Nuno Palma (Paris, 1983), é licenciado pela Universidade de Lisboa e doutorado pela London School of Economics. É professor catedrático no Departamento de Economia da Universidade de Manchester, diretor do Arthur Lewis Lab for Comparative Development, da mesma universidade e colaborador do Nobel da Economia James A. Robinson. Recebeu vários prémios internacionais, incluindo o Prémio Stiglitz, da International Economic Association. No dia 10 de setembro vai fazer uma apresentação do seu livro no ISEG (no auditório CGD, na Rua do Quelhas) com a participação do professor João Tovar Jalles. Na forja tem um novo livro, sobre o papel dos fundos europeus na economia portuguesa, que considera ser profundamente negativo. No seu livro, que já vai na 8.ª edição, faz um retrato muito crítico do período em que Portugal foi governado pelo marquês de Pombal, nomeadamente pelo facto de ter encerrado as escolas dos jesuítas e não ter tido o cuidado de criar uma alternativa válida. Sebastião José de Carvalho e Melo não é merecedor da estátua que ocupa um lugar de destaque no centro da capital? Pombal é o maior vilão da nossa História. Como explico no meu livro As Causas do Atraso Português, é o político mais diretamente responsável pelo atraso do país desde o século XVIII. É largamente da sua responsabilidade termos passado a ser o país mais atrasado da Europa Ocidental, situação que se mantém nos nossos dias. As decisões que Pombal tomou a nível educativo ainda nos assombram hoje. É importante perceber por que foi possível ele fazer o que fez no contexto do seu tempo, e as suas motivações. Mas não é menos importante compreender que a figura de Pombal não representa só a sua época, mas também o que forças políticas subsequentes dele fizeram através de esforços de propaganda com motivações políticas. O dinheiro para a estátua começou a ser recolhido em círculos maçónicos no século XIX, e ela começou a ser construída durante a Primeira República — um regime dominado pela maçonaria — ainda que tenha sido inaugurada já depois de 1926. Só um país que não refletiu o suficiente sobre o seu passado e as causas do seu atraso pode aceitar aquela estátua. Muitas pessoas aprenderam propaganda na escola e há resistência a atualizarem-se. Mas como é evidente, a maçonaria também tem outra vez hoje muito poder, inclusivamente o Grande Oriente Lusitano (GOL). Numa democracia, apenas podem servir para negociatas, escondendo conflitos de interesse. Não é do interesse dessas forças que a propaganda acabe. Acha que o estilo de governação de Pombal — um despotismo iluminado, em que o Estado assume um papel dirigista na economia, criando grandes companhias monopolistas, etc. — é o que faz com que seja admirado por alguns ainda hoje?É possível, mas como explico no livro considero que as nossas modernas tendências estatistas têm principalmente outras origens, posteriores. No entanto, não deixa de ser verdade que a baixa literacia financeira dos nossos dias, que tem consequências políticas e eleitorais, também seja largamente uma consequência de ainda não termos recuperado totalmente da péssima trajetória de desenvolvimento em que nos colocou Pombal.O que acha que explica esse apoio a Pombal que diz existir por parte da maçonaria, ainda hoje? É o facto de ele ter sido maçon ou as ideias dele, nomeadamente no seu projeto para o país, ainda tem apoio?Não há provas concretas de que Pombal tenha sido maçon, ainda que existam vários dados sugestivos que apontam isso ser provável. O que é certo é que a maçonaria mais tarde fez dele um herói. O GOL propriamente dito só foi fundado na primeira década do século XIX. Ganhou depois muita força, culminando no período da Primeira República. Em finais do Estado Novo já eram poucos, mas recuperam o palácio maçónico ainda em 74. Depois meteram as mãos à obra. Os programas escolares ainda hoje são baseados no que pessoas como A. H. Oliveira Marques escreveram. Ora, esse historiador pertencia ao GOL. Dificilmente tinha uma visão isenta sobre a história da Primeira República, por exemplo. (Como também não acontece no caso dos trabalhos da extrema-esquerda, como por exemplo os de Fernando Rosas, que também influenciam os programas.) Mas estes conflitos de interesses, óbvios, têm sido ignorados pelos Ministérios da Educação. E não só, também afetam a discussão no espaço público. Por exemplo, há um programa de má qualidade de “divulgação” sobre História, do Expresso, que é apresentado por Henrique Monteiro: ex-diretor desse jornal, e ele próprio outro membro do GOL. A propaganda não pára, e poucos se atrevem a enfrentar essas organizações influentes e infiltradas nos círculos do poder. Não sabemos quem são a maior parte dos que pertencem a obediências maçónicas, as entidades que agrupam as lojas maçónicas..“No final do século XVII, Portugal chegou a exportar têxteis para Castela. Infelizmente, a descoberta de ouro no Brasil, em quantidades que se viriam a revelar prodigiosas, afastou o país dessa trajetória de industrialização.”.A maçonaria, sendo uma ordem “discreta”, faz sentido no mundo atual?A maçonaria serve para beneficiar os seus membros à custa da sociedade como um todo. Promove a promiscuidade entre o poder político, o económico, e o judicial. A academia também fica mais mansa e incompetente. As lojas maçónicas, e as respetivas obediências a que pertençam (como o GOL ou a GLLP) servem para fazer negociatas, escondendo conflitos de interesse. Nada acontece por acaso e não são coincidências os rituais e promessas que fazem de ajuda entre “irmãos”, ou a questão do aperto de mão secreto para identificar membros e comunicar níveis dentro da organização. Alguns maçons até podem dizer em público que pertencem a uma loja, mas muitos não o fazem, e não é por acaso. Tiram partido de serem “discretos”. No contexto de uma ditadura podemos compreender o secretismo da maçonaria. Numa democracia, para que serve o secretismo? Não é para defender quaisquer ideias, mas só e apenas para negociatas e trocas de favores, escondendo conflitos de interesse.No seu livro é particularmente crítico da decisão de Pombal de encerrar as escolas dos jesuítas, sem preparar uma alternativa. Até que ponto essa decisão foi decisiva para o nosso atraso, sobretudo no século XIX?Foi uma das decisões políticas mais desastrosas da História de Portugal. Os jesuítas tinham escolas gratuitas em todo o país. Henrique Leitão e Francisco Malta Romeiras têm feito trabalhos muito interessantes a documentar o que existia. Pombal sacrificou o futuro do país para defender os seus interesses financeiros e políticos. Acabou com a rede escolar pré-universitária, e com a Universidade de Évora, sem as substituir por praticamente nada. Hoje temos dados que mostram que nas primeiras décadas do século XVIII, Portugal ainda não estava atrasado em literacia ou numeracia relativamente aos níveis médios da Europa Ocidental da época. Em finais desse século, já tínhamos passado a ser os últimos: situação relativa que, de resto, se manteve até aos nossos dias. Isso criou um contexto, no século XIX, muito adverso à industrialização do país.O seu livro refere também que no final do século XVII Portugal estava no caminho da industrialização. O que fez com que no século seguinte isso fosse interrompido?Como mostro no meu livro, que é um esforço de síntese e divulgação baseado na investigação científica, depois da Restauração (1640), existiram importantes alterações institucionais e industriais em Portugal que meteram o país numa trajetória de desenvolvimento interessante. Por exemplo, Portugal chegou a exportar têxteis para Castela. Infelizmente, no final desse século, a descoberta de ouro no Brasil, em quantidades que se viriam a revelar prodigiosas, afastou o país dessa trajetória, devido aos efeitos económicos e políticos que disso resultaram, como detalho no livro e no trabalho científico lá citado e que lhe serve de base. A nível político, por exemplo, os recursos adicionais da Coroa implicaram que deixou de precisar de negociar e, por isso, em todo o século XVIII as Cortes não se reuniram uma única vez, em forte contraste com o que tinha acontecido na segunda metade do século anterior, quando tinham tido um papel importante. Por outras palavras, o ouro do Brasil permitiu que o governo da altura se financiasse com mais facilidade e deixou de ter os tradicionais limites à sua atuação?Exato, foi isso mesmo. Já tinha acontecido um processo histórico parecido em Espanha, nos séculos anteriores. Ao longo do século XVI e primeira metade do XVII, as Cortes de Castela passaram a reunir cada vez menos e a ter cada vez menos poder efetivo, até que se tornaram apenas cerimoniais. Tudo isto devido à prata que vinha do Império Espanhol nas Américas, principalmente de Potosí, no Peru (atualmente, parte da Bolívia), e do México. Esses El Dorados estiveram na origem do verdadeiro absolutismo, que não vinha do período medieval, tal como viria a acontecer no século XVIII em Portugal.Então podemos estabelecer uma relação de causa-efeito entre o despotismo, primeiro com D. João V e depois com a dupla D. José e Marquês de Pombal, e o declínio da economia portuguesa no século XVIII?Exato. Está muito bem documentado que a qualidade das instituições políticas é determinante para o desenvolvimento económico. O trabalho científico que tem mostrado essa relação já deu origem a vários Prémios Nobel da Economia, como Douglass North em 1993 ou Daron Acemoğlu, Simon Johnson, e James A. Robinson em 2024.Ou seja, países onde existe um Estado de Direito e onde o poder dos governantes tem checks and balances que os limitam, geram mais crescimento económico no longo prazo?Sim. Há muito trabalho científico de boa qualidade que aponta nesse sentido.Voltando ao tema da maldição do ouro do Brasil, Portugal nas últimas décadas recebeu muitos milhões em fundos europeus. Acredita que se pode colocar a mesma situação?A História nunca se repete de forma exata, e é evidente que o contexto económico e institucional de Portugal hoje é muito diferente do século XVIII. No entanto, existem paralelos. Os mecanismos fundamentais da maldição dos recursos estão presentes sempre que um país com instituições frágeis recebe “dinheiro fácil”. Tal como o ouro não desenvolveu Portugal no século XVIII, pelo contrário, os fundos europeus estão hoje a fazer-nos mal, distorcendo a economia e o processo político.Portugal estava melhor sem os fundos?Sem dúvida. Seria hoje um país mais rico, com melhores instituições e políticas públicas. Isto pode parecer contraintuitivo, porque à primeira vista parece lógico que mais dinheiro, usado por exemplo para construir infraestruturas públicas ou ajudar as empresas, só pode fazer bem ao país. Vários estudos científicos mostram, no entanto, que isso é uma falácia, especialmente para além do curto prazo. Há muita sabedoria no provérbio popular “dinheiro suado é dinheiro abençoado”.. Outro tema que o seu livro aborda é o papel que a religião católica terá tido, ou não, no nosso atraso. Incluindo o papel da Inquisição. E diverge da opinião que tem sido dominante desde as Conferências do Casino e a Geração de 70. O catolicismo, per si, não foi causador desse atraso de Portugal face a outros países?No livro As Causas do Atraso Português dedico um capítulo inteiro a explicar, através de dados históricos e estudos que simplesmente não estavam disponíveis para a Geração de 70 no século XIX, que o catolicismo não foi a causa do atraso. É preciso não confundir o catolicismo em termos culturais com a instrumentalização política da religião: por exemplo, Pombal meteu um irmão à frente da Inquisição. E o segundo país do mundo a ter uma Revolução Industrial, entrando num processo de crescimento económico moderno e, logo, tornando-se um país “rico”, foi a Bélgica — um país católico. Não foi a religião, nem qualquer fator cultural, a causa do nosso atraso histórico no período anterior ao século XX.Uma discussão recorrente por estes dias incide sobre o papel que Portugal desempenhou no tráfico de escravos e na eventual necessidade de pagar reparações. Concorda com essas reparações?Sou contrário a quaisquer reparações. Isso seria um caminho sem qualquer lógica e que não teria qualquer forma de ser aplicado de forma racional. Aliás, note-se que não foram os europeus que inventaram a escravatura em África, de todo, mas a seu tempo foram esses que acabaram com ela. Parece difícil de imaginar que teria acabado na ausência de contacto com os europeus. Os líderes políticos africanos que dela beneficiavam teriam continuado com essas práticas, genericamente consideradas normais na época, ainda que sinistras para a nossa mentalidade atual. E também não tem cabimento a ideia de que foi a escravatura que tornou os países Ocidentais ricos. Se o tráfico de escravos e a escravatura desenvolvesse países, Portugal e o Brasil seriam os países mais ricos do mundo, já que foram os países para os quais essas atividades tiveram o maior peso entre o século XVI e a abolição ao longo do XIX.Há quem defenda que a escravatura permitiu a acumulação de algum capital que depois foi utilizado na industrialização de países como o Reino Unido. E as indemnizações pagas aos proprietários aquando da abolição, também…Isso são ideias de inspiração marxista, sem sentido, de quem não sabe fazer contas, e muito menos uma análise histórica comparada. Como disse anteriormente, se isso fosse verdade, teria sido Portugal que se teria industrializado primeiro. É preciso não confundir o tráfico de escravos e a escravatura terem tornado alguns mercadores ricos, o que aconteceu tanto em Inglaterra como em Portugal, com ter tornado países ricos, o não que aconteceu em lado nenhum. A escravatura nunca foi uma base para o desenvolvimento, pelo contrário. No caso de Portugal e Brasil, foi mesmo um entrave ao desenvolvimento e distribuição da riqueza. E a Inglaterra desenvolveu-se essencialmente por ter tido instituições políticas avançadas para a época, caminho do qual Portugal se afastou no século XVIII.O seu livro é também muito crítico da Primeira República, considerando-a um regime pouco democrático. Era menos democrático que a Monarquia Constitucional?A Primeira República era, efetivamente, um regime com algumas características democráticas, mas limitadas. O regime foi dominado por um partido, o PRP, que governou a maior parte do tempo, e que não hesitou em fazer aldrabices eleitorais recorrentes para que assim fosse. Como tudo o resto que afirmo no meu livro, não se trata de uma opinião; mostro os factos e dados que demonstram que assim foi. A Primeira República era também menos democrática que a monarquia constitucional na sua fase final: isso vê-se, por exemplo, através do universo eleitoral, que era mais restrito. O direito de sufrágio em 1878 atingiu mesmo 72% dos homens maiores de 21 anos, sendo essa uma das maiores proporções da Europa, e podiam votar os analfabetos, ao contrário do que aconteceria na Primeira República..“Seria possível argumentar que a intervenção da 'troika' até deixou a economia mais extrativa: não pelo que fez, mas pelo que não fez. Logo, os rentistas ficaram mais agressivos, até porque sabem que um dia os recursos e inação da UE podem acabar.”. No livro, critica o Estado Novo pelo facto de não ser democrático, por perseguir os opositores e limitar as liberdades cívicas. Mas defende que teve um papel positivo na alfabetização do país — quase erradicando o analfabetismo —, e na industrialização, que abriu caminho ao milagre económico dos anos 60 e 70. Disse há pouco que Pombal foi o maior vilão da nossa História. E Salazar?É algo folclórico referirmo-nos a individualidades históricas como se personagens de ficção se tratassem. Referi-me a Pombal como vilão numa perspetiva pedagógica — e porque é, de facto, um caso claro de alguém que foi sem sombra de dúvida um desastre para o país. Esse caso, também notável devido ao sucesso da propaganda, iniciada pelo próprio, mas tendo tido continuidade nos séculos seguintes, em convencer grande parte do país de que ele tinha sido um grande estadista, o que não podia estar mais longe da verdade. Fizeram-no cobardemente e mais por ideologia do que ignorância, doutrinando gerações através dos programas escolares que ainda hoje, infelizmente, são ensinados, em contradição com o conhecimento histórico e científico que hoje temos. A propaganda também insiste que Salazar atrasou muito o país. Mas essa não é verdade histórica, independentemente de outras críticas que lhe podemos — e devemos — fazer, mesmo tendo em conta o contexto histórico e o facto de em termos comparados não ter sido um ditador muito violento). Como é evidente, Salazar não fez sempre as melhores escolhas. Por exemplo, o sucesso do Estado Novo em acabar com o analfabetismo não encontrou correspondente a nível do Ensino Secundário e Superior, ainda que também estes estivessem já em expansão nos últimos anos do regime, por contraste com o excesso de investimento na preservação das colónias, objetivo visto como central para o regime (como tinha de resto sido para a Primeira República, que enviou para a morte muitos portugueses na 1ª Guerra Mundial.). E tudo isso, apesar de não terem um peso económico muito significativo para o país.Seja como for, é inegável que Salazar esteve à frente do país no período que correspondeu à quebra das barreiras estruturais que impediam o nosso desenvolvimento há séculos. E isso não aconteceu por acaso: o milagre económico que aconteceu a partir de meados do século XX foi o resultado das ações concretas do regime, que se confunde com Salazar, a sua indisputável figura central. Em suma, se não devemos ver Salazar como o Salvador da Pátria, como a própria propaganda do Estado Novo tentava fazer crer, também não o podemos ver como a caricatura que no último meio século tem sido feita dele, transformando-o num bode expiatório do atraso do país. Isso é falso.Em sua opinião, as mudanças que ocorreram na última década, com a intervenção da troika, o colapso do Grupo Espírito Santo e a entrada de investidores estrangeiros em setores como a energia, a banca e as telecomunicações, foram positivas para a economia portuguesa? Temos hoje uma economia menos “extrativista” do que há 10 ou 15 anos?Seria possível argumentar que a intervenção da troika até deixou a economia mais extrativa: não pelo que fez, mas pelo que não fez. Logo, os rentistas ficaram mais agressivos até porque sabem que um dia os recursos e inação da UE podem acabar. O colapso de Salgado mostrou que o GES não era o único rentista, e é provável que investidores estrangeiros invistam em Portugal mesmo por isso — principalmente os institucionais da China e Angola, onde estão habituados a gerir a proximidade ao poder político num contexto de economia rentista. Nota-se um crescimento de setores como a advocacia de negócios, as agências de comunicação, e a “indústria dos comentadores”, assim como expansão de negócios imobiliários: setores não-transacionáveis a crescer claramente acima do magro crescimento do PIB. Tudo isto é consistente com um modelo rentista.Como vê o futuro de Portugal? Temos futuro como nação independente?Portugal tem quase 900 anos, não me parece que a existência do país esteja em risco. Uma questão diferente é se o futuro será brilhante. Sobre isso sou mais pessimista.