"A raposa anda a assaltar os galinheiros" e tem de ser caçada

Época de caça

"A raposa anda a assaltar os galinheiros" e tem de ser caçada

Populações muito elevadas de raposas e saca-rabos ameaçam espécies em vias de extinção, equilíbrio dos ecossistemas e pequenos produtores rurais, argumentam caçadores. Parlamento debateu o fim da caça à raposa

Os mais de 120 mil caçadores portugueses licenciados já podem ir para o terreno a partir desta terça-feira caçar raposas e saca-rabos, arranque de uma época de caça que se prolonga até fevereiro e que, dizem as associações do setor, é marcada por um grande número de animais destas espécies, que têm de ser controlados através do abate. Há um ano (4 de outubro), a Assembleia da República chumbou quatro projetos de lei do PAN, BE e PEV para a proibição da caça à raposa e ao saca-rabos - com votos contra do PSD, PS, CDS-PP e PCP. Mas quais as razões para manter a caça à raposa?

"A raposa anda a assaltar os galinheiros. Tem fome, vai a todo o lado. Entra pelas populações", dispara Jacinto Amaro, da FENCAÇA - Federação Portuguesa de Caça, que representa cerca de mil titulares de concessões e à volta de 100 mil dos 250 mil caçadores com carta (estão licenciados metade: 122.548 - números de 2018). "O principal perigo colocado pelas raposas recai sobre os pequenos produtores pecuários de galinhas e borregos. Com os sistemas extensivos a predominar em Portugal, as ovelhas estão nas pastagens à noite, perdidas e as que estão nos primeiros dias de vida tornam-se alvos muito fáceis para as raposas", prossegue João Carvalho.

Época de caça à raposa arranca esta terça-feira e dura até fevereiro de 2020

Em 2018, em paralelo com as propostas debatidas no Parlamento para proibir a caça à raposa, correu em sua defesa uma petição pública com cerca de 20 mil assinaturas de cidadãos. Na altura, recorda o secretário-geral da Associação Nacional de Proprietários Rurais, Gestão Cinegética e Biodiversidade (ANPC), "foi possível provar aos deputados, com base numa avaliação técnica e científica, que [a proibição] ia comprometer outras espécies e as atividades económicas. O impacto das raposas nas produções familiares de aves de capoeira e pequenos ruminantes (ovelhas e cabras) é muito grande se não houver este trabalho".

O Partido Ecologista Os Verdes (PEV), parceiro de coligação do PCP na CDU, diz que pretendia, com o projeto de lei (chumbado) para retirar raposas e saca-rabos das listas de espécies cinegéticas, "porque não têm interesse gastronómico nenhum". "Não fazia sentido matar uma espécie por matar. Há uma especulação sobre as populações de raposas e saca-rabos. Não há censos concretos sobre a evolução tanto de uma população, como da outra. No fundo, a raposa concorre com o caçador", acusa Victor Cavaco, do Conselho Nacional e da Comissão Executiva Nacional do PEV. "O desequilíbrio nas populações de espécies tem mais a ver como nós interferimos no equilíbrio dos ecossistemas. A forma como o homem vai gerindo o território é que promove o aumento de populações. A atividade da caça tem alguma razão de ser, mas para comer e não como desporto. Se vamos voltar à carga? Vamos ver com a nova legislatura. Continua a ser um tema em cima da mesa. Há a perda de habitats e biodiversidade, na Europa e em Portugal. Iremos reapresentar essa iniciativa, não sei se nos mesmos moldes, se em moldes diferentes", garante.

João Carvalho critica os partidos e deputados empenhados em retirar raposas e caça-rabos das listas cinegéticas (espécies que podem ser legalmente caçadas). "Essas posições foram baseadas em algum radicalismo animalista. E na falta de conhecimento de como funciona a ecologia e os sistemas naturais. A caça, não sendo o único, é um instrumento para evitar um desastre ambiental, também".

Ciência reforça informação do terreno

"Já houve alturas em que podíamos deixar crescer as populações das raposas, porque se fazia a seleção natural. Um ecossistema equilibrado é aquele que tem as populações de todas as espécies num nível sustentável", argumenta Jacinto Amaro, líder da principal associação de caça desde a fundação (a FENCAÇA completa 27 anos a 10 de outubro). E acrescenta outro perigo predatório: "Essencialmente em algumas regiões, temos de controlar a população de javalis, que aumentou exponencialmente. Hoje estão às portas das grandes metrópoles. A semana passada estavam à entrada de Abrantes".

As associações controlam os números das populações através do Centro de Competências para o Estudo, Gestão e Sustentabilidade das Espécies Cinegéticas e Biodiversidade [CC]. Instrumento, considera Jacinto Amaro, que deixa os caçadores ainda mais preparados "para mostrar aos deputados que existe uma excessiva população predadora e uma baixa população de espécies de caça menor".

O CC foi criado a 6 de maio do ano passado pelo Ministério da Agricultura, Florestas e Desenvolvimento Rural, representado naquele dia em Santarém pelo ministro Capoulas Santos, e funciona nas instalações de um dos seus parceiros nucleares, o Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária IP (em Oeiras). "Temos essa componente científica que há uns anos não tínhamos. No Parlamento, fornecemos dados científicos e o conhecimento próprio, porque quem anda no campo todo o ano somos nós", pontua Jacinto Amaro, lançando farpas aos grupos políticos que pretendem proibir a caça (a representante do PAN, em campanha, não conseguiu responder em tempo útil para este trabalho; não foi possível contactar a assessora do Bloco de Esquerda).

"Trabalhamos com a Universidade de Aveiro, a Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, a Faculdade de Ciências de Lisboa, a Universidade de Évora e o CIBIO-InBIO - Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos, ligado à Universidade do Porto", insiste o presidente da FENCAÇA perante as acusações do líder do PAN.

André Silva, num projeto de resolução entregue na Assembleia da República a 15 de fevereiro, apontava o dedo: "A inexistência de qualquer monitorização de espécies sujeitas a exploração cinegética é factual, traduzindo uma total ausência de informação no que diz respeito à abundância, demografia e tendências populacionais".

"O Centro de Competências trata de tudo o que hoje é estudado na caça, da vacina ao coelho e à lebre, à monitorização das espécies", retorque o presidente da FENCAÇA, acusando que "a grande parte dos deputados são da cidade, não são de terras rurais". "Fazem essas propostas com base numa matriz fundamentalista. Se quisessem saber [o que se passa na caça] vinham ter connosco. Já convidei o André Silva em direto na televisão, num programa da SIC, para vir comigo ao campo ver como funciona a caça. E não veio".

E João Carvalho reforça: "Felizmente, os projetos de lei não passaram. Foram fortemente contestados pelas organizações rurais. Não só da caça, mas de agricultores. Eram projetos de lei baseados numa perceção urbana. A raposa é fundamental no nosso ecossistema, mas é um problema quando está em excesso. A caça aparece como um instrumento de regulação da espécie. Através disso tivemos a oportunidade de recuperar algumas espécies em risco, como o lince ibérico, a águia imperial, a águia-real e a águia de bonelli. O controlo das raposas foi um dos pontos fundamentais para a reintrodução de várias espécies ameaçadas".

Este ano é promissor para o abate de rolas, mas há um problema com o coelho-bravo, o predileto de raposas e linces ibéricos, por exemplo. "As populações de raposa e saca-rabos são muito abundantes. Ao libertarmos presas destes predadores, podem ser alimento para espécies ameaçadas", explica o secretário-geral da ANPC, umas das três reconhecidas como de primeiro nível pelo Estado.

Bem mais de 30 milhões para o PIB

Segundo os últimos números disponíveis nos "Principais Indicadores do Sector Cinegético" do Instituto Nacional de Estatística, que reportam a 31 de maio de 2018, mas incluem dados informatizados a 1 de março de 2019, "em Portugal Continental, no ano 2019, a área de caça distribuiu-se por 7 milhões de hectares e por 5 054 zonas de caça, mais 11 mil hectares e 77 espaços que em 2018". E o impacto na economia? "Bem mais de 30 milhões de euros".

"Se se proibir a caça, os caçadores deixam de trabalhar os habitats, deixam de fazer os seus melhoramentos, sementeiras, comedouros, bebedouros e os proprietários ficam impotentes para preservar o meio ambiente e proteger a Natureza de perigos como os incêndios", aponta Jacinto Amaro.

"No boca a boca, estima-se que o setor de caça produza para a PIB cerca de 30 milhões de euros, direta e indiretamente. Mas neste cálculo pouco rigoroso, estão incluídas apenas as taxas, licenças e vacinas. E pouco mais", garante um dos mais reconhecidos peritos em assuntos de caça do país, o presidente da FENCAÇA. "Pagamos muitas taxas. Para acesso às zonas de caça, pagamos ao ICNF, dinheiro que vai para as Finanças, 1,8 euros por hectare, na caça turística, e 0,9€ por hectare, na associativa. A licença de caça anual custa 65 euros, a nacional, e 35€, a regional", exemplifica.

"Mas há muitos fatores económicos da caça que não estão incluídos, da licença dos cães, ao porte de arma, da carta de caçador ao seguro dos cães. Além do gasóleo, das centenas de milhares de tonelada de milho e de trigo que os caçadores compram todos os anos para fortalecer as populações de espécies cinegéticas", avisa, calculando que o peso da caça no PIB "seja muito superior" aos 30 de milhões de que se fala dentro do setor.

E sublinha o impacto noutros setores, como na agricultura. "A Europa produz cereais em grande escala. E estamos na União Europeia. França, Alemanha, Roménia, Bulgária e Hungria são grandes produtores. Por hectare no Alentejo, pode conseguir-se 2/3 toneladas. Nesses países, têm em média seis toneladas de trigo e girassol. Em 30 anos, a agricultura transformou-se na criação agropecuária porque não éramos competitivos. E agora cada vez menos", contextualiza.

"Ou fazemos sementeiras ou compramos as sementes aos produtores para as introduzir diretamente nos comedouros. Hoje, está-se a abandonar a sementeira de cereais, exceto o milho, porque não é rentável", avança. "Há muitos indicadores que não estão consagrados no impacto económico da caça. Da renda dos agricultores à comida que se consome ou do gasóleo que se gasta", insiste Jacinto Amaro, que, no entanto, está esperançoso na realização, em breve, do primeiro estudo de fundo sobre a economia da caça.

Agora, o Centro de Competências poderá vir a fazer esse estudo. "Espanha fez há pouco um estudo económico. A caça tem a capacidade de desenvolvimento rural das regiões mais pobres do país. E depois há os ataques desses partidos. Numa freguesia da Beira Alta ou do Norte Alentejo, se não fossem as montarias [caça de perseguição], as caçadas, como sobreviveriam as gentes? Não têm teatros ou campos de golfe... Não têm lá o Colombo. Nem há emprego. Nem agências de bancos, nem serviços, nada...".

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