Os números não mentem e mostram um país que trabalha — mas que não consegue viver do seu trabalho. O custo de vida voltou a acelerar: o cabaz alimentar atingiu um novo máximo histórico, os combustíveis já subiram quase 30% — o gasóleo já lá chegou e gasolina vai a caminho — desde o início do choque petrolífero, e a inflação ameaça regressar em força. Para muitas famílias portuguesas, sobretudo aquelas com salários fixos e contratos estáveis, o problema deixou de ser “fazer poupanças” e passou a ser conseguir chegar ao fim do mês.Isso mesmo confirmou a Associação de Defesa do Consumidor ao Diário de Notícias. Segundo a Deco, o crédito deixou de ser um recurso para investimentos pontuais e tornou-se, cada vez mais, um mecanismo de sobrevivência para milhares de famílias. E a situação já era má, em 2025, os dados mais recentes compilados: o Gabinete de Proteção Financeira da Deco recebera cerca de 30 mil pedidos de ajuda, disse a coordenadora Natália Nunes. Um número que revela uma mudança estrutural no país: o aparecimento dos “trabalhadores pobres”, pessoas com emprego e salário fixos e que, ainda assim, recorrem ao endividamento para pagar bens essenciais como alimentação, energia ou transportes.Este cenário é o resultado de choques sucessivos, desde a pandemia à inflação persistente. E 2025/26 trouxe novos vetores de instabilidade que pressionaram ainda mais os orçamentos já depauperados: fenómenos climáticos extremos que causaram danos diretos em propriedades e infraestruturas — como o comboio de tempestades de fevereiro passado que assolou o país —, e tensões geopolíticas internacionais, com destaque para o conflito no Médio Oriente, que mantém os preços da energia e dos bens alimentares numa escalada sufocante..Um dos dados mais inquietantes resultantes da análise Deco é a consolidação do perfil do “trabalhador pobre” em Portugal: ter um contrato de trabalho estável e um salário fixo já não constitui uma garantia de equilíbrio ou segurança financeira..“O problema já não está apenas associado ao desemprego, mas sim a uma desadequação entre rendimentos e custo de vida”, disse a responsável, sublinhando que muitas famílias vivem hoje com margens financeiras inexistentes - é o fim das almofadas.E o pior é que as famílias que procuram o apoio da Deco apresentam, em média, cinco responsabilidades de crédito (incluindo a habitação), já num equilíbrio precário, alerta Natália Nunes. Sendo que o cartão de crédito é frequentemente utilizado para colmatar falhas no rendimento mensal.Cabaz de compras em níveis históricosNa passada quinta-feira, 2 de abril, ficou a saber-se, segundo dados divulgados pela Deco Proteste — e publicados pelo DN/Dinheiro Vivo —, que o cabaz alimentar essencial voltou a atingir um novo máximo histórico. O conjunto de 63 produtos essenciais custa agora 254,99 euros — mais 35,85% do que em 2022 — e só na última semana itens como o carapau, o tomate chucha ou a couve-flor dispararam entre 17% e 29%.Com preços básicos a atingirem novos máximos, o orçamento mensal de muitas famílias já não acompanha o ritmo da despesa. É neste desfasamento crescente que o recurso ao crédito ganha um novo peso: não como escolha, mas como válvula de escape para gerir o mês.A mudança na função do crédito é talvez o sinal mais alarmante do último ano. O que antes era uma ferramenta para adquirir um automóvel ou fazer uma obra em casa, passou a ser o motor que mantém a luz acesa e o frigorífico cheio. Quando o crédito é usado para despesas correntes, a vulnerabilidade torna-se estrutural, avisa Natália Nunes.Crédito ao consumo volta a ganhar pesoE os dados mais recentes do Banco de Portugal (BdP) mostram que esta pressão já se reflete nos números: o endividamento das famílias não está a disparar, mas o crédito ao consumo voltou a crescer e o regulador alerta para sinais de fragilidade crescente, sobretudo entre os agregados com rendimentos mais baixos.Em 2025, demonstra o BdP no seu site, o sistema financeiro voltou a mexer-se a um ritmo impressionante: foram assinados 2,2 milhões de contratos de crédito, envolvendo 1,7 milhões de pessoas e um montante global de 35 mil milhões de euros. Dentro deste universo, o crédito pessoal manteve um peso expressivo — cerca de 17% do total, perto de seis mil milhões de euros — e chegou a 612 mil pessoas, metade das quais recorreu a valores iguais ou inferiores a quatro mil euros. Mas, entre estes contratos, 9% foram atribuídos a cidadãos estrangeiros — cerca de 55 mil pessoas —detalhe que reduz ligeiramente o peso real do crédito pessoal efetivamente contraído pelas famílias portuguesas.Para a responsável do Gabinete de Proteção Financeira da Deco não restam dúvidas: este recurso sistemático a soluções mais onerosas — quer a créditos pessoais, quer ao cartão de créditos — está a criar uma “espiral de dívida” difícil de quebrar.Ainda há duas semanas, a propósito do Dia Mundial do Consumidor, o DN/Dinheiro Vivo publicava dados do European Consumer Payment Report (ECPR) 2025, coligidos pela Intrum — empresa líder na Europa em serviços de gestão de crédito e recuperação de dívidas, a operar em 20 países, incluindo Portugal —, que davam conta de que quase metade (46%) dos portugueses admitiam ter utilizado o cartão de crédito nos últimos seis meses para pagar contas correntes ou despesas básicas. Um recurso ao crédito que não era feito por opção, antes funcionando como extensão do salário para garantir a sobrevivência diária.Este contexto empurra as famílias para um cenário de sobrevivência, em que o crédito assume uma função perversa: passa a ser a ferramenta habitual para pagar o cabaz essencial no supermercado ou liquidar a fatura da luz e do gás no multibanco. Neste caso, a fragilidade financeira deixa de ser conjuntural, para se tornar crónica.Carga pesada: cinco créditos por famíliaA análise técnica detalhada pela Deco ao DN expõe uma realidade numérica esmagadora e repetitiva. Em média, cada família que chega à associação para pedir auxílio gere em simultâneo cinco contratos de crédito. Este cocktail financeiro é tipicamente composto por um crédito à habitação, dois créditos pessoais e dois cartões de crédito.O peso crescente do crédito ao consumo e dos cartões é o que mais alarma os especialistas, uma vez que estas são as formas de financiamento mais caras, com taxas de juro que podem ser punitivas. O recurso a estas soluções raramente é fruto de planeamento — é, quase sempre, uma resposta desesperada de última instância para colmatar a erosão quotidiana do poder de compra.O perigo reside no que Natália Nunes descreve como a “ilusão do controlo” ou a armadilha do pagamento mínimo. É cada vez mais comum o recurso sistemático ao pagamento da prestação mínima do cartão de crédito apenas para libertar o limite disponível e poder utilizá-lo novamente nos dias seguintes. Este comportamento cria uma falsa sensação de liquidez imediata, quando na realidade está a alimentar uma espiral de juros compostos que se torna exponencial e incontrolável.Casos reais que chegam à Deco ilustram situações de rutura total, em que as dívidas ultrapassam os 12.000 euros, distribuídas por várias entidades de crédito rápido e cartões, que acabam por absorver a quase totalidade do ordenado líquido. Nestes casos, conta a responsável, não resta margem sequer para a subsistência básica, gerando um ciclo automático em que se pede novo crédito para pagar o anterior, agravando a dependência estrutural de um sistema que, em vez de apoiar, acaba por asfixiar.Trabalhadores com emprego e sem rendimento disponívelEsta realidade atinge com maior dureza as famílias com rendimentos mais baixos, que não possuem almofadas financeiras para absorver imprevistos. No entanto, o fenómeno está a alastrar-se à classe média. Em 2025, o rendimento médio das famílias que contactaram a Deco subiu para os 1520€, um valor que, apesar de superior ao de anos anteriores, se revela manifestamente insuficiente perante a subida brutal dos preços e dos encargos com a habitação.Assim, sublinha Natália Nunes, dos dados mais inquietantes revelados pela análise da Deco é a consolidação do perfil do “trabalhador pobre” em Portugal. Ter um contrato de trabalho estável e um salário fixo já não constitui uma garantia de equilíbrio ou segurança financeira. A desadequação entre os salários praticados e o custo real de vida é hoje o principal motor da exclusão financeira e do desespero silencioso que atravessa o país.Os números mostram que esta crise tem rostos, idades e geografias bem definidos, traçando um mapa da exclusão urbana. A maior incidência de pedidos de ajuda apresentados ao Gabinete de Proteção Financeira da Deco situa-se na faixa etária dos 45 aos 59 anos, que representa 32% dos contactos totais. Este é um grupo particularmente vulnerável, muitas vezes descrito como a “geração sanduíche”, que suporta simultaneamente os custos crescentes da educação dos filhos e o apoio financeiro e logístico a pais idosos com reformas baixas. Logo atrás, com 26%, surgem os jovens adultos entre os 30 e os 44 anos, que lutam para se fixar num mercado habitacional cada vez mais inacessível.Geograficamente, a pressão é asfixiante nos grandes centros urbanos, onde o custo do alojamento devora, em muitos casos, mais de metade do salário líquido. Lisboa lidera destacada com 36,4% dos pedidos de apoio, seguida pelo Porto com 21,2%, confirmando que viver nas duas maiores metrópoles do país se tornou um desafio financeiro quase insuperável para quem depende exclusivamente do seu rendimento do trabalho.O custo invisível: saúde mental e o silêncio da vergonhaPara lá dos balancetes, das taxas de esforço e das tabelas de juro, há uma dimensão humana profunda que os dados estatísticos dificilmente captam, mas que é o pilar central da intervenção da Deco. O sobre-endividamento funciona como um veneno silencioso que degrada rapidamente a saúde mental e a coesão do núcleo familiar.Os relatos que Natália Nunes ouve diariamente são marcados por quadros de ansiedade extrema, episódios de insónias crónicas e um estado de stress pós-traumático constante. Esta pressão psicológica não se limita ao ambiente doméstico; afeta o desempenho profissional e a capacidade de foco, gerando um sentimento de impotência que contamina todas as esferas da vida. É frequente que esta asfixia financeira resulte em conflitos conjugais profundos, muitas vezes culminando em ruturas familiares definitivas que agravam ainda mais a precariedade económica dos envolvidos.Paralelamente ao sofrimento emocional, observa-se um fenómeno de paralisia perante as instituições financeiras. Muitos consumidores relatam sentir um medo paralisante de contactar o banco quando o incumprimento se torna inevitável, preferindo o silêncio ao confronto com uma dívida que sentem não conseguir gerir.O maior obstáculo à recuperação continua a ser, contudo, a barreira da vergonha social. O estigma associado à incapacidade de pagar as contas em dia leva muitos portugueses a esconderem a sua situação até ao limite das suas forças, procurando apoio especializado apenas quando já existem processos judiciais em curso ou quando o despejo é uma ameaça real.Natália Nunes reforça que o tempo é o recurso mais precioso nestas crises: romper o silêncio, admitir a dificuldade e pedir ajuda logo aos primeiros sinais de desequilíbrio é o passo determinante para travar a escalada da dívida e recuperar não só o equilíbrio das contas, mas a própria dignidade e a paz de espírito necessárias para recomeçar. SOLUÇÕESCaminhos para a recuperação FinanceiraA rapidez de atuação é, segundo a Deco, o fator determinante para evitar que uma asfixia financeira se torne irreversível.1.º passo: diagnóstico rigoroso da situação, identificando todas as dívidas e despesas para perceber o real impacto no orçamento familiar.2.º passo: prioridade absoluta à cobertura das necessidades básicas (alimentação, habitação e energia).3.º passo: negociação — a regra de ouro é o diálogo precoce. Contactar os credores mal surgem os primeiros sinais de dificuldade. Nunca recorrer a novos créditos para pagar dívidas anteriores.Mecanismos legais de apoioHá ferramentas formais que as famílias podem e devem acionar.PERSI. Procedimento Extrajudicial de Regularização de Situações de Incumprimento:é um mecanismo que obriga as instituições de crédito a procurarem soluções para clientes em atraso, permitindo renegociar as condições do empréstimo de forma segura.PARI. Procedimento de Acompanhamento e Regularização Individual:foca-se na prevenção, oferecendo um acompanhamento personalizado mal o consumidor antevê que terá dificuldades em cumprir as prestações. Mediação. O Gabinete de Proteção Financeira da Deco atua como mediador técnico nestes processos, ajudando a encontrar soluções ajustadas à capacidade real de cada família. O objetivo é garantir que a reestruturação da dívida seja realista e sustentável, permitindo recuperar o equilíbrio emocional e a estabilidade do bem-estar financeiro.O REVERSO DA MEDALHA: usar o cartão de crédito por estratégia financeiraHá quem opte por um uso estratégico do cartão de crédito, pagando todas as despesas mensais por este meio e mantendo o salário intocado na conta até ao final do mês, altura em que salda integral- mente o cartão. Este método gera saldos médios elevados na conta do banco, valorizando o perfil do cliente para futuros empréstimos, por exemplo, ou quaisquer operações financeiras que dependam de cadastro bancário positivo. Além de o utilizador do cartão beneficiar dos seguros e proteção do mesmo contra fraude nos pagamentos, garante também liquidez gratuita - no fundo, usa o dinheiro do banco o mês inteiro a custo zero. A Deco avisa que esta tática é possível, mas exige disciplina rigorosa para que o cartão seja um benefício e não uma armadilha.