Sétima assembleia popular da Acampada de Lisboa trocou Rossio pelo Bairro do Condado
Foto: Leonardo Negrão

Sétima assembleia popular da Acampada de Lisboa trocou Rossio pelo Bairro do Condado

Manifestantes concentraram-se esta sexta-feira, 23 de outubro, à noite, no Bairro do Condado, para uma vigília contra o despejo de uma jovem mãe com dois filhos melhores.
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A sétima assembleia popular da Acampada de Lisboa pela habitação concentrou-se esta sexta-feira 23 de outubro, à noite no Bairro do Condado, para uma vigília contra o despejo de uma jovem mãe com dois filhos melhores, terminando a reunir num campo desportivo.

Sentados sobre as linhas de mais de metade do campo, reunindo cerca de uma centena de pessoas, a assembleia popular começou um pouco antes das 20h00 e terminou cerca das 22h20, sendo que depois dessa hora houve lugar à atuação musical do rapper Rato Chinês, um artista do bairro de Chelas, que animou os manifestantes que resistiram ao passar das horas, mesmo com frio, e que se mantiveram no local até um pouco depois das 23h00.

A partir dessa hora, quando as vozes de protesto foram substituídas pelo som de toques de bola até pelo menos à meia-noite, segundo constatou a agência Lusa no local, os elementos policiais começaram a desmobilizar, sem que tenham tido necessidade de intervir, uma vez que tanto a vigília como a assembleia popular e a atuação musical ocorreram de forma pacífica.

À frente da baliza, os porta-vozes da Acampada de Lisboa foram chamando as dezenas de pessoas que se inscreveram para falar no microfone aberto, tendo a primeira intervenção sido da irmã mais velha do falecido ator Bruno Candé, assassinado em 2020 em Moscavide, vítima de crime de ódio racial.

"Bem-vindos à Zona J", afirmou, referindo que este bairro de Lisboa sofre com os despejos, bem como a degradação da habitação municipal e a falta de elevadores, apelando a que os manifestantes "continuem pacificamente esta luta" pelo direito à habitação.

Seguiu-se a intervenção do professor Rogério Amado, do ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa, que destacou o trabalho dos grupos comunitários que se reúnem para discutir os problemas das pessoas, inclusive idosos que ficam reféns porque não se reparam elevadores da habitação municipal.

Referindo que existem 19 grupos comunitários na cidade de Lisboa e seis na freguesia de Marvila, o professor propôs que fazer assembleias populares percorrendo os bairros onde há grupos comunitários, para ganhar força e escala, e "para que a luta tenha algumas vitórias".

Também o advogado António Garcia Pereira participou nesta assembleia popular, ressalvando que a sua presença é sobretudo como cidadão e munícipe de Lisboa, afirmando que tem "vergonha" do Governo em matéria de habitação, lamentando ainda que os jovens tenham sido "atacados miseravelmente" pelo presidente do Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana (IHRU).

"As nossas cidades foram transformadas no palco da especulação", disse o advogado, referindo que esta já serviu para mostrar que o Governo tem "medo" de quem se está a manifestar, porque "os jovens em luta são absolutamente invencíveis".

Reforçando que o direito de reunião e de manifestação em Portugal é um direito fundamental consagrado na Constituição, António Garcia Pereira criticou a tentativa de condicionar a realização das acampadas, indicando que "não é precisa sequer autorização" e apelando aos manifestantes que mantenham a serenidade, firmeza e cuidado com elementos infiltrados. "Continuem a lutar, porque a vitória é vossa seguramente", conclui, tendo o auditório improvisado aplaudido fortemente.

"Oh Montenegro, presta atenção, as suas casas vão virar ocupação", gritaram os manifestantes.

Apresentando como morador da Zona J, Márcio começou por dizer "bem-vindos ao melhor bairro do mundo" e contou que conhece a família despejada da habitação municipal, a escassos metros de onde se reuniram em assembleia popular, considerando que "é desumano" e manifestando "uma revolta enorme".

Dirigindo-se aos agentes da polícia, que se mantiveram atentos atrás da vedação do campo desportivo, Márcio registou que "agora estão calminhos, mas há semanas estiveram aqui a fazer uma rusga que parecia o Rio de Janeiro".

Entre as intervenções, houve também quem afirma-se que "infelizmente há polícias que não sabem honrar a farda que têm". "Começamos com os cravos [para a Revolução de Abril de 1974] e agora estamos com a conchinha, e isso é lindo", ouviu-se por parte de uma das porta-vozes da Acampada de Lisboa, referindo que a "aconchada" passou a ser um símbolo desta luta, com o calor humano de quem nas últimas ações teve de dormir ao relento na Praça do Rossio perante a impossibilidade de montar as tendas.

Por unanimidade, a assembleia popular aprovou voltar a acampar no sábado no Rossio, após a manifestação agendada para as 15h00 a partir do Marquês de Pombal.

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Lisboa. Acampada decide voltar a acampar no Rossio este sábado

Entre manifestações e as denominadas acampadas, com centenas ou milhares de manifestantes, os atuais protestos contra a crise na habitação tiveram início no Porto a 10 de outubro e expandiram-se a Lisboa, mas já motivaram também concentrações noutras cidades, dias depois da aprovação parlamentar da nova lei do arrendamento, agora em discussão na especialidade.

As iniciativas, promovidas por movimentos cívicos e difundidas pelas redes sociais, reivindicam medidas que respondam à crise no setor, o controlo dos preços dos bens essenciais e dos combustíveis e defendem impostos sobre os lucros extraordinários das grandes empresas do setor bancário.

A 15 de outubro, o movimento que protestava no Porto, com uma acampada, denunciou uma carga policial violenta durante a madrugada que causou ferimentos em 39 dos participantes, dois dos quais ficaram em estado grave, e num polícia. Em Lisboa, as autoridades removeram dezenas de tendas do Rossio ao início da manhã de terça-feira e detiveram 55 manifestantes, que serão presentes a juiz dia 27.

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