group, por seu turno, explicou que o Estado "pode ajudar" este setor "sem meter a mão", através de, nomeadamente incentivos fiscais. "É essencial que o montante gasto em compra de notícias a grupos portugueses passe a ser abatida aos impostos, como se faz com as causas solidárias", propôs Afonso Camões.

Presente neste debate esteve também o presidente do Conselho de Administração do Observador que disse que os meios de comunicação devem ser, quando possível, independentes dos seus próprios acionistas.

António Carrapatoso lembrou que o setor da comunicação social "já há muito tempo que não é saudável", uma vez que, por exemplo, não escrutina o suficiente, nem tem, em muitos casos, profissionais "suficientemente bem preparados", tendo em conta que as próprias empresas não têm recursos para isso.

Sobre a fusão de grupos de media, o responsável do jornal online Observador referiu que existem riscos associados a uma quota de mercado "demasiado elevada", como a "retração de conteúdos e dos protagonistas mais valiosos".

Para Mafalda Anjos, diretora da Visão, os principais desafios que se colocam ao setor passam por "ser uma pérola no gigantesco palheiro", combatendo os criadores de conteúdos, que definiu serem as "porcarias" partilhadas, nomeadamente nas redes sociais.

A também publisher da Trust in News disse ainda que os media devem manter os "valores essenciais" do rigor e da isenção, tentando "resistir e sobreviver" a fenómenos como a queda de receitas e a utilização de recursos alheios, notando que os países devem juntar-se para exigir às empresas o pagamento dos direitos de autor. "Acho que esta indústria corre o risco de, a prazo, deixar de ser generalista [...] e de sobrarem apenas projetos" pagos pelo Estado e pelo mecenato ou mesmo projetos que "são tudo menos" jornalísticos, acrescentou.

O diretor e administrador do Sol e do I, durante a sua intervenção na conferência, referiu que as próprias empresas são, em parte responsáveis, pela crise nos meios de comunicação, por terem dispensado "bons profissionais".

Mário Ramires apontou ainda que a compra da Media Capital pela Cofina é o maior negócio que houve, até à data, em comunicação social, o que reflete que "apesar de o setor estar em crise não falta quem queira investir nos media".

Por último, o administrador do Jornal Económico desafiou os restantes oradores deste painel a aceitarem um "acordo de cavalheiros" de modo a fecharem as notícias no online, ou seja, tornarem estes conteúdos pagos.

Luís Figueiredo Trindade lamentou também que o próprio Estado acabe por comprar as notícias produzidas pelos media a empresas de clipping (que agregam e "resumem" as notícias diárias). "Temos que procurar caminhos, formas de poder sustentar o nosso negócio. A digitalização tem tornado o nosso setor muito disruptivo. O digital pouco paga ao nosso setor", concluiu.

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