"Saí que nem louco a apitar para avisar as pessoas"

Avioneta caiu no areal da praia de São João, na Costa de Caparica, e provocou dois mortos. Tripulantes saíram ilesos e foram de imediato ouvidos pelas autoridades policiais

Eram 16.48 quando do seu posto de vigia Nuno Alves percebeu que uma avioneta rasava estranhamente o areal da praia de São João, na Costa de Caparica. "Saí que nem louco a apitar para avisar as pessoas. Não sabia se ela ia aterrar aqui ou na praia ao lado, mas percebia-se que ia aterrar no meio das pessoas." O nadador-salvador nunca viu um acidente como este em que uma avioneta aterrou de emergência no areal e acabou por causar dois mortos - uma menina de 8 anos e um homem de 56. "Não sei o que aconteceu, ainda estou meio em choque porque fomos os primeiros a chegar ao pé das vítimas". Este é o seu último ano como nadador-salvador e admite que não queria ter-se despedido desta forma.

As duas vítimas mortais foram atingidas pela aeronave que pouco antes do alerta da aterragem - que aconteceu às 16.51 - tinha reportado uma avaria à torre de controlo. "Mayday, mayday. Falha no motor, vai aterrar na praia", pode ouvir-se na gravação divulgada. A falha no motor pode explicar porque algumas pessoas que estavam na praia no momento do acidente referem não ter ouvido barulho da aeronave, conforme explicou o comandante Paulo Isabel, Capitão do Porto de Lisboa, aos jornalistas.

A aeronave estava num voo de treino de navegação e os dois tripulantes estavam a fazer uma viagem entre Cascais e Évora. Depois de dúvidas iniciais sobre a natureza do voo, a própria escola, Aerocondor, informou, em comunicado, que se tratava de um "voo de treino". Os dois tripulantes que saíram ilesos da aterragem foram de imediato acompanhados pelas autoridades para serem ouvidos pelos elementos da investigação criminal da Polícia Marítima e acabaram por ficar com termo de identidade e residência. Serão esta quinta-feira interrogados pelo Ministério Público que irá determinar se os dois tripulantes, de nacionalidade portuguesa, podem ou não ser suspeitos de algum crime.

Na praia a indignação e o choque eram os sentimentos predominantes entre quem assistiu a tudo. Os banhistas questionavam-se se não teria havido hipótese de amarar em vez de aterrar no areal. Há, inclusive, relatos de que alguns banhistas tentaram agredir os tripulantes, não fosse a pronta intervenção das autoridades. Esse é aliás um elogio unânime: a rápida resposta por parte das equipas de socorro.

Célia Rocha estava a ver o filho, Tomás, e o amigo deste António (ambos de 11 anos), a entrar na água quando viu a avioneta a pousar na areia. "Estava a falar ao telemóvel e larguei logo tudo fui a correr", diz enquanto mostra o telemóvel ainda com marcas de areia. Foi António que salvou Tomás aos gritar-lhe para que fugisse da avioneta. Segundo os dois rapazes, a aeronave "estava a bater com as rodas em toda a gente". "Foi tudo muito rápido, mas foi um terror", resume Célia, que estava no seu primeiro dia de férias.

Mais acima no areal, o casal Celeste e António Gonçalves contam que não estavam juntos na hora do acidente. Ela estava na toalha a fazer palavras cruzadas e ele preparava-se para entrar na água. "Mal ouvi o barulho da avioneta e vi que estava próxima preparei-me logo para mergulhar, não fosse ela aterrar no mar", conta António. Celeste apenas viu "as pessoas a fugir e a avioneta a esmagar quem apanhava à frente".

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