Depois da Casa Pia, os abusos na Igreja. Souto de Moura lidera equipa que vai analisar denúncias

Antigo procurador-geral da República é o nome escolhido pelo patriarca de Lisboa para liderar comissão que analisará denúncias de abusos sexuais por padres - e é quem está a escolher os nomes com quem vai trabalhar.

José Souto de Moura é o nome escolhido pelo cardeal-patriarca de Lisboa para liderar a comissão que analisará denúncias de abusos sexuais de menores por padres - e é o antigo procurador-geral da República quem está a escolher os nomes com quem vai trabalhar, reunindo gente do clero e leigos, apurou o DN junto de fontes conhecedoras do processo.

Hoje, aos 68 anos, jubilado do Supremo Tribunal de Justiça, aquele que foi o procurador-geral da República que investigou o escândalo da Casa Pia, depois de notícias saídas nos jornais, vai coordenar o grupo que o Patriarcado de Lisboa quer para responder à proposta saída da cimeira de fevereiro do Vaticano.

Para já, é isto. Está tudo embrionário, sem um desenho claro de como poderá funcionar essa comissão. O próprio Souto de Moura confessou ao Público que tinha sido convidado para integrar a comissão, não abrindo o jogo sobre o trabalho dessa estrutura, que, sabe o DN, será liderada pelo magistrado jubilado.

O novo bispo auxiliar de Lisboa, D. Américo Aguiar, explicou numa entrevista à Rádio Renascença-Público que "o patriarca tem estado a trabalhar", desde a cimeira de fevereiro, no Vaticano, "de modo a que se possa encontrar uma plataforma, um serviço, alguma coisa que possa acolher, fazer a triagem, saber da verdade, sabendo que o top da preocupação é a vítima".

Qualquer novidade sobre a comissão está "para muito breve", confirmou ao DN o mais recente bispo do Patriarcado, ordenado no passado dia 31 de março. Mas Américo Aguiar escusou-se a dizer mais.

Afinal, o anúncio será feito por Manuel Clemente, eventualmente na Páscoa. A missa crismal, na Quinta-Feira Santa, que reúne todo o clero da diocese, pode ser uma oportunidade para convocar os padres diocesanos à ação. E a comissão entrará em funções depois da Páscoa.

O Papa quis dar o exemplo e anunciou, no final de março, a "obrigatoriedade da denúncia e afastamento de pessoas envolvidas em casos de abusos" no Vaticano. No seu motu proprio (decreto pessoal), Francisco definiu que, "sem prejuízo do sigilo sacramental", a confissão, ficam todos "obrigados a apresentar, sem demora, [uma] denúncia junto ao promotor de justiça do Tribunal do Estado da Cidade do Vaticano sempre que, no exercício das suas funções, tenham conhecimento ou motivos fundados para considerar que um menor ou uma pessoa vulnerável é vítima". E "sempre que forem cometidos alternativamente: no território do Estado; em prejuízo de cidadãos ou de residentes no Estado; por ocasião do exercício das suas funções, pelos oficiais públicos do Estado".

Por ocasião da cimeira de fevereiro, em declarações à agência Ecclesia, o patriarca sublinhava a necessidade de promover "instâncias de discernimento e acompanhamento" nas comunidades católicas, com a colaboração de especialistas.

Souto de Moura está a reunir a equipa que pretende "acolher, fazer a triagem, saber da verdade". Nomes ainda não há, apesar de várias fontes terem indicado ao DN várias possibilidades de áreas de saber que poderão integrar a referida equipa multidisciplinar, como a médica psiquiatra Margarida Neto, que trabalha na Casa de Saúde do Telhal, e o padre Nuno Amador, que é doutorado em Teologia Moral.

Exclusivos

Premium

Viriato Soromenho Marques

Madrid ou a vergonha de Prometeu

O que está a acontecer na COP 25 de Madrid é muito mais do que parece. Metaforicamente falando, poderíamos dizer que nas últimas quatro décadas confirmámos o que apenas uma elite de argutos observadores, com olhos de águia, havia percebido antes: não precisamos de temer o que vem do espaço. Nenhum asteroide constitui ameaça provável à existência da Terra. Na verdade, a única ameaça existencial à vida (ainda) exuberante no único planeta habitado conhecido do universo somos nós, a espécie humana. A COP 25 reproduz também outra figura da nossa iconografia ocidental. Pela 25.ª vez, Sísifo, desta vez corporizado pela imensa maquinaria da diplomacia ambiental, transportará a sua pedra penitencial até ao alto de mais uma cimeira, para a deixar rolar de novo, numa repetição ritual e aparentemente inútil.

Premium

Maria do Rosário Pedreira

Agendas

Disse Pessoa que "o poeta é um fingidor", mas, curiosamente, é a palavra "ficção", geralmente associada à narrativa em prosa, que tem origem no verbo latino fingire. E, em ficção, quanto mais verdadeiro parecer o faz-de-conta melhor, mesmo que a história esteja longe de ser real. Exímios nisto, alguns escritores conseguem transformar o fingido em algo tão vivo que chegamos a apaixonar-nos por personagens que, para nosso bem, não podem saltar do papel. Falo dos criminosos, vilões e malandros que, regra geral, animam a literatura e os leitores. De facto, haveria Crime e Castigo se o estudante não matasse a onzeneira? Com uma Bovary fiel ao marido, ainda nos lembraríamos de Flaubert? Nabokov ter-se-ia tornado célebre se Humbert Humbert não andasse a babar-se por uma menor? E poderia Stanley Kowalski ser amoroso com Blanche DuBois sem o público abandonar a peça antes do intervalo e a bocejar? Enfim, tratando-se de ficção, é um gozo encontrar um desses bonitões que levam a rapariga para a cama sem a mais pequena intenção de se envolverem com ela, ou até figuras capazes de ferir de morte com o refinamento do seu silêncio, como a mãe da protagonista de Uma Barragem contra o Pacífico quando recebe a visita do pretendente da filha: vê-o chegar com um embrulho descomunal, mas não só o pousa toda a santa tarde numa mesa sem o abrir, como nem sequer se digna perguntar o que é...

Premium

Maria Antónia de Almeida Santos

"O clima das gerações"

Greta Thunberg chegou nesta semana a Lisboa num dia cheio de luz. À chegada, disse: "In order to change everything, we need everyone." Respondemos-lhe, dizendo que Portugal não tem energia nuclear, que 54% da eletricidade consumida no país é proveniente de fontes renováveis e que somos o primeiro país do mundo a assumir o compromisso de alcançar a neutralidade de carbono em 2050. Sabemos - tal como ela - que isso não chega e que o atraso na ação climática é global. Mas vamos no caminho certo.

Premium

Catarina Carvalho

Querem saber como apoiar os media? Perguntem aos leitores

Não há nenhum negócio que possa funcionar sem que quem o consome lhe dê algum valor. Carros que não andam não são vendidos. Sapatos que deixam entrar água podem enganar os primeiros que os compram mas não terão futuro. Então, o que há de diferente com o jornalismo? Vale a pena perguntar, depois de uma semana em que, em Portugal, o Sindicato dos Jornalistas debateu o financiamento dos media, e, em Espanha, a Associação Internacional dos Editores (Wan-Ifra) debateu o negócio das subscrições eletrónicas.