Na década de 1940, um jovem casal saiu da Beira Baixa para tentar uma vida melhor onde o país estava a se desenvolver. Foi em Oeiras que António encontrou trabalho, na Fábrica de Cerâmicas de Montargila. Passou a viver, com a esposa Luísa, numa das salas, já que a sua função envolvia manter os fornos quentes durante a madrugada. Foram décadas de serviço até que, em 1967, a fábrica encerrou atividades. Quase 60 anos depois, António e Luísa estão de volta ao local. Dão as caras a uma obra de ninguém menos do que Vhils, com os olhares a contemplar a nova vida do espaço onde começaram a construir o seu legado familiar, que continua, agora, pelas mãos de um neto.Ricardo Silva Marques é cirurgião-dentista. Cresceu a ouvir as histórias sobre a fábrica e a ver a construção a entrar em decadência ano após ano. “A minha tia nasceu aqui, o meu pai já não, mas no fundo a história da minha família também começou aqui. Um casal humilde ter saído de uma pequena aldeia e ter se instalado aqui, que era o seu sustento e também de muitas famílias da região, e depois a vida ter tomado o seu rumo, não é?”, diz ao DN o atual dono do imóvel.Em 2017, quando a fábrica foi a leilão, viu a chance de realizar um sonho. “O neto ter conseguido adquirir este espaço, que estava devoluto, senti que não podia fazer disto algo só meu, senti que este edifício não me pertencia só a mim, e sempre desejei ter alguma devolução à comunidade local, porque este edifício faz parte da história aqui desta região, e no fundo acabei por juntar o útil ao agradável”, completa Ricardo..Assim nasce a Le Art Clinic. O prédio, classificado como património municipal de Oeiras, estava em ruínas, e foi comprado por 321.008 euros. Até 2025, a remodelação, que custou 3,6 milhões de euros, transformou o espaço na clínica deste dentista, mas também num género de galeria.Ricardo contatou pessoalmente alguns artistas nacionais de referência. Além do reconhecido Vhils para o retrato dos avós, tem um painel de azulejos feito por Joana Vasconcelos numa das fachadas, um outro mural, na área do estacionamento, do mestre da azulejaria Manuel Cargaleiro, um galo de grandes dimensões de Bordalo II e um painel, no jardim, de Álvaro Siza Vieira.A remodelação também manteve a traça e algumas das sinaléticas da fábrica e, além destas obras de maior relevância, também podem ser vistos quadros e outros objetos da coleção pessoal do dentista, que confessa sempre ter tido um gosto pelas artes. A celebrar um ano desde que a clínica foi aberta, prepara-se para expor alguns dos azulejos originais da Fábrica e quer dinamizar uma esplanada e um restaurante. “Desde o ano passado, temos feito alguns eventos no final de tarde. Vamos lá ver agora se o tempo permite retomarmos essa nossa ideia de convidar as pessoas a virem. Organizamos o bebereto, uns salgadinhos, temos música, no fundo para que os nossos vizinhos, quem passa aqui, possa entrar e desfrutar um fim de tarde, desfrutar das obras de arte, sem ter que consumir nada ou que pagar alguma coisa, porque esse era e sempre foi um dos pilares principais deste projeto”..Todas as iniciativas realizadas até agora, que incluem até um festival em que cantaram Carminho e Tony Carreira, foram abertas ao público e realizadas com recursos próprios. “Como se sabe, não há almoços grátis”, comenta Ricardo, a ressaltar a indepdendência que quer manter “para realizar os nossos projetos”.Os planos são muitos, mas o principal, por enquanto, diz que já alcançou. “Quando vejo alguém olhar para a intervenção do Vhils, sendo os meus avós, e sentindo que está a impactar, no fundo, acabo por ter também aquele retorno emocional de sentir que há qualquer coisa que foi feita, do qual eu participei e que permite impactar pessoas. .”Eu brinco, quando dizem que D. João VI fugiu, que ninguém foge com biblioteca”.Grada Kilomba. "Ser artista é trabalhar com os horrores da humanidade e torná-los poéticos e contemplativos"