Christopher Wylie: "O Steve Bannon estava a criar a sua NSA pessoal"

Cientista de dados que denunciou o escândalo da influência da Cambridge Analytica nas presidenciais norte-americanas diz que estamos a tolerar um mundo em que a inteligência artificial se está a tornar no nosso mestre

O poder da Internet para manipular a opinião pública e até ganhar eleições tem estado na ordem do dia ao longo dos últimos seis meses, depois da denúncia da ingerência da Cambridge Analytica, controlada por Sete Bannon, na eleição presidencial dos Estados Unidos. Christopher Wylie, o cientista de dados que denunciou o caso, esteve na Web Summit nesta terça-feira. E não teve dúvidas em garantir que Bannon, que viria a ser conselheiro presidencial de Trump, "estava a criar a sua própria NSA [Agência Nacional de Segurança]", recorrendo a software desenvolvido para interferir com a atuação de grupos extremistas islâmicos e não com o cidadão comum. E insistiu que o Facebook não só teve conhecimento como "autorizou" o uso de informação recolhida nos seus servidores para este fim.

Wylie começou por contar que a empresa, onde era diretor de pesquisa, tinha contratos com as forças armadas dos Estados Unidos e pretendia encontrar formas de interferir com a atuação online de grupos radicais, como o ISIS. "Quando trabalhamos em projetos militares, visando estes alvos, a ingerência na vida daquelas pessoas não é uma preocupação. Considera-se que usar desinformação, interferir com as redes destas pessoas, faz parte do combate que se está a travar com elas"", explicou. Mas tudo mudou com a entrada em cena de Steve Bannon, que comprou a empresa com a ajuda de um investidor, e a transformou numa coisa diferente, destinada a moldar a opinião pública. "Quando o Steve Bannon fala de guerra cultural, esta afirmação deve levar-se à letra: é uma guerra em que o teu armamento é informação e o teu sistema de mira é um algoritmo", defendeu.

Wylie decidiu sair da empresa quando concluiu que o que estava a ser feito era "uma ingerência" na vida dos cidadãos. "As pessoas eram identificadas como alvos, como acontecia com as pessoas do Estado islâmico. Essas pessoas desenvolviam relações com outras pessoas que podiam ou não existir, falando sobre coisas que podiam ou não ser verdadeiras. Depois, convenciam-se essas pessoas, criando grupos de discussão, de que certas coisas não saíam nos media generalistas porque estes tinham uma agenda, e que o que eles diziam eram as fake news, por oposição à informação que poderiam encontrar nas redes sociais". Toda a informação utilizada no processo, garantiu também, era enviada "para a Rússia".

"Facebook autorizou tudo"

Quanto ao papel do Facebook, cuja primeira reação, quando se confirmou que iria divulgar a informação, "foi ameaçar processar o Times e o New York Times", Wylie assegura que foi muito mais grave do que o de um mero observador passivo: "As coisas criadas pela Cambridge Analytica passaram pela avaliação do Facebook. Eles autorizaram tudo isto".

Wylie criticou ainda a falta de preparação das forças policiais e dos políticos para lidarem com estas armas digitais. "Falei com muitos senadores e congressistas nos últimos tempos. Uma das coisas que um deles me perguntou foi: "Onde é que guardamos a Internet na América", contou, acrescentando que a policia o chama a depor muitas vezes "principalmente porque sou um analista que podem recorrer sem terem de pagar. Não é divertido pensar que que tem o papel de combater o cibercrime está tão mal preparado", lamentou.

Além de defender a necessidade de se criarem leis mais rígidas para o universo digital - "Se regulamos o nuclear, se regulamos até a merda de um culto, porque é que não regulamos isto?" -, o cientista de dados defendeu também que aqueles que estão envolvidos no desenvolvimento de software devem adotar um código de ética que os impeça de desenvolver ferramentas potencialmente atentatórias dos direitos dos cidadãos.

Atualmente, considerou, os gigantes da Internet atuam quase sem restrições. "O Facebook tem tanto poder...está a fazer um clone digital de todos nós", ilustrou. E o cruzamento de diferentes plataformas que recorrem à inteligência artificial para estudar e influenciar os nossos hábitos é uma ameaça real à independência dos cidadãos: "Quando as aplicações estiverem ligadas à nossa casa, ao carro, à rua, ao nosso emprego, a inteligência artificial começa a pensar por nós", avisou. "Estamos a criar uma espécie de mestres de nós".

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