A associação ambientalista Zero denunciou nesta sexta-feira, 29 de agosto, que 28% das horas de operação no período sem restrições do aeroporto de Lisboa ultrapassam a capacidade declarada, à revelia de avaliação ambiental, com impactes “insustentáveis para a cidade e concelhos limítrofes”.Em comunicado, a Zero – Associação Sistema Terrestre Sustentável refere que “as ações e obras executadas desde 2017 para expandir a capacidade aeroportuária no ar, na pista” e no estacionamento do Aeroporto Humberto Delgado, “estão a permitir fluxos superiores à sua capacidade oficialmente declarada de 38 movimentos por hora em muitos períodos do dia”.A associação tem repetidamente pedido uma avaliação ambiental, que nunca foi realizada.“Desde junho, 28% das horas de operação no período sem restrições das 06:00 às 00:00 já estão acima dos 38 movimentos, com 18% das horas a registar mais de 40 voos, um pico de 45 movimentos, e 4,3% das horas a registar mesmo mais de 42 voos”, lê-se na nota enviada à Lusa.A organização não-governamental (ONG) salienta que a situação “acontece de forma reiterada”, num processo "à revelia dos imperativos legais que o deveriam obrigar a Avaliação de Impacte Ambiental, com consequências ambientais insustentáveis para a cidade e concelhos limítrofes”.A análise incidiu em todos os voos de passageiros e carga (exceto jatos privados e aviões militares) com origem ou destino no aeroporto, entre 01 de junho e 22 de agosto, com foco entre as 06:00 e a meia-noite, período que não está sujeito às restrições impostas pela portaria que estabelece um regime de exceção associado ao ruído.A ONG verificou assim que “em 19 ocasiões existiram períodos superiores a duas horas consecutivas todas com mais de 38 movimentos”.Um registo que “sugere que o encerramento da pista cruzada em 2017, a construção das duas saídas rápidas em 2020 e mais recentemente as melhorias no sistema de navegação aérea já permitiram aumentar a capacidade de estacionamento, da pista e dos corredores aéreos além da capacidade oficial”."Todo o processo está a ser conduzido sem qualquer avaliação do seu impacto sobre a saúde de centenas de milhares de pessoas – a Agência Portuguesa do Ambiente apenas avaliou de forma descontextualizada o aumento de capacidade do terminal, ao qual deu luz verde”, critica.A organização chama “a atenção para duas sequências de quatro horas com 40 ou mais movimentos em todas as horas, apresentando uma média de 41,5 movimentos nesses períodos (29 de junho e 30 de julho, no horário 19:00-23:00 em ambos os casos)”.A Zero também “contou 419 horas com mais de 38 movimentos (28% do total de horas consideradas)” e, na hora de ponta do fim do dia (18:00-21:00), a média de movimentos por hora “superou a capacidade declarada do aeroporto, cifrando-se em 38,1, sendo a hora mais concorrida entre as 19:00 e as 20:00 com 38,5 movimentos” em média.“Em 265 ocasiões os residentes afetados diariamente por níveis de ruído insalubre acima do legalmente permitido suportaram mais de 40 movimentos horários, ou seja, 18% do total de horas”, nota.Além disso, “em média, um avião a cada 100 segundos infernizou o bem-estar dos cidadãos de Lisboa e dos concelhos em volta, com um pico de 699 voos num só dia (03 de agosto), ou seja, um avião a cada 98 segundos a aterrar ou a descolar”.“Nos períodos com sequências de voos acima dos 38 movimentos/hora, um avião a cada 87 segundos fez tremer as janelas de muitas das casas dos residentes em Lisboa, Almada, Loures e Vila Franca de Xira”, destaca.Perante estes “dados calamitosos”, a Zero espera que o Supremo Tribunal Administrativo se pronuncie com urgência sobre o pedido de anulação de diversos atos, interposto pelo Ministério Público, dada a “necessidade de submeter todas as ações e obras” executadas “desde 2017 a uma rigorosa avaliação”, face à “crescente intensificação dos danos produzidos na saúde humana”.A ONG considera que “o inferno desce à terra durante a noite para muitos cidadãos da região de Lisboa” e que os períodos 23:00-00:00 e 06:00-07:00, sem qualquer restrição, “precisam de limites”.Na última hora do dia, “verificaram-se em média 32 movimentos, com alguns dias em que mesmo neste horário o aeroporto funcionou acima da capacidade declarada” – 39 em 08 de junho, 40 em 16 de julho, 39 em 04 de agosto –, enquanto, entre as 06:00 e as 07:00, registou-se “uma média de 32,3 movimentos/hora”.“Perante estes dados estarrecedores impõe-se que o Governo e as autoridades comecem desde já a avaliar medidas de restrição de voos nestas duas horas, sem o que dificilmente se poderá proteger o sono e a saúde dos cidadãos afetados enquanto o atual aeroporto de Lisboa não é definitivamente encerrado”, defende.No período em análise, não houve uma única semana em que, entre as 00:00 e as 06:00, se “cumprisse os 91 movimentos máximos estipulados na legislação, com uma média de cerca de 150”.Por isso, a ONG “aguarda impacientemente um endurecimento do regime contraordenacional para que a ilegalidade deixe de compensar”, e que uma resolução do Conselho de Ministros seja “efetivamente aplicada no início de novembro”, pondo fim a voos entre a 01:00 e as 05:00, e proibindo aviões ruidosos no período 06:00-07:00 e última hora do dia..Novo recorde. Aeroporto de Lisboa regista mais de 35 milhões de passageiros em 2024.Filas, atrasos e avarias: um dia no aeroporto de Lisboa