Xadrez : um "reino" com poucas rainhas

O sucesso da série da Netflix parece ter relançado o interesse do público pelo xadrez, nomeadamente entre as mulheres. Ao facto não será o estranho o glamour da protagonista feminina, Beth Harmon, mas, da ficção à realidade, parece ir uma grande distância já que, na modalidade de Karpov e Kasparov, ainda são poucas as mulheres a fazer xeque-mate.

Não é demasiado glamorosa para jogar xadrez?", perguntam os jornalistas a Beth Harmon quando, contra as expectativas, ela atinge o topo das competições da modalidade, derrotando homem após homem. A cena passa-se na muito aplaudida série da Netflix, Gambito de Dama (baseada no romance homónimo de Walter Trevis) e a tal pergunta, a personagem (interpretada por Anya Taylor-Joy) responde: "Diria que é muito mais fácil jogar sem o fardo da maçã de Adão." A ação decorre nas décadas de 1950 e 1960, mas ainda hoje a presença vitoriosa de mulheres em competições mistas pode despertar idêntica estranheza.

"Se uma mulher sair ao sábado à tarde para jogar xadrez, deixando a família em casa, isso ainda não é bem visto. O mesmo não acontece com os homens."

Ariana Pintor confirma a desigualdade, paradoxal num jogo em que a peça mais valiosa é...a rainha: "Se uma mulher sair ao sábado à tarde para jogar xadrez, deixando a família em casa, isso ainda não é bem visto. O mesmo não acontece com os homens." Na infância, salienta Ariana, "o interesse é tão expressivo nos rapazes como nas raparigas mas é na adolescência que a diferenciação começa a acontecer, tornando o xadrez um mundo ainda muito masculino." Tudo muito diferente do ambiente de cavalheirismo, e até solidariedade, conhecido pela protagonista de Gambito de Dama...

Aos 8 anos, Maria Clara Martins ainda não chegou a essa fase. Campeã nacional de sub-8 em 2019, iniciou-se, por vontade própria, na modalidade há dois anos. Embora, segundo a própria, "o pai já jogasse um bocadinho e lhe tivesse ensinado os movimentos das peças", foi, ao ingressar no 1.º ano do ensino básico no Colégio da Beloura, que pediu para frequentar as aulas de xadrez como atividade extracurricular. "Ficámos surpreendidos", diz a mãe, Rita Miguéis, "porque é uma modalidade que exige algumas horas de concentração e imobilidade, o que é sempre desconcertante numa criança, mas a verdade é que lhe tomou o gosto." Maria Clara admite que "a maior parte dos jogadores são meninos", mas (ainda) não se sente condicionada por estar em minoria. Determinada, disputa provas ("fui convidada para quatro campeonatos, fui a três") e diz não sentir qualquer dificuldade em conciliar estudos e as horas que, em casa e na escola, habitualmente dedica ao xadrez.

Oriana Reynolds, hoje com 34 anos, também começou em idade escolar. Filha e neta de praticantes (o pai foi professor de xadrez), iniciou-se na modalidade ao mesmo tempo que aprendia a ler: "Tive uma professora extraordinária, a Marisa Valdez, na escola do bairro de Santos, ao Rego, em Lisboa, que me marcou muito. Depois, quando mudei para a Escola Marquesa de Alorna, já estava a entrar na adolescência e fui desenvolvendo uma mistura de sentimentos: se. por um lado, apreciava a liberdade que tínhamos quando estávamos vários dias fora de casa porque íamos a provas, por outro, comecei a sentir a pressão psicológica de um mundo nem sempre bonito, em que a competição entre os pais dos alunos, por exemplo, podia assumir aspetos cruéis." Acabou por abandonar, para regressar mais de 20 anos depois. "Aconteceu em 2018. Fui com a minha mãe a um pequeno centro comercial em Coina e estava lá um senhor a jogar. Ele acabou por se lembrar de mim dos tempos em que ia a campeonatos e desafiou-me a regressar." E assim aconteceu. Aproveitou o confinamento para, com ajuda de um amigo, voltar a "treinar a concentração, visualização e foco, pelo menos duas vezes por semana." Está a tentar despertar o interesse da filha de 9 anos, "mas com a consciência de que as coisas ainda não mudaram muito desde a minha adolescência. Continua a haver muito poucas mulheres no xadrez e ainda se desdenha das capacidades das que, ainda assim, persistem".

Ariana Pintor, hoje com 32 anos, jogou muito entre os 14 e os 20 anos, mas admite que se sentiu sempre "muito protegida pelo pai, que aliás me ensinou a jogar aos 5 anos, e pelo irmão, também xadrezista". O ambiente familiar é decisivo, considera. "Tive amigas que também continuaram porque eram irmãs e, apoiadas desse modo, desvalorizavam certo tipo de comentários pouco favoráveis, que levam muitas raparigas a abandonar a modalidade." Ariana só abrandou o ritmo ao ingressar no Ensino Superior, e mais tarde na vida profissional, mas ainda assim é senhora de um palmarés impressionante: mestre FIDE (grau atribuído pela Federação Internacional do Xadrez aos atletas que tenham obtido a pontuação igual ou superior a 2300 pontos em, pelo menos, 24 partidas oficiais), foi campeã nacional feminina em 2018, vice-campeã absoluta em 2004 e 2007 e integrou a seleção olímpica feminina entre 2004 e 2010. Este sucesso pessoal não a faz perder de vista as dificuldades sentidas pela maior parte das mulheres já na vida adulta, quando conciliar a prática deste desporto, que exige muitas horas de estudo e treino, com família e profissão pode ser um quebra-cabeças. "Eu espero não as vir a ter já que o meu namorado, que não é jogador, me incentiva imenso. Mas essa não é a realidade da maior parte das mulheres."

Na lista dos cem melhores de sempre aparecem apenas três mulheres: a húngara Judit Polgár (que dominou o xadrez feminino durante 25 anos, tendo estado várias vezes no top 10 absoluto), a georgiana Maia Chiburdanidze e a chinesa Hou Yifan, ainda em atividade. Nascida em 1994, Hou foi a xadrezista a chegar mais cedo ao título de Grande Mestre e também a professora mais jovem da universidade de Shenzhen. Mas estas são as brilhantes exceções que confirmam a regra. Em França, por exemplo, apenas 20% dos xadrezistas federados em 2019 eram do sexo feminino. Esta desproporção justifica, aos olhos de muitos, que apesar de se tratar de uma modalidade essencialmente intelectual, continuem a realizar-se competições separadas, à semelhança do que acontece em desportos mais físicos. Para Ariana Pintor, se assim não fosse, "dada a desproporção existente entre o número de praticantes femininos e masculinos, seria muito difícil manter os níveis de motivação e até o ritmo de competição das xadrezistas".

Embora o atual campeão do mundo, Magnus Carlsen, tenha afirmado, em entrevista recente, que "as sociedades de xadrez não têm sido amáveis com mulheres e raparigas ao longo dos tempos, há que mudar a cultura da modalidade", o preconceito tem raízes profundas. O campeão norte-americano Bobby Fischer (1943-2008), em que o escritor Walter Trevis se terá baseado para criar a personagem de Beth Horman, afirmava, sem pruridos, que "as mulheres são terríveis xadrezistas" e que "estas não se deviam meter em assuntos intelectuais", no que era corroborado pelo rival soviético Kasparov que, numa famosa entrevista à Playboy (1987), dizia: "Há xadrez a sério e depois há xadrez para mulheres." Ante tal excesso de confiança, o que fazer quando, frente a frente, são elas que saem vencedoras? Susan Polgar (que com Judit e Sofia formou um notável trio de irmãs, treinadas pelo pai, nos primeiros anos deste século) talvez tenha a chave para esta incógnita: "Quando os homens perdem contra mim é porque "tiveram" uma terrível dor de cabeça... Quase me fizeram crer que nunca derrotei um homem saudável."

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