A vergonha de voar por razões ambientais já tem um nome: Flygskam

Movimentos ecologistas contra as viagens aéreas estão a ganhar expressão. Um avião chega a emitir vinte vezes mais dióxido de carbono por passageiro do que um comboio

A contestação ao uso massivo dos aviões como meio de transporte, por razões ambientais, está a ganhar cada vez mais adeptos e já há uma palavra para definir a recusa em andar de avião por razões ecológicas: "Flygskam". A palavra é sueca e significa "vergonha de voar" ou, por outras palavras, uma preocupação ética que privilegia o uso de meios de transporte alternativos - sobretudo o comboio - menos poluentes do que a aviação aérea.

A tendência, cada vez mais internacional, tem vindo a ganhar força, em particular na Suécia. A par da "vergonha de voar", outras expressões têm vindo a popularizar-se. É o caso de "tagskryt", que significa "orgulho em andar de comboio" e que já se popularizou entre os que usam e querem promover esta forma de transporte. E até já há uma nova denominação para quem o usa o avião, mas já com algum desconforto - "smygflyga", qualquer coisa como voar em segredo.

Como conta a BBC, um dos primeiros nomes a promover publicamente o movimento contra as viagens de avião foi Bjorn Ferry, campeão olímpico sueco de biatlo. Depois dele, foi a vez de Malena Ernman, uma conhecida cantora de ópera na Suécia, vir assumir a mesma opção. E o movimento ganhou novo e redobrado impulso público quando a filha de Malena fez o mesmo: Greta Thunberg, a jovem ativista que lançou o movimento da greve estudantil e que viaja sempre de comboio.

Tráfego aéreo na Suécia está em queda

Não são conhecidos números de adesão ao Flygskam, nem é possível para já fazer uma relação direta, mas na Suécia o transporte ferroviário tem vindo a aumentar o número de passageiros, enquanto a aviação aérea está a registar perdas. "Este fenómeno é uma realidade e estamos a sentir os efeitos", afirmou já Rickard Gustafsson, responsável da companhia aérea sueca SAS, citado pelo jornal espanhol El País. No primeiro trimestre deste ano, o tráfego aéreo na Suécia caiu 5%.

Há quem desvalorize o fenómeno. "O número de passageiros nos países escandinavos não caiu, [o movimento] não tem reflexos no mercado", refere Kenny Jacobs, responsável da Ryanair. Mas o flygskam foi tema de um encontro da indústria da aviação que decorreu este mês na Coreia da Sul. "Se não oferecermos uma resposta, este sentimento vai crescer e vai-se espalhar", afirmou Alexandre de Juniac, presidente da Associação Internacional de Transporte Aéreo, citado pela agência Reuters.

De acordo com a Agência Europeia do Ambiente, um avião emite até 20 vezes mais dióxido de carbono para a atmosfera do que o comboio. A aviação aérea é responsável pela emissão de 2,5% dos gases de estufa que são lançados para a atmosfera e a previsão é de que esta percentagem venha a aumentar. Ao contrário de outros meios de transporte, onde há uma clara aposta em novos veículos elétricos em detrimento do uso de combustíveis fósseis, na aviação não existe para já qualquer alternativa viável que permita fazer decrescer a pegada ecológica dos aviões. Nesse cenário, a Holanda anunciou recentemente a implementação, dentro de dois anos, de uma taxa ambiental de 7,5 euros, a cobrar por cada passageiro, como forma de compensação pela poluição provocada pelo tráfego aéreo, mas também como desincentivo ao uso do avião.

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