Três freiras e um padre suspeitos de escravizar noviças em convento

Os indícios começaram quando uma freira do convento de Requião apareceu morta em 2012. Depois do caso, que se concluiu ser suicídio, três antigas noviças apresentaram queixa por cárcere, escravidão e agressões

No convento de Requião, Famalicão, onde não entram homens de barba ou cabelo comprido nem mulheres de calças, entraram ontem os inspetores da Polícia Judiciária do Porto. Eram 07.00 da manhã. Chegaram com mandado judicial para revistar tudo e constituir como arguidas três freiras e o padre fundador da instituição, Manuel Milheiros, da Fraternidade Missionária Cristo Jovem, pelos crimes de maus-tratos, escravidão e cárcere (prisão) a três noviças que já saíram do convento.

O primeiro ato estranho a chamar as atenções para o convento aconteceu em 2012, quando uma freira apareceu morta num tanque. Tendo-se então concluído que a religiosa se teria suicidado, apareceram, depois desse caso, três noviças (iniciadas sob a direção de um mestre para a consagração religiosa), com idades entre os 20 e os 30 anos, a apresentarem queixa, alegando terem sido agredidas pelo padre Milheiros e pelas três freiras e aprisionadas, numa vida de escravatura dentro do convento.

A presença da PJ ontem no edifício religioso onde existe uma réplica da Capelinha das Aparições, em Fátima, e onde vingou o culto da Cruz do Amor (ver caixa), foi o culminar de uma investigação que durou um ano.

Queixosas deixaram convento

Os inspetores da Judiciária conduziram as buscas até às 13.00, no interior do convento, tendo levado documentos e objetos relevantes para a investigação, adiantou ao DN Ernesto Salgado, o advogado da instituição. "As três queixosas saíram do convento nos últimos dois anos, de livre vontade, a última até já saiu este ano", precisou o advogado. "Ninguém é forçado a estar numa instituição aberta", acrescentou, sem disfarçar a "surpresa" dos seus clientes - as três freiras e o padre - perante a medida cautelar das buscas conduzidas pela PJ.

Segundo contou Ernesto Salgado, paralelamente à investigação judiciária decorria uma investigação da Igreja. "Desde 2014 que o convento vinha a ser notificado pela diocese de Braga, pelo arcebispo Jorge Ortiga, por causa das denúncias que tinham sido apresentadas pelas noviças."

As três freiras arguidas estão agora com mais de 70 anos e o padre Manuel Milheiros tem 82 "e está acamado", segundo o seu advogado. Estão com termo de identidade e residência e na segunda--feira serão presentes ao juiz para primeiro interrogatório judicial, no tribunal de Famalicão. Depois da saída da PJ, os quatro arguidos puderam permanecer no convento. Três outras freiras, mais novas e que compõem o resto da população no edifício, são testemunhas no processo.

Comunidade surpreendida

Na freguesia de Requião, concelho de Vila Nova de Famalicão, a entrada da Polícia Judiciária no convento e as suspeitas sobre o padre e as três freiras colheram de "surpresa" a comunidade. O presidente da junta de freguesia, João Pereira, garante que "ninguém contava com um caso destes a envolver as freiras amáveis do convento e o padre Milheiros". As únicas notícias que o autarca recorda a envolver a instituição diziam respeito à "cruz do milénio ou Cruz do Amor, que foi propagada por estas freiras". De resto, o convento de Requião também era comentado por causa das regras severas de entrada. "Falava-se de não poderem entrar as mulheres de calças nem os homens de barba ou cabelo comprido, o que para mim nunca foi problema, pois sou careca", gracejou Jorge Pereira. Como presidente da junta, entrou "duas ou três vezes no interior do convento". Até pediu para "visitar os magníficos jardins" e pôde ver as "réplicas da Capelinha das Aparições e de outros monumentos religiosos".

O convento foi fundado pelo padre Milheiros há 25 anos. Uma das missões das religiosas e do padre era "visitar os presos", segundo conta o presidente da junta de freguesia de Requião. As três freiras idosas e o padre Milheiros são fundadores de um convento que já foi notícia na imprensa na última década pelos alegados costumes excêntricos do sacerdote que, alegadamente, mandava para o inferno quem não obedecesse às suas ordens. "Chegaram a vir milhares de crentes da zona centro do país ao convento, quando lá aparecia a vidente de origem jugoslava que era convidada por eles", conta o autarca, recordando que uma das últimas enchentes foi em 2011.

As tardes de domingo no convento são abertas ao público em geral e as freiras são conhecidas pela sua "amabilidade" no trato com as pessoas. A Fraternidade Cristo Jovem, a que pertencem, é uma comunidade católica com valores ultraconservadores, crítica dos tempos modernos.

O DN tentou ao longo do dia contactar o arcebispo de Braga mas D. Jorge Ortiga nunca esteve disponível.

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