Rodrigo Tavares acaba de lançar o livro em Portugal, depois de vários lançamentos no Brasil.
Rodrigo Tavares acaba de lançar o livro em Portugal, depois de vários lançamentos no Brasil.Foto: Leonardo Negrão

Rodrigo Tavares. “Deveríamos fazer o exercício comparativo de como é um país governado pela extrema-direita”

Autor do livro 'O Palavra e o Poder: Uma travessia crítica por 40 anos de democracia brasileira', diz que poucos acreditariam que algumas narrativas em Portugal pudessem "criar um clima de insegurança e de medo", mas isso acabou por acontecer.
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Portugal e Brasil têm muitas semelhanças e diferenças, sendo, desde logo, a língua portuguesa e a imigração alguns dos principais vínculos. Politicamente, são totalmente distintos, com sistemas bastante diferentes e até na própria forma de pensar a política. No entanto, nos últimos anos, ambos os países vivem ou começam a viver fenómenos de polarização e de descrença nas instituições e nos políticos. A semelhança maior é a luta pela democracia, restituída em Portugal há pouco mais de 50 anos e, no Brasil, há cerca de 40 anos, após longos períodos de ditadura.

A história do país irmão é contada numa série de artigos de opinião publicados no jornal Folha de S. Paulo. Fascinado por jornais, pela política, pelo Brasil e pela democracia, o professor Rodrigo Tavares decidiu compilar alguns destes artigos históricos no livro O Palavra e o Poder: Uma travessia crítica por 40 anos de democracia brasileira, que acaba de ser lançado em Portugal, após uma série de eventos de apresentação do outro lado do oceano. “Foi fácil concluir que a esperança média de vida destes textos não podia ser apenas as 24 horas do ciclo noticioso, tinha de ser prolongada no tempo”, começa por dizer ao DN. Além de Rodrigo Tavares, são coorganizadoras da obra Flávia Lima e Naief Haddad.

O trio teve a tarefa de escolher os textos entre mais de 150 mil artigos. “Uma tarefa bem difícil”, resume. Mas não só. A obra reúne 80 textos de opinião sobre democracia, organizados em 40 pares, entre eles Jair Bolsonaro e Lula da Silva. “São sempre compostos, primeiro, por um artigo de opinião publicado na Folha de São Paulo entre 1985 e 2025 e, para contrabalançar, analisar, contrariar ou complementar esse artigo original, evitando que fosse um mero texto académico, litúrgico ou passivo, selecionámos 40 pessoas que pudessem debater diretamente com o seu interlocutor ou interlocutora”, explica o cientista político, também autor de colunas de opinião na Folha de São Paulo e no Expresso.

Além da escolha das personalidades responsáveis por este “contrabalanço”, a curadoria teve o cuidado de garantir pluralidade. “O espaço de opinião é um espaço eletivo sem eleições, com muito poder. A maior parte dos artigos de opinião publicados na imprensa brasileira, e em especial na Folha de São Paulo, eram textos muito masculinizados e muito brancos”, destaca. E acrescenta que, em Portugal, estes espaços jornalísticos de opinião também são espaços de poder, mas com diferenças: “Aqui, eu diria que os textos de opinião na imprensa portuguesa correspondem, em cerca de 80% ou 90%, à opinião partidária de vários políticos. No Brasil, temos muitos representantes da sociedade civil e, aqui, esses espaços não estão disponíveis, não com a mesma qualificação brasileira, para a sociedade civil portuguesa”, analisa.

“Se há cinco ou seis anos, dez cientistas políticos tivessem um encontro e discutissem a possibilidade ou a improbabilidade de algumas destas narrativas, de se criar um clima de insegurança e de medo, diriam que seria difícil, mas acabou por acontecer”

Mas, sobre as semelhanças, Portugal não escapa dos fenómenos populistas da extrema-direita. Segundo o cientista político, o “manual atravessa fronteiras e passa pela escolha do inimigo, que, em Portugal, são os imigrantes”. Outro passo desta cartilha é a construção de “uma narrativa de que a nação vive um colapso moral, que só um líder forte pode deter, com uma figura carismática que se apresenta geralmente como um outsider anti sistema, tudo isto potenciado pelas redes sociais”, explica. Para completar, “atacam sistematicamente instituições como a imprensa, como os tribunais, como as universidades, como os partidos tradicionais”.

E diz que houve quem não acreditasse que esse populismo, que se instaurou no Brasil e em outros países, chegaria a Portugal. “Se há cinco ou seis anos, dez cientistas políticos tivessem um encontro e discutissem a possibilidade ou a improbabilidade de algumas destas narrativas, de se criar um clima de insegurança e de medo, diriam que seria difícil, mas acabou por acontecer”. E assim, deixa uma reflexão. “Deveríamos fazer o exercício comparativo de como é um país governado pela extrema-direita, nos impactos que isso teria na qualidade de vida imediata, orgânica, diária, com censura, e como esta ostracização da população imigrante em Portugal teria efeitos catastróficos para a economia, para a geração de riqueza”. Por fim, sublinha que o livro, além de fazer pensar sobre democracia, é também “uma celebração do jornalismo”.

amanda.lima@dn.pt

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