As garrafas de água na mão foram essenciais para quem quis visitar a cidade nos últimos dias
As garrafas de água na mão foram essenciais para quem quis visitar a cidade nos últimos diasFoto: Leonardo Negrão

Sombra e água. Guias turísticos fintam onda de calor e sol para mostrar Lisboa a quem a visita

De toldos, árvores e monumentos, tudo serve para ir protegendo do sol. O Diário de Notícias acompanhou uma visita guiada pela baixa lisboeta para perceber como os guias se adaptaram à onda de calor.
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Em plena onda de calor, o dia já acordou quente em Lisboa. Na praça Luís de Camões, perto da estátua, as altas temperaturas previstas não impediram os turistas de se juntarem para fazerem uma de muitas visitas guiadas pela capital portuguesa.

Cláudio da Costa, guia turístico, foi um dos guias que se preparava para mostrar a baixa da cidade a um grupo de alemães vindos da cidade de Duisburg e que rapidamente guiou-os para a paragem do elétrico 12E. A brisa matinal que ainda se fazia sentir não impediu o grupo de se preparar para o dia, usando já chapéus na cabeça e levando garrafas de água e leques para fazer correr algum ar.

De forma fluente ema, vai contando a história de várias zonas da cidade, enquanto o 12E desce do Largo do Camões e volta a subir para o Miradouro de Santa Luzia, passando junto da Sé de Lisboa. À chegada ao miradouro, o profissional apressa-se a chamar todos os turistas pelo nome. Rapidamente a instrução é clara: “todos para debaixo da sombra” da florida buganvília.

À sombra da buganvília do miradouro de Santa Luzia, Cláudio mostra a vista para o rio Tejo
À sombra da buganvília do miradouro de Santa Luzia, Cláudio mostra a vista para o rio TejoFoto: Leonardo Negrão

Com vista para o Tejo, o guia conta a história antiga de Lisboa, sobre a influência de fenícios, gregos e árabes que contribuíram para evolução do nome da cidade – de Olisipo a Al-Ushbuna – assim como a presença dos azulejos, apontando para os azuis e brancos à beira do miradouro.

Porém, apesar de continuar a explicar a história do azulejo em alemão, as passagens entre zonas diretamente ao sol são o mais curtas possíveis. “Sou tipo um vampiro”, brinca Cláudio da Costa, que vai tirando o chapéu para apontar locais ou mesmo para usar como leque. Nas ruas, o rebuliço habitual não parece ter acalmado com o sol a aquecer. Os tuktuks continuam a passar na estrada e os músicos continuam a montar o seu espaço e a começar a tocar.

Porém, o calor começou a apertar e a sombra começou a ser cada vez mais procurada, mesmo que seja de quiosques ou até da estátua de São Vicente, no Miradouro das Portas do Sol. A descer por Alfama, também os turistas correm para descer pela sombra dos prédios, a maioria de alojamento local, e das decorações de Santo António que ainda restam das celebrações do mês passado.

Ao Diário de Notícias, o profissional explica que este é o primeiro passeio a pé com um dia assim tão quente este ano e que foi obrigado a adaptar o percurso para aguentar o calor intenso, incluindo uma pausa para comprar água que não estava prevista e sentar um bocadinho. “Tem de ser”, acrescenta, numa altura em que a temperatura já batia os 32 graus pela manhã.

Cláudio e o grupo aproveitaram paragens para descansar e beber água
Cláudio e o grupo aproveitaram paragens para descansar e beber águaFoto: Leonardo Negrão

A sua fluência em alemão vem das suas origens, tendo nascido na cidade alemã de Dusseldorf. “Nasci de pais imigrantes e vim para Portugal estudar no secundário, para Coimbra”, detalha. Depois do curso de Direito, acabou por desistir de ser diplomata, assumindo a profissão de guia turístico há três anos em Lisboa. “Sou alfacinha por escolha”, brinca.

Aquele dia era o primeiro do ano em que o calor se tinha tornado inevitável para lidar, referiu. Ainda assim, o guia explicou que “o principal” para lidar com as temperaturas “é a comunicação”, como ir perguntando aos turistas como é que estão e se precisam de água, uma gestão que também depende de outros fatores como o tamanho dos grupos e a idade dos clientes.

Mafalda Pinto, da empresa de visitas guiadas Lisboa Authentica, contou ao DN que se notava que a capital estava "mais calminha" nesta altura do que no ano passado. Porém, confessou que não sabia se era devido à onda de calor ou devido ao futebol, referenciando o Mundial.

Para tentar mitigar o calor, Mafalda contou que os guias passaram a adiantar ou a atrasar a hora dos passeios para tentar não ir nas horas de pico, mudando para as 17:00 o tour normalmente marcado para 15h00. Também neste caso, o passeio que o DN acompanhou foi adiantado das 11h00 para as 10h00, por exemplo.

Grupo de alemães enfrentou as altas temperaturas da onda de calor para ver a cidade
Grupo de alemães enfrentou as altas temperaturas da onda de calor para ver a cidadeFoto: Leonardo Negrão

Os turistas já tinham ideia do que iam enfrentar. “Acabámos de ter na semana passada, 40 graus na Alemanha”, conta Dirk, que faz parte do grupo que chegou a Lisboa numa viagem de empresa de engenharia. “Acabou o calor lá e viemos para cá para Lisboa”, complementou, aos risos.

À porta da Sé, os condutores de tuk tuk tentavam abordar turistas que por ali passavam, usando o calor e a sombra oferecida pelo veículo como forma de tentar puxar clientes para um passeio. Vários do que ali passavam, iam aproveitando o fresco da pedra da igreja do século XII para se sentar nos degraus, ou encostados à própria fachada.

Toldo dos tuktuks foi chamativo para muitos turistas que passeavam pela cidade
Toldo dos tuktuks foi chamativo para muitos turistas que passeavam pela cidadeFoto: Leonardo Negrão

Antes de chegar à próxima paragem, a Praça do Comércio, mais uma pausa, desta vez numa pastelaria para um café, um pastel de nata e um bocado de ar condicionado. Sentados à mesa, os turistas Udo e Gregor contam ao DN que não é a primeira vez dos dois colegas de trabalho em Lisboa, cidade que o grupo escolheu muito antes de saber que ia haver uma onda de calor nesta altura.

Segundo ambos, a ideia desta viagem surgiu em janeiro e a capital portuguesa nem sequer era a primeira. “Pensámos primeiro em Barcelona mas achámos que ia estar muito calor”, admite Udo. “Esteve este calor na Alemanha mas havia mais humidade”, detalha Gregor, sublinhando que aqui aguenta-se melhor por ser mais um bocado mais seco.

Comidos os pastéis, o grupo segue mais fresco para o Terreiro do Paço. Porém, numa altura em que o relógio já chegava ao meio dia, o calor tornava-se sufocante e a praça lisboeta, exposta quase toda ao sol, levou a que a passagem fosse mais curta.

Debaixo do arco da rua Augusta, os passeios aglomeram-se à sombra novamente. Para além do grupo de alemães, dois grupos de visitas guiadas em espanhol pararam naquela zona e, junto ao bebedouro ali montado, a fila prolongava-se por alguns metros. A ampla avenida está cheia mas há muito mais gente nas laterais para aproveitar a pouca sombra dos prédios à hora de almoço.

Rua Augusta continuou a ser procurada apesar do pico do calor
Rua Augusta continuou a ser procurada apesar do pico do calorFoto: Leonardo Negrão

“Todos nós estávamos a concordar que as pausas para hidratação foram fundamentais, um game changer”, sublinha Cláudio da Costa enquanto caminhávamos, sublinhando que estas paragens foram espontâneas. Normalmente, o guia leva os turistas que fazem esta viagem para a praça do Rossio, onde termina as visitas. Mas o cansaço acumulado e as "caras de sofrimento" mudou os planos do guia. “Encurtei um bocadinho a visita”, confessa, explicando que já estava demasiado calor.

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