"Se o país tivesse crescido à taxa de Oeiras, estávamos na linha da frente da Europa"

Brunch com Eduardo Baptista Correia, CEO do Taguspark
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Foi em junho, no Cazaquistão, que conheci Eduardo Baptista Correia, primeiro durante o Fórum Internacional de Astana, e depois num jantar oferecido pela embaixadora Maria de Fátima Mendes, na capital cazaque. E a conversa fluiu bem entre ambos, ao ponto de nos começarmos a tratar por tu. Quando lhe liguei há um mês para o desafiar para este Brunch, o CEO do Taguspark estava na Albânia, uma das etapas de uma viagem de moto pelos Balcãs. O que significa que este nosso encontro à mesa em Oeiras, num café do Taguspark, coincide com o primeiro momento em que nos vemos em Portugal, apesar de há anos me ser bastante familiar o nome deste professor do ISCTE (e foi por professor que ouvi toda a gente tratá-lo por aqui) que desde 2018 está à frente de uma pequena cidade onde trabalham 16 mil pessoas. É exatamente por perceber o espírito aventureiro de um académico e gestor que se sente "um cidadão do mundo" - diz ter sido o primeiro estudante português no Erasmus - que começo esta conversa perguntando pelas raízes.

"Nasci em Lisboa, mas tanto o meu pai como a minha mãe são de famílias oriundas de Viseu e eu passava temporadas em Sátão e Penalva de Castelo, numas aldeias chamadas Mioma e a outra Moradia", conta Eduardo. Mas se o verão na terra era para brincar, em Lisboa, no resto do ano, o miúdo estudioso substituía em boa medida o miúdo brincalhão: "Eu sempre fui top aluno. Os meus pais meteram-me na escola muito cedo, aos 4 anos, e quando cheguei à escola primária era o único da sala que já sabia ler e escrever. Isto foi na escola primária do bairro de S. Miguel, em Alvalade. Depois fiz a Eugénio dos Santos, três anos de Rainha D. Leonor. Depois ainda, como a minha área vocacional, que era a de economia, não havia no Rainha D. Leonor, fiz o 10.º ano na Luísa de Gusmão, o 11.º no Maria Amália, e o 12.º na Cidade Universitária".

Com a licenciatura em Economia como objetivo, confessa ter dado ouvidos a muita gente e, por isso, candidatou-se à Universidade Nova, mas não correu bem. "Muito cedo, aos 20 minutos na apresentação do curso e dos professores, percebi que me tinha enganado no curso e na escola. No final do ano, apesar de ter passado, mudei-me para o ISCTE e foi a decisão certa porque nunca mais saí do ISCTE. Mudei para Gestão e o lugar certo para mim é a gestão, de facto. Até hoje".

Eduardo nasceu em 1964, conta que se recorda muito bem do 25 de Abril e sobretudo do 1.º de Maio de 1974, "quando estivemos todos unidos", e ia a meio do curso de Gestão quando Portugal entrou na CEE. Aparece o programa Erasmus, oportunidade para estudar noutro país, e não perde a oportunidade. Estávamos em 1988.

"Fui o primeiro aluno português de Erasmus. Estava no 5.º ano da faculdade. Eu já passava os verões a trabalhar nos Estados Unidos, portanto percebia que era fundamental conhecer o mundo, e estava à vontade no inglês. Adorei os verões na América, para onde fui porque o meu pai achou que era melhor do que a minha ideia de fazer uma viagem, aos 18 anos, à boleia pela Europa e pagou-me a viagem. O meu primeiro trabalho nos Estados Unidos foi numa garagem, a mudar óleos, a mudar pneus, e depois trabalhei em obras, o que hoje aqui no Taguspark me dá muito jeito em várias situações.", conta Eduardo, entre risos.

Os dólares dos salários de verão davam para pagar viagens. Conhecer mais e mais lá fora era quase uma obsessão e quando ouve falar do Erasmus, o entusiasmo foi total. "Mal vi que havia um programa de internacionalização, e já fazia parte do meu imaginário estudar a seguir no estrangeiro, agarrei a oportunidade. Escolhi a Escócia, onde estava Luís Moutinho, que era um professor catedrático, ainda hoje é, um grande senhor, que soube que havia um português que tinha essa hipótese e veio a Portugal para me conhecer e disse-me, Eduardo, você tem de ir para a Escócia. Eu gostei da forma como ele me expôs a Escócia e tinha razão, apesar de quando cheguei, achei que me vinha embora no dia seguinte. O clima era terrível, eu cheguei a 10 de janeiro, um frio terrível, fica noite às 3 da tarde. Andei nisto as primeiras cinco ou seis semanas, mas como tinha assumido o compromisso de ficar, não fugiria nunca. Afinal, acabei por gostar tanto que por lá fiquei quatro anos e meio para fazer mestrado e doutoramento. O Erasmus e o mestrado foram em Glasgow, que é a Universidade do Adam Smith, pai da Economia, e do James Watt, o homem da máquina a vapor, e o doutoramento fiz na Universidade Strathclyde".

Chegam duas tostas mistas acompanhadas de uma salada de rúcula e de tomates cherry e para beber limonada de goiaba. Eduardo, ainda a pensar nos tempos na Escócia, conta que chegou a vestir a saia dos escoceses, o famoso kilt, "uma indumentária híper confortável, principalmente no verão".

Terminado o doutoramento, dá-se ao regresso ao ISCTE. E até hoje é professor da escola de Gestão. E é via ISCTE que surge a oportunidade de trabalhar no Taguspark: "A minha relação com Oeiras dá-se em 2007, quando o município compra ao ISCTE um curso chamado Mini MBA de seis dias, para uma turma alargada de dirigentes da câmara. São seis dias de aulas, onde cada dia é dado ou por um docente ou por dois docentes, um de manhã e outro à tarde. Eu dava um dia inteiro de aulas. Bom, e na parte da tarde, entrou o presidente de Câmara, Isaltino Morais. Várias pessoas lhe mandaram mensagens a dizer que tinha de vir assistir a esta aula, tinha de vir conhecer esta pessoa. E a partir desse dia, nasceu uma grande amizade. Nesse dia, ele ficou o resto da aula, e a aula ficou muito centrada num bate bola entre nós dois. Nesse dia, ofereci-lhe uma cópia do meu livro Manifesto para mudar Portugal, e passado duas semanas liga-me para conversar. Tinha o livro todo lido, todo anotado, foi uma conversa muito engraçada. Nasce aí uma fortíssima amizade, que o tema se tem encarregue de solidificar".

Na época, Isaltino Morais, que tinha sido ministro das Cidades, do Ordenamento do Território e do Ambiente num Governo do PSD, já eleito como independente estava no segundo dos seus períodos como presidente da Câmara de Oeiras, cargo que conquistou pela primeira vez em 1986. Agora está no terceiro período. "Fomos falando regularmente ao longo dos anos. Em 2010, eu propus-lhe fazermos uma agência marítima de Oeiras, que nunca foi para a frente. Ele depois lançou um outro desafio que também não foi para a frente, porque eu estava ocupado com outras coisas. E a dada altura, em 2012, ele convida-me para presidir à agência de investimento, a AITEC de Oeiras, e para assumir o lugar de administrador não-executivo no Taguspark, em 2012. É aí que eu me aproximo do Taguspark e, desde 2018, sou presidente-executivo, CEO, portanto, tenho a responsabilidade da condução operacional do desígnio estratégico do Taguspark", esclarece.

Desafio Eduardo a explicar em breves palavras o que é esta pequena cidade com os tais 16 mil habitantes durante o horário laboral: "O Taguspark é uma empresa, e o maior acionista, com 19%, é a Câmara de Oeiras, mas tem acionistas como o BPI e o BCP, a Altice, a Fundação Aga Khan, a senhora Ming, que é hoje uma das grandes investidoras em Portugal, o INESC, o Instituto de Soldadura e Qualidade, a Fundação Luso-Americana, portanto, no fundo, é uma sociedade anónima, com capital muito disperso. Outro dos acionistas é o Instituto Superior Técnico, que, aliás, tem um polo muito importante no Taguspark, e, portanto, é uma sociedade anónima de capital privado, mas o papel no território é, de tal forma importante, que é fundamental a existência de uma grande sintonia entre os desígnios estratégicos do município, da marca Oeiras Valley, e o Taguspark, que é o principal centro, no fundo, de promoção científico-tecnológica no lado mais empresarial e não tão universitário do tema. É uma cidade, é uma pequena cidade onde trabalham 16 mil pessoas, em empresas de variadíssimas dimensões e origens, nacionais e internacionais, desde startups até multinacionais, como a Novartis. O ponto comum é a produção de conhecimento através da investigação, a utilização de conhecimento naquilo que são as soluções que estas empresas pequenas, grandes, médias, nacionais e internacionais introduzem nas soluções que propõem aos mercados onde operam, e também a divulgação desse conhecimento através do Instituto Superior Técnico, por um lado, e por outro a Sharing School, que é uma escola de ensino internacional para alunos até ao 12.º ano, que também divulga conhecimento. É por isso é que nos chamamos Cidade do Conhecimento".

Tanto no exterior como no interior do edifício central, e até nas garagens grafitadas que Eduardo fez questão de me mostrar logo à chegada, nota-se a presença de várias obras de arte, esculturas e também pinturas que originaram a marca MAU - Museu de Arte Urbana. Recordo-me, aliás, de uma notícia no DN sobre um monumento a homenagear Iuri Gagarine, o russo que foi o primeiro homem no espaço, que agora sei ter sido ideia do CEO. "A marca de inovação que implemento prende-se com três ou quatro linhas de atuação, prende-se com, no fundo, uma obsessão por fazer bem feito e orientar-se para o cliente, somos completamente focados no cliente, essa é a primeira parte. Respondemos aos e-mails em menos de 24 horas, gerimos as reclamações com uma obsessão de qualidade tentando sempre perceber e aprender com o que estamos a fazer malfeito. Importante também é a introdução de políticas de civismo. Temos um statement que é rumo ao parque mais cívico da Europa. E o que é que é o civismo para nós? O civismo para nós começa em zero papéis no chão, zero beatas no chão, zero automóveis mal estacionados, no fundo circula-se pelo Taguspark e há uma sensação de estarmos no melhor da Europa, uma Europa cívica, com respeito pelo lugar público, pelo lugar comum, com reciclagem. Procuramos sempre startups que utilizem lixo e o transformem em nova economia, outro pilar é o civismo energético. Cerca de 30% do nosso consumo de eletricidade já é proveniente de painéis fotovoltaicos nossos, e vamos continuar a investir muito nessa área, e por fim, um salário mínimo que é 50% mais alto que o salário mínimo nacional para os prestadores de serviços residentes. Não são funcionários nossos, são funcionários de empresas que trabalham para nós, na limpeza, na jardinagem, na manutenção e na segurança, cujos funcionários residentes ganhavam na sua grande maioria salário mínimo nacional e nós pagámos todas as despesas adicionais de impostos, de contribuições, para que essas pessoas possam ter um salário que consideramos minimamente digno para, alinhados com as políticas de Oeiras, investirmos fortemente no valor social e na felicidade e no bem-estar, que essa é a nossa missão última, bem-estar. E aí entram as artes". E à nossa volta há desde uma pintura de Ana Mesquita, até uma girafa feita com havaianas, diríamos chinelos de borracha, passando por ilustrações de figuras como Natália Correia ou José Saramago caligrafados com as suas próprias palavras, uma obra do artista que fez o primeiro logótipo do Taguspark, "uma coincidência", sublinha Eduardo.

Volto ao tema Isaltino de Morais, que chegou a cumprir pena de prisão por ilegalidades várias, para perguntar se é possível ao CEO do Taguspark passar ao lado dessas polémicas em torno do autarca. "Admiro muito o trabalho de Isaltino, a frontalidade, a preocupação com os mais desfavorecidos, a preocupação em fazer muito bem feito. Isaltino Morais é um homem que eu vejo trabalhar de segunda a domingo, 10 horas, 12 horas por dia, obcecado por fazer bem feito. Isaltino é das pessoas com quem eu mais gosto de falar, porque com Isaltino fala-se de tudo, de política, de arte, de sentimentos, de poesia, de música clássica, novamente de arte. E depois, é, de facto, um autarca exemplar. Se o país tivesse crescido à taxa de Oeiras, estávamos na linha da frente da Europa. E sim, passou pela prisão, e, pela forma como ele conta e narra - aliás, tem um livro publicado sobre isso -, de forma muito injusta", responde Eduardo.

O CEO do Taguspark também chegou a aventurar-se na política, mas sem grande sucesso, como o próprio conta: "Fundei um partido político, o MMS, Movimento Mérito e Sociedade, que não conseguiu, em 2009, vingar em nenhuma das três eleições. Parei com a minha intervenção no partido no final de 2009, mas não fechei o tema da política, porque considero que Portugal é politicamente mal gerido. Somos um país sem desígnio estratégico, a juventude portuguesa tem poucos horizontes, e isso é um megaproblema. Somos um país gerido por pessoas cujas carreiras são os partidos políticos, com uma enorme falta de experiência no fazer bem feito, têm sim uma grande experiência em ganhar eleições, eleições internas, eleições de debate político, sim, mas com uma grande incapacidade em tornar a palavra dita na obra feita".

Tomamos ambos um café e uma água com gelo e uma rodela de limão. A conversa aproxima-se do fim e questiono Eduardo, que faz comentário político na CMTV e tem uma coluna no Sol, como se define ideologicamente: "Eu sou um social-democrata meritocrata, acredito na convivência da promoção e reconhecimento dos melhores com um Estado social que suporta os mais desfavorecidos, acredito na igualdade de oportunidades, acredito no elevador social".

Comento com Eduardo que quase coincidimos este verão nos Balcãs, pois estive na Sérvia, país onde as feridas das guerras entre ex-jugoslavos ainda estão muito presentes, basta ver o antigo edifício do Ministério da Defesa, em Belgrado, semidestruído pelas bombas dos aviões da NATO que vieram em 1999 em socorro dos independentistas albaneses do Kosovo. "Vi algo parecido na Bósnia, que cruzei de moto. Em Sarajevo, há uma percentagem muito elevada de prédios, e eu julgo que eles fazem questão de mantê-los assim, em que as fachadas estão ainda cravejadas de balas", conta.

Curioso com o nosso encontro há três meses no Cazaquistão, onde até tirámos uma foto juntos com Durão Barroso, ex-primeiro-ministro e ex-presidente da Comissão Europeia que acabei por entrevistar ali sobre a geopolítica atual, pergunto ao CEO o que o atrai nesse país da Ásia Central: "O Cazaquistão é um país muitíssimo interessante, que tem um magnífico embaixador em Portugal, Daulet Batrashev. É o país com a maior fronteira terrestre com a Rússia e faz a ligação, nos dias que correm tão importante, entre a China e a Rússia, entre o Oriente e uma componente do mundo ocidental. É um país com uma vontade enorme de se desenvolver, com uma vontade enorme de ser um ator geopolítico", diz, realçando ainda como os cazaques procuram ir em sentido contrário ao atual, procurando construir pontes, apesar do choque entre Ocidente e Rússia depois da invasão da Ucrânia. Só posso concordar, e se é conhecida internacionalmente a diplomacia multivetorial do Cazaquistão, nas minhas três reportagens no Cazaquistão sempre admirei a coexistência pacífica construída nestas três décadas de independência pela maioria étnica cazaque com as outras comunidades do país, mais de 100, sendo as de origem russa e ucraniana das mais numerosas.

Com dois filhos já adultos, Eduardo tem também uma menina, Clara, de 16 anos. E não resiste a contar-me que Clara foi este ano voluntária em Zanzibar. Uma candidata a cidadã do mundo como o pai, que no ano passado, para uma primeira aventura, a inscrevera num curso de verão ... na Escócia.

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