Falhas obrigaram ao processamento manual das folhas de exames e a um novo algoritmo
Falhas obrigaram ao processamento manual das folhas de exames e a um novo algoritmoFoto: Tiago Petinga / Lusa

Relatórios. Falha na leitura dos códigos QR causou atraso na correção dos exames nacionais

Júri Nacional de Exames e a consultora Deloitte, que estiveram envolvidos na correção dos exames, apontam dificuldades na leitura dos códigos QR, essenciais para o processamento na correção digital.
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As falhas na leitura dos códigos QR, essenciais ao processo de digitalização e identificação das provas dos exames nacionais, foram uma das principais dificuldades que causaram o atraso na correção e distribuição das provas na 1.ª fase dos exames, de acordo com os relatórios elaborados pelo Júri Nacional de Exames e a Deloitte, entidades envolvidas no processo de classificação.

Ambos os relatórios admitem e escrutinam as várias falhas que existiram em todo o processo, desde a impressão dos QR Codes nas próprias folhas de exame à falta de folhas de exame e a divergências na correção. O Júri Nacional de Exames, agora integrado no EduQA, frisa especialmente as "dificuldades técnicas relevantes na leitura dos códigos QR das folhas de resposta", um dos pontos iniciais para identificar as provas digitalizadas em formato PDF e distribui-las aos classificadores.

No relatório elaborado pela entidade, lê-se que estas dificuldades "não se tinham verificado aquando da realização do piloto em 2025" e acabaram por se espalhar às restantes fases da correção, desde a indexação das folhas à preparação e subsequente avaliação pelos professores corretores dessas mesmas provas.

Segundo o JNE, "foram introduzidas medidas corretivas nos sistemas de leitura dos códigos QR", algo que permitiu "iniciar o processo de classificação das provas pelos professores classificadores". Porém, estas irregularidades atrasaram todo o processo e forçaram à entrega "gradual" das folhas de exame aos professores classificadores, algo que resultou no atraso verificado.

"Neste contexto, e de forma a assegurar a continuidade da classificação dos exames finais nacionais, foi mobilizado apoio informático adicional, incluindo a contratualização de uma empresa externa especializada em processos semelhantes e com conhecimento do sistema educativo, a Deloitte", lê-se neste documento do JNE.

No relatório da Deloitte, a consultora lista uma série de falhas que ocorreram no sistema, ordenando-as das menos para as mais críticas. As mais críticas, lê-se, foi na identificação das escolhas múltiplas pelo sistema de digitalização e na leitura dos próprios códigos pelo algoritmo da Plataforma de Correção e Supervisão (PCS).

A Deloitte apontou "limitações relevantes" desta ferramenta que não conseguia reconhecer "uma parte significativa dos códigos, sem que fosse possível, à data, determinar a dimensão exata do problema".

Esta situação obrigava a uma correção manual, algo que tentou ser melhorado com a introdução de um "mecanismo alternativo de reconhecimento ótico". Porém, a consultora aponta que a "solução" encontrada acabou por ser pior que a forma original dos códigos QR.

"Este mecanismo apresentava níveis de reconhecimento substancialmente inferiores aos da leitura dos QR Code, aumentando as leituras incorretas e mantendo a necessidade de correção manual", lê-se. Toda esta situação só foi resolvida, explica a Deloitte, quando um novo algoritmo para a leitura e identificação de códigos QR foi introduzido na segunda fase dos exames para a correção e logo na primeira para identificar e corrigir eventuais erros nas leituras dos códigos.

Problemas estenderam-se às folhas de continuação

Para além da identificação das próprias folhas de exame, as folhas de continuação, pedidas pelos alunos quando acaba a folha principal, também teve erros na ligação aos itens da prova em si, nota o JNE, sublinhando que isto "causou dificuldades adicionais ao trabalho dos professores classificadores".

"Esta situação foi sendo corrigida informaticamente ao longo do processo de classificação", nota o júri dos exames, que diz que este sistema envolveu um botão "Reportar", com os professores a sinalizarem os problemas, depois resolvidos centralizadamente.

A Deloitte aponta dois problemas com as folhas de continuação na 1.ª fase dos exames: as folhas de continuação que não foram integradas na prova completa por acidente (que considerou ser de criticidade alta) e as provas dadas como “incompletas” pois as folhas de continuação tinham sido anuladas manualmente por erro (criticidade média).

No primeiro caso, a Deloitte fala numa “aplicação não uniforme” do procedimento. “Face ao tempo disponível e ao volume de provas a processar, em alguns postos, as folhas aparentemente em branco não eram digitalizadas; noutros, eram digitalizadas mas depois anuladas na PCS”, explicam.

“Em situações pontuais, verificou-se posteriormente que essas folhas continham respostas dos alunos que não tinham sido incorporadas no processo de classificação, tornando necessária a localização e a redigitalização integral das provas afetadas, sobretudo no final da 1.ª fase”, lê-se ainda.

“Na 2.ª fase e na fase extraordinária, este problema deixou de se verificar com a introdução da Pré-PCS, que passou a obrigar ao cumprimento do procedimento definido, assegurando a digitalização de todas as folhas e a validação da completude da prova antes do seu encaminhamento para processamento na PCS”, continuam.

JNE identifica domínios onde se pode melhorar

No fim do seu relatório, o Júri Nacional de Exames identificou os domínios onde há espaço para melhoria, nomeadamente na “fiabilidade técnica das plataformas”, na "integridade e rastreabilidade das provas digitalizadas”, na “disponibilidade de professores classificadores e relatores” e na “clareza da comunicação com escolas, alunos e encarregados de educação”

“A experiência de 2026 confirma a importância estratégica da digitalização, mas evidencia a necessidade de reforçar cinco dimensões críticas: robustez técnica das plataformas, integração entre sistemas, validações sucessivas e pontos de controlo ao longo do circuito das provas, preparação e formação dos intervenientes e comunicação operacional com escolas, professores, alunos e encarregados de educação”, lê-se no relatório.

O JNE propõe a criação de “uma bolsa estável e contratualizada de classificadores e relatores”, que tenha “critérios de seleção, formação, disponibilidade, remuneração e substituição definidos antes do início do ciclo de avaliação externa” e ainda “a definição de pontos de controlo sucessivos, a automatização de validações críticas e a antecipação da formação dirigida às escolas e aos professores”.

“A mitigação destes riscos deve ser tratada como condição prévia de qualidade do processo, e não apenas como resposta corretiva durante a execução”, conclui assim o júri nacional de exames.

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