Os incêndios rurais em 2025 elevaram a área ardida para 98% da extensão prevista até 2030 pelo Programa Nacional de Ação (PNA) desenhado pelas autoridades, alertou hoje a associação ambientalista Zero. “Portugal já esgotou cerca de 98% do limite de área ardida previsto para toda a década 2020-2030 — e ainda faltam cinco anos para 2030”, salientou a associação, em comunicado, reagindo ao relatório do Sistema de Gestão Integrada de Fogos Rurais (SGIFR), divulgado na segunda-feira pela Lusa.Os dados mostram um “retrato duplo”, com “menos vítimas mortais e uma resposta operacional mais eficaz”, ao mesmo tempo que 2025 foi “o quarto pior ano em área ardida desde 2001, com o dobro da área queimada em 2024 e mais ignições do que no ano anterior”. Além disso, o “incendiarismo continua a ser uma das causas mais destrutivas do sistema”.A associação criticou a situação da Agência de Gestão Integrada de Fogos (AGIF), que está “sem presidência efetiva desde 2024”, num momento “em que a implementação do PNA avançou apenas para 53%, com 21% das iniciativas ainda por iniciar”. Para a Zero, “as metas de 2030 estão cada vez mais distantes de serem cumpridas” e mostram o risco da sustentabilidade do sistema, como indicam os dados de 2025.No ano passado, houve um aumento de ignições e da área ardida (“271 mil hectares, praticamente o dobro dos 137 mil registados em 2024”) com os 44 maiores incêndios a serem “responsáveis por 91% de toda a área ardida do ano”. “As ignições por uso negligente do fogo voltaram também a subir (+27%), confirmando que já não há contraste entre comportamento social e severidade meteorológica: ambos os indicadores pioraram em simultâneo”, alertaram os ambientalistas, que notam a mão humana como a causa dos fogos mais destrutivos.Dos “seis maiores incêndios do ano, (160.048 hectares, mais de metade da área ardida total), apenas um teve origem em fogo posto; os restantes resultaram de dois raios, dois usos do fogo (um cigarro, uma fogueira) e um acidente de transportes, todos numa mesma janela de sete dias de condições meteorológicas extremas”.“Em 2025, o incendiarismo e o uso do fogo mantiveram-se como as principais causas identificadas dos incêndios, respondendo em conjunto por cerca de 78% das ocorrências com causa determinada”. Numa comparação entre os dados e o PNA, a associação salientou que a “proporção de grandes incêndios continua mais de 50% acima da meta definida para 2030” e criticou a falta de uso de fogo para combater os incêndios.“O fogo controlado, a ferramenta de prevenção mais eficaz e mais barata que existe, continua a ser a mais negligenciada e, em vez de crescer, a execução caiu ainda mais em 2025, para menos de metade da meta anual”, explicou a Zero.A associação ambientalista lamentou que a “gestão de fogos rurais continue a não ser tratada como prioridade transversal de Estado”, com a AGIF a deixar de “responder diretamente ao primeiro-ministro”, passando “para a tutela do Ministério da Agricultura, uma mudança que, em vez de resolver a fragilidade institucional da agência, parece estar a acentuá-la”.Em 2025, “os incêndios rurais foram responsáveis pela libertação de cerca de 3,6 milhões de toneladas de carbono — aproximadamente o dobro da média histórica desde 2003 e o equivalente a 24% de todas as emissões nacionais anuais”, que mostra, segundo a Zero, “uma contradição incontornável”. Isto porque “não é possível falar de política climática credível em Portugal enquanto a gestão do território rural continuar a gerar, todos os anos, um volume de emissões equiparável ao de setores inteiros da economia”..Maioria da área ardida em 2025 foi causada por 44 incêndios.Vouzela atira Portugal para recorde da Europa de área ardida em 2026