"Se é para haver arraiais, as regras já deveriam estar definidas"

Primeiro foi a enchente nas ruas de Lisboa com os adeptos do Sporting. Agora, a enchente dos adeptos ingleses no Porto, mas vêm aí os Santos Populares. O Porto vai ter festejos, com regras. Lisboa não tem marchas, mas a autarquia ainda não decidiu arraiais. Ao DN, especialistas dizem que as regras têm de ser gerais, coerentes e transparentes.

A final da Champions de 2021 no Porto, neste fim de semana, veio provar várias coisas ao país, segundo os especialistas. A primeira, que as regras têm de ser claras, transparentes e uniformes - ou seja, são para todos os eventos e para serem cumpridas por todos, portugueses ou estrangeiros; a segunda, no caso de envolver estrangeiros, que estes têm de ser informados à chegada do que têm de fazer. Se não cumprirem, as autoridades de saúde e de segurança têm de atuar, porque ninguém vai perceber que as regras sejam para cumprir por residentes e que os que são de fora não as cumpram sem punições; a terceira, na eventualidade de ter de se definir regras a cada evento de massa, que estas "sejam atempadamente, porque todos, comerciantes, população e profissionais de saúde têm de saber com o que contam para se prepararem", defendeu ao DN Ricardo, epidemiologista e presidente da Associação Portuguesa de Médicos de Saúde Pública (APMSP).

Para o pneumologista Filipe Froes, e coordenador do Gabinete de Crise para a Covid-19 da Ordem dos Médicos, há mais uma coisa que ficou provada com a Liga dos Campeões no Porto: "Há condições para termos assistência nos estádios, desde que seja com regras".

Quanto ao impacto, o epidemiologista da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, Manuel Carmo Gomes, ainda é muito cedo para estimar o que aí possa vir. "A quantidade de interrogações sobre a situação é tão grande que não posso fazer comentários. Temos de aguardar tranquilamente mais cinco a sete dias para percebermos o impacto que o incumprimento nas ruas pode ter na situação epidemiológica em Portugal".

A questão é que perante a situação vivida no fim de semana nas ruas do Porto - onde se juntaram milhares de adeptos dos dois clubes ingleses, Manchester City e Chelsea, muitos sem bilhete, que entraram no país como turistas e alguns até já com escala no Algarve - já há quem defenda que os Santos Populares são bem-vindos.

A Associação de Comerciantes do Porto manifestou-se "satisfeita" com o feedback do evento, reclamando que os festejos do São João, na noite de 23 para 24 de junho, também se devem realizar. Serão bem recebidos pela população e terão impacto na economia da cidade.

O presidente da autarquia do Porto, Rui Moreira, já garantiu: "São João haverá sempre. Aquilo que a câmara permitiu, com o parecer das autoridades de saúde, foram três zonas de diversões, onde as pessoas podem ir em condições consideradas de total segurança por parte da Direção-Geral da Saúde", assumindo que as medidas adotadas para estes festejos são importantes para setores que estão parados há meses, mas também para as famílias. "É importante para a indústria dos divertimentos que há ano e meio que não fatura um tostão, é importante também para as famílias que têm crianças e que as querem levar lá e outros que querem ir lá comer uma fartura. Isso vamos ter", afirmou.

CML ainda não decidiu arraiais

O DN questionou a Câmara Municipal de Lisboa sobre a decisão em relação aos festejos de Santo António e a resposta foi: "Ainda não há uma decisão, mas esta será tomada muito brevemente". Neste momento, já se sabe que marchas dos bairros populares a descerem a Av. da Liberdade, não haverá, porque foram canceladas pela autarquia, mas os arraiais ainda são uma incógnita.

Mas, ao DN, Ricardo Mexia defende que se fosse para haver as regras já deveriam estar definidas, porque as pessoas têm de saber com o que contam. "Faltam dez dias para começarem as festas populares. Quer os cidadãos quer os operadores económicos têm de saber com o que contam. Vai haver festejos? Se vai, em que moldes? Porque já sabemos que terá enormes implicações", sublinhou, questionando ainda: "As marchas foram canceladas, mas e os arraiais? As esplanadas e os restaurantes vão poder estar abertos só até às 22.30 ou haverá horários diferentes? Tudo isto tem de ser clarificado o mais rápido possível por quem tem estas responsabilidades para que todos fiquem a saber com o que contam e se preparem".

O argumento do presidente da APMSP tem a ver com o facto de "toda a infraestrutura que permite implementar um evento ou uma situação deste género tem de ser amplamente pensada, seja do ponto de vista dos critérios de acesso, como um registo em espaços ou se a testagem, que foi critério para os adeptos ingleses na FunZone e no estádio, vai ser um critério ou não. As regras têm de ser clarificadas o mais rapidamente possível".

Para o médico, não se compreende que, nesta fase da pandemia, não haja coerência nas regras e uniformidade. "Temos de ser coerentes, assertivos e antecipar as questões", senão a comunicação continua a ser um problema no combate à doença, referindo: "A pandemia não está resolvida. O Reino Unido, de onde vieram os adeptos dos clubes, continua a ter problemas, recentemente temos assistido a uma progressão de casos da variante indiana que já atingiu uma predominância enorme, e, em Portugal é fundamental que não se perca agora o que se conseguiu resolver em janeiro e em fevereiro. Não foi assim há tanto tempo para que as pessoas já tenham esquecido as dificuldades que enfrentámos, alertou Ricardo Mexia.

Do ponto de vista epidemiológico, o presidente da APMSP acredita que será difícil chegar à mesma situação, porque "o cenário agora é muito diferente. A população mais vulnerável está em larga medida vacinada", mas há questões de coerência que são difíceis de compreender quer para a população, para os agentes económicos e para os próprios profissionais de saúde. "Não se compreende que haja regras de aplicação seletiva. Não se compreende que na Final da Champions pudessem ter estado 16 mil adeptos no estádio e que, no mesmo país, outras modalidades desportivas, não possam ter sequer 500 adeptos, como aconteceu na final do campeonato de Rugby".

No Porto, houve duas questões: o público no estádio, situação que chegou a ser colocada para a Final da Taça de Portugal e depois não se veio a confirmar, e a do incumprimento nas ruas. Mais uma vez: "Regras que não foram aplicadas nem cumpridas da mesma maneira", comenta.

O que correu mal no Porto era responsabilidade das autoridades de saúde e de segurança

Para Filipe Froes, coordenador do Gabinete de Crise para a Covid-19 da Ordem dos Médicos, no Porto, "o que correu mal não foi o que estava preparado no estádio, nada que envolvesse a responsabilidade dos clubes, mas o que era da responsabilidade das entidades oficiais. O que era da responsabilidade das autoridades de saúde e de segurança, porque a realização da final no estádio do Dragão provou que, "neste momento, estão reunidas as condições para que o público volte ao futebol como está a voltar a outros espetáculos, com critérios, coerência e transparência".

Ao DN, o pneumologista não quis comentar o evento que está agora em cima da mesa, Santos Populares, mas, considerou que da situação no Porto há que tirar novas lições. "As autoridades de saúde deveriam ter obrigado os adeptos a cumprir as regras em vigor em Portugal. Não é admissível que tenhamos um conjunto de regras que se aplicam aos portugueses e quem vem de fora não tenha que as aplicar", reforçando: "Aos adeptos ingleses deveria ter sido exigível que cumprissem a regra de uso máscara, a lotação nas mesas, o distanciamento social e a proibição de ajuntamentos. E não foi."

Aliás, critica, "deveriam ter sido instruídos logo à chegada sobre as regras em vigor em Portugal, se não estavam em condições de as cumprir, deveriam ter sido de imediato expulsos. Não é admissível que não tenham cumprido as regras que a nós nos são exigidas, porque quando vamos para o Reino Unido ou para a Alemanha temos de cumprir as regras locais. O facto de sermos estrangeiros não diminui em nada o nosso cumprimento da legislação de cada um dos países". Filipe Froes sublinha ainda que "as cenas de violência não são admissíveis em contexto nenhum, nem pandémico, no futebol ou fora disto. É vandalismo".

Em relação ao público no estádio, o pneumologista regista que "houve uma exceção. Não é percetível que o mesmo não seja também permitido aos adeptos nacionais, tanto mais que há regras definidas pela Federação e pela Liga". Uma situação que classifica, igualmente, como "falta de coerência e de uniformidade".

O coordenador do Gabinete de Crise da Ordem defendeu ao DN não quis comentar a questão dois arraiais mas defendeu, mais uma vez, ser preciso adaptar a matriz de risco à realidade epidemiológica do país, porque "é fundamental para se tomar decisões", mas "não podemos ter medidas específicas para cada intervenção. Temos uma regra geral que se aplica para todas as circunstâncias e que tem de ser adaptada continuamente".

Impacto na situação de Portugal só será percetível daqui a dias

O epidemiologista Manuel Carmo Gomes também não quis comentar a questão dos arraiais, mas sobre o impacto que a situação dos adeptos ingleses no Porto possa ter na realidade epidemiológica, diz que há tantas interrogações - como se aquelas pessoas estavam ou não protegidas com a vacinação, se com uma dose ou já com as duas, há quanto tempo, se fizeram teste antes de embarcar, há se os que passaram pelo Algarve voltaram a fazer teste e há quanto tempo, se houve portugueses que andaram junto destes adeptos ou não - que "não é possível fazer contas e fazer previsões. Temos de aguardar tranquilamente para perceber nos próximos cinco a seis dias se existe ou não algum reflexo na incidência portuguesa".

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