Work4u cobrava 60 euros para colocar estagiários. Agora vai ser investigada

Autoridade para as Condições de Trabalho fiscaliza empresa de gestão de carreiras que já desligou o telefone e fechou o site

A Autoridade para as Condições de Trabalho está a investigar a empresa Work4u - gestão de carreiras na sequência de denúncias feitas por estagiários que dão conta do pagamento de 60 euros por pessoa - 30 de caução e outros 30 da emissão de certificado - para terem acesso ao mercado de trabalho.

A queixa formal foi apresentada pela Associação Precários Inflexíveis, segundo foi confirmado ao DN por fonte da ACT. A associação também entregou uma queixa no Ministério Público, admitindo que esta prática pode configurar um crime de "angariação ilegal de mão-de-obra". Mas foi um recente anúncio que engrossou a contestação à empresa, pois os estagiários eram publicitados como um produto: "Experimente grátis. Receba sem compromisso um estagiário durante dois dias". Até o humorista Ricardo Araújo Pereira satirizou esta autopromoção da empresa.

Foi movido pelo desespero de encontrar trabalho na área de design, que Mário julgou ter em mãos uma preciosa ajuda da Work4u, firma que funciona como intermediária entre estagiários e empresas, a quem também cobra o serviço de angariação. Há um mês deslocou-se de Coimbra a Lisboa, até à rua Bartolomeu Dias, n.º 96, para ser entrevistado nas instalações da empresa que ocupa duas salas. "Não me disseram nada sobre a empresa para onde poderia ir, nem que funções ia desempenhar", conta ao DN. O salário também ficava aquém. "Disseram-me que o estágio poderia chegar aos seis meses, mas que, apesar de ser a tempo inteiro, o ordenado não seria superior a 200 euros. Afinal, era só o subsídio de alimentação e transporte. E sem qualquer compromisso de poder continuar na empresa", relata.

Mário achou tudo ainda mais estranho quando recebeu a ficha de inscrição que mencionava o pagamento da taxa de inscrição de 30 euros. O regulamento indicava que 15 euros seriam devolvidos, caso a empresa não conseguisse proporcionar cinco oportunidades de trabalho ou cinco entrevistas no prazo de três meses. "Depois pediam mais 30 euros pela taxa de ativação assim que iniciássemos o estágio", diz acrescentando que optou por não pagar nada e desistir.

Com maior ou menor interesse dos estagiários a Work4u manteve a atividade, até que na semana passada uma tentativa arrojada de marketing lançou a indignação nas redes sociais. A plataforma "Ganhem vergonha" publicou na sua página da internet o anúncio que publicitava a possibilidade de as empresas experimentarem um estagiário à borla por dois dias e até apresentava a mais recente promoção. Por um ano cada estagiário custaria às empresas 969 euros (representando um desconto de 15%), enquanto seis meses saiam a 510 euros (10%) e um mês a 95. O salário seria decidido pela entidade patronal.

O anúncio da Work4u não escapou à ironia de Ricardo Araújo Pereira, que à sua crónica na revista Visão deu o título "O estágio não remunerado do pai Tomás", para garantir que "recrutar e comercializar estagiários é uma atividade difícil". Justifica que "gente desesperada para entrar no mercado de trabalho costuma ser má de aturar. Choradeiras, perguntas parvas", insiste, dando um exemplo: "Dentro de quantos anos começarei a receber um salário?".

Mais a sério, João Camargo, da Associação Precários Inflexíveis, diz tratar-se de uma situação "completamente atípica e única no país, que não tem cabimento legal". O dirigente admite que muitos estagiários "tenham caído nesta malha", mas espera que o mediatismo após as dezenas de denúncias "sirva para alertar as pessoas", diz.

O DN tentou contactar a Work4u, mas o telefone da empresa estava desligado, depois de também a página web ter sido encerrada, ficando apenas uma comunicado sobre o assunto, que é assinado pela direção, mas sem nomes. Ai pode ler-se que a empresa não está relacionada com estágios praticados pelo Instituto de Emprego e Formação Profissional e não recebe qualquer valor vindo do Estado, confirmando que recebe uma taxa paga pela pessoa que quer fazer parte da bolsa de candidatos a estágio e um valor da empresa que acolhe o estagiário, pelo serviço de consultadoria que presta na angariação. Sobre o seu modo de funcionamento, a Work4u revela que vai agora submeter a atividade desenvolvida à apreciação das entidades competentes.

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