BaBe: o berço solidário que Maria João e Anisa criaram

Um dia fez-se luz. Maria João viu numa rede social que as mães finlandesas recebiam uma caixa de cartão com bens necessários e um cheque, e preferiam a caixa. Pois bem, porque não fazer um berço com formato de caixa cartão que fosse reciclado?

Anisa e Maria João nasceram as duas em Évora no mês de agosto, uma a 7 e a outra a 10, mas com uma diferença de 26 anos. Tantos quantos foram necessários a Maria João para fazer o seu percurso de estudante, profissional e de mãe, de dois filhos gémeos, hoje com 21 anos, que acabaram a estudar piano com a mesma professora da irmã de Anisa. E tantos quantos foram necessários a Anisa para crescer e amadurecer a ideia de que, afinal, o que queria mesmo era ser engenheira informática e aprofundar o seu interesse pela impressão 3D. "Quando era miúda quis ser muita coisa e por esta ordem: pediatra, arqueóloga e professora, mas um dia num verão inscrevi-me num curso do programa Ciência Viva e aí descobri o interesse pela informática, pela robótica, e foi assim que tudo começou. Entrei em Engenharia Informática no Instituto Superior Técnico e estou a fazer mestrado em Sistemas Inteligentes e Robótica", apresenta-se ao DN.

Foi assim que a distância de mais de duas décadas de existência afinal as aproximou, quando se conheceram perceberam que eram a simbiose perfeita para levar a cabo o projeto que há muito fervilhava na cabeça da bióloga Maria João Rasga, de 49 anos: um banco de berços, um projeto social, cultural e ambiental, cujo único objetivo "é dar um mimo às mães, aos pais e aos bebés que nascem no hospital de Évora", assim o define. O projeto já foi aceite pela Agência de Modernização Administrativa e está a votação até 30 de setembro no Orçamento Participativo Portugal (OPP). Se for aceite pelos cidadãos será aplicado na maternidade do Hospital de Évora e até poderá ser alargado a outras unidades e ao resto do país.

E não há engano. A ideia é mesmo a reciclagem ou a partilha de berços feitos a partir de material ecológico e da impressão 3D. "É um projeto para toda a gente, famílias carenciadas ou não. O berço seria dado às mulheres que acabam de ter filhos no hospital e ao fim de três a quatro meses, quando o bebé já não necessitasse dele, teriam de o devolver para ser reutilizado", argumenta Maria João, a alentejana que nos conta que a sua ligação a Évora e ao hospital da cidade é de longa data.

Não só porque foi ali que nasceu, mas também porque foi a Évora que quis voltar, depois de ter estudado e trabalhado em Coimbra vários anos, para criar e educar os seus filhos. Quanto ao hospital, a ligação é reforçada não só porque "nasci ali ao lado, mas em casa, junto a um café mítico da cidade, a Nau, num dia de calor infernal e com a minha tia e vizinhas à minha espera", mas porque a ideia de criar o BaBe surgiu num dia, quando atravessava o corredor da maternidade e fixou o olhar num cartaz colado na parede em que "pediam roupa e bens para doar a bebés. Foi então que pensei que a ideia que há muito fervilhava na minha cabeça, desde que uma amiga enfermeira me mostrou um post no Facebooksobre o que se pratica nas maternidades finlandesas, tinha de avançar. E comecei a perguntar a médicos e enfermeiras do hospital que estão comigo no coro da universidade o que achavam da ideia de se dar um berço que pudesse ser reciclado", explica.

"Os meus filhos disseram-me: 'Mãe,que grande ideia.' E isso convenceu-me"

Maria João Rasga não consegue situar ao certo no tempo o dia em que viu no Facebook o que o Estado finlandês dava às mulheres que acabavam de ter filhos: uma caixa de cartão com bens de primeira necessidade e um cheque em dinheiro, e "a maioria preferia a caixa de cartão. Pensei, isto dá para fazer cá. Andei com a ideia dentro de mim sem a transmitir a ninguém durante muito tempo e até ter chegado à versão de que poderia ser um berço com o resto de acessórios importantes para a mãe e para o bebé. A partir daqui, comecei a perguntar a profissionais do hospital se fazia sentido. Acharam que sim. Os meus filhos disseram-me: "É uma grande ideia mãe". Isso convenceu-me."

Aliás, confessa, "há um altura na vida que o altruísmo e a missão solidária tocam-nos e penso muitas vezes: se tens uma ideia, porque não partilhá-la?". Foi o que fez. E a partir daqui pediu opiniões, investigou tudo sobre berços, formatos e materiais, até perceber que teria de ser ecológico, a partir de fibras celulósicas com origem em restos alimentares, "o que é um verdadeiro recurso renovável", e feito para impressão 3D. "O material não é tóxico, é termorresistente, lavável e biodegradável e adequado ao uso", explica. Para tudo isto, diz Maria João: "Precisava de uma engenheira informática que me ajudasse. Conheci a Anisa e apresentei-lhe o projeto. Ela achou interessante e começámos a trabalhar."

Por isso, gosta de sublinhar, que a ideia que nasceu de uma imagem nas redes sociais, já não é sua, passou a ser de muitos e agora de todos. Começou por pedir a "ajuda de amigas para o babebook, para o projeto de colchão em cortiça, o mesmo material do meu primeiro colchão, e para as roupas que tinham de ser costuradas. O berço inclui um enxoval para verão e inverno, livros, e ainda roupa interior para a mãe. As cores usadas são essencialmente o branco, o creme e as cores neutras", afirma.

Para Anisa, de 23 anos, estudante de engenharia informática no Instituto Superior Técnico, em Lisboa, e a terminar mestrado em Sistemas Inteligentes e Robótica, o projeto de Maria João pareceu-lhe logo "muito interessante. Tinha de fazer o design e perceber como poderia ser construído. Eu tinha muito interesse na robótica e no facto de através dela muitas coisas do nosso dia-a-dia poderem ser melhoradas, aperfeiçoadas. Foi o que aconteceu aqui. Acabou por ser uma descoberta."

Independentemente do resultado da votação do OPP, Maria João e Anisa sentem que já ganharam ao conseguir concretizar esta ideia e consideram até que o projeto é mesmo umcase study na área da economia circular, já que promove valores ambientais.

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