"Quem perdeu tudo quer resolver logo o problema e Portugal está à frente de muitos países"

Milhares de mulheres e crianças viram-se em cidades e aldeias de um país desconhecido. Sem falar a língua portuguesa, o que é o maior problema na integração. Estão a conseguir recomeçar a vida, muito à custa do apoio da sociedade civil, que se mobilizou como nunca.

O país recebeu mais de 48 mil fugitivos da guerra na Ucrânia. Nunca se viu tanta solidariedade da sociedade civil para acolher um povo. "Países como a Alemanha dão mais apoios sociais, mas não é isso que os refugiados ucranianos querem. Quem perdeu tudo quer resolver o seu problema no imediato e Portugal está à frente de muitos países". A afirmação é de Pavlo Sadokha, ativista da comunidade. A maioria apoiou-se em familiares e amigos, mas uma parte não tinha qualquer suporte, viajando ao sabor das vagas de voluntários que chegaram à Polónia e à Roménia.

Milhares de mulheres e crianças - já que os homens entre os 18 e os 60 anos não puderam partir -, viram-se em cidades e aldeias de um país desconhecido. Sem falar a língua portuguesa, o que é o maior problema na integração. Só alguns dos mais jovens dominam o inglês. Portugueses e ucranianos entendem-se através da tradução online, mesmo com todas as falhas do sistema. Foi a forma como o DN falou com três famílias que chegaram há quatro meses, no auge do fluxo migratório. E com quem as tem apoiado, a quem chamam anjos.

48 122 com proteção temporária

Pavlo Sadokha, presidente da Associação de Ucranianos em Portugal, identifica três tipos de refugiados. O grupo dos que já pensavam em sair da Ucrânia, nomeadamente quem vivia no leste do país [por exemplo em Odessa, onde se intensificam os ataques da Rússia para controlar a região], que ficaram sem casas e têm fundos em bancos europeus para montar um negócio em Portugal. Esses estão completamente autónomos. Outro grupo, e que é a maioria, é o das pessoas que têm cá familiares, amigos, e também estão independentes. O terceiro é o dos mais vulneráveis, cidadãos que tiveram de fugir, não conheciam Portugal, e aproveitaram boleias. "São esses que precisam de ajuda e recorrem à associação. Estes querem regressar, aliás, a maioria dos refugiados procura uma solução temporária para regressar no fim da guerra."

Centro do país

São Simão de Litém é uma aldeia de Pombal, Distrito de Leiria, que perdeu muita gente para a emigração - tinha 1382 habitantes nos Censos de 2011. Na última reorganização administrativa foi agregada a Santiago de Litém e a Albergaria dos Doze, totalizando as três freguesias 5 418 residentes (Censos de 2021), menos do que levam alguns navios cruzeiro.

A falta de mão-de-obra local é gritante, uma boa razão para Natasha Skorokhod, 39 anos, se aventurar por estas terras, desertificadas e envelhecidas. Com ela, vieram a filha, Alina, 21 anos, e o neto, Danyam, 14 meses. O marido morreu o ano passado, os pais ficaram na Ucrânia: "Estão bem, felizmente".

Fugiram para a Polónia, como milhões de refugiados que atravessaram essa fronteira da Ucrânia, a oeste do país, que já foi a linha de separação com a União Soviética. Juntaram-se a uma das caravanas organizadas nas redes sociais por um grupo de amigos de São Jorge, Porto Mós (Leiria). Chamaram-lhe Missão Ucrânia e a mensagem de solidariedade foi passando. Começaram por ser dez viaturas, terminaram em 24 e quatro autocarros, incluindo dois fretados na Polónia. Resgataram 284 pessoas nos finais de março.

9 259 recebem RSI

Essas 284 pessoas foram apoiadas segundo uma lista de nomes que levavam de Portugal e que respondia aos pedidos de ajuda, explica a principal responsável pelo projeto, Rita Cerejo. Entre estas, Natasha, a filha e o neto. Ficaram no Distrito de Leiria, na Memória.

Os novos amigos encontraram-lhe um emprego na cozinha de uma churrasqueira de São Simão, uma localidade vizinha. Natasha começou a trabalhar há dois meses, entre as 09.00 e as 17.00 horas, com dois dias de descanso. Recebe 624 euros limpos mensais, paga 250 euros pela casa. Não tiveram qualquer apoio social à exceção do abono de família do bebé, 149,85 euros, por ter menos de 3 anos.

Alina, a filha, não trabalha nem estuda, inscreveu-se na Segurança Social para obter o RSI. Tem o filho numa creche em Albergaria dos Doze, onde chegam de comboio - o regional que passa poucas vezes ao dia. É lá que se deslocam duas vezes por semana para aprender português e convivem com outros ucranianos. Está disponível para "fazer qualquer tipo de trabalho", desde que consiga conciliar com o horário da creche do filho.

Natasha resume as suas vidas: "Está tudo muito bom, tenho trabalho, é o mais importante, o pior é o dinheiro. Acabaram-se as poupanças da Ucrânia, o Estado disse que ajudava com a casa, mas nunca recebemos nada", explica a mulher. E espera que a guerra acabe para poder regressar ao seu país.

Estão a ser acompanhadas pela assistente social da União de Freguesias de Santiago, São Simão de Litém e Albergaria dos Doze, articulada com a Câmara Municipal de Pombal. O concelho tem 191 refugiados ucranianos, segundo os últimos dados de Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF).

Trabalho não falta

Caranguejeira é uma vila do Concelho de Leiria, ultimamente no mapa noticioso devido aos incêndios. Não era uma terra completamente desconhecida para Ludmyla Semenenko, 36 anos, e a filha, Sofia, de 14. Viviam em Ternopil,no oeste da Ucrânia, o marido estava imigrado em Portugal, morava na casa que agora habitam.

Anatoly, de 42 anos, imigrou pela primeira vez para Portugal há 15 anos, regressou e voltou. Da última vez, estava cá há três anos, trabalhava nas obras como pedreiro. Durante as restrições de circulação devido à pandemia não pôde ir à Ucrânia. Mal as fronteiras abriram sem limitações, viajou para ver a família. Estava na Ucrânia quando a guerra começou, a 24 de fevereiro, vai fazer seis meses. Não o deixaram sair, cumprindo a Lei Marcial decretada com o início da invasão pela Rússia. "Está deserto para voltar, mas não consegue".

Mulher e filha fugiram para a Polónia, onde encontraram um "voluntário de Lisboa". Foi há quatro meses. "Viajei da Polónia para Portugal, graças a Deus". Explicou que o marido partilhava casa com outro ucraniano na Caranguejeira, no lugar de Vale da Catarina. É essa habitação que partilham, dividem a renda mensal: 270 euros.

Chegadas à Caranguejeira, tiveram o apoio de Fernanda Fernandes, presidente da Cáritas Paroquial da Caranguejeira, que há anos acompanha os novos habitantes, muitos imigrantes. "Rapidamente passam a palavra a quem chega à Caranguejeira, o nosso grupo acolhe todos", diz a voluntária da associação, como todos os elementos que a constituem. Foram os refugiados dos programas do ACNUR e da UE, agora são os ucranianos, mas também podem ser imigrantes a procurar emprego ou uma casa para viver.

"O grupo Cáritas tem como missão apoiar as famílias que ficam na nossa paróquia. Todos os dias recebemos pedidos de casas para alugar, rapidamente arranjamos trabalho. Vamos à Segurança Social pedir os apoios, encontramos as escolas para as crianças, damos todo o tipo de ajuda a alguém que precisa de recomeçar. Também recebemos mobília usada e rapidamente montamos uma casa", explica Fernanda Fernandes.

No dia em que estivemos em Vale da Catarina, Fernanda ia levar Ludmila ao Hospital de Santo André, em Leiria. Os transportes públicos são escassos na freguesia e ela não tem carta de condução. "Há de vir alguma ucraniana que tenha carta", comenta a Fernanda.

A mulher foi operada a um cancro da mama o ano passado e fez tratamentos de quimioterapia e radioterapia. Irá fazer exames, incluindo o teste genético para a predisposição do cancro ginecológico, o que não pôde fazer na Ucrânia por ser caro. Aqui é grátis. "Em Portugal não se paga nada, gosto deste Portugal", comenta.

Segundo o SEF, vivem 754 pessoas no Concelho de Leiria com estatuto de proteção temporária. As cidades com um maior número destes refugiados são Lisboa, Cascais, Porto, Sintra e Albufeira.

Apoios sociais

Ludmyla tinha uma loja de lingerie no seu país, ficou tudo para trás. Recebeu o RSI, (189,66 euros) por pouco tempo. Começou a trabalhar há três meses, como ajudante de cozinha numa estação de serviço da autoestrada, onde ganha o salário mínimo, 705 euros brutos. Recebe, ainda, uma pequena bolsa por frequentar o curso de português através do Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP). Sofia, a filha, tem o abono de família de 50,57 euros - 37,46 para a sua idade e escalão de rendimentos mais básico, mais um complemento por não ter o pai com ela.

8 243 crianças com abono de família

Os responsáveis do Instituto da Segurança Social (ISS) informaram o DN que 8 243 crianças vindas da Ucrânia recebem abono de família (1, 4 milhões de euros). Os beneficiários de RSI são 9 258 (8,2 milhões euros). Sublinham: "São prestações com condição de recurso, só acessíveis enquanto se mantiver uma situação de baixo rendimento".

Pavlo Sadokha, que há semanas se queixou do atraso na atribuição do RSI, informa que o subsídio "começou a chegar às famílias com regularidade". O que tem corrido melhor é a nível da educação e do emprego. "Está a funcionar bem: de um lado, temos os empresários a oferecer emprego e, do outro, as pessoas que procuram trabalho. Há mais oferta que procura de emprego", sublinha. A parte menos boa é que, na generalidade, os trabalhos não são compatíveis com o nível das habilitações.

Conclui: "Os portugueses continuam a ajudar os ucranianos. Não é a onda de solidariedade inicial, mas continuam a apoiar. O mais importante é que este processo de integração se faça com calma, compreensão e apoio".

Sofia, tal como todas as outras crianças refugiadas, chegou ao ensino português durante o mês de março, quase no 3.º período. O Ministério de Educação decidiu que seriam avaliadas pelas escolas do seu país, também atribuiu professores para os acompanhar. A avaliação da escola da jovem confirmou que tinha completado com sucesso o 8.º ano. Em setembro, inicia o 9.º ano no sistema de ensino português.

As duas não falam outra língua além do ucraniano. Ludmyla tem um curso superior na área comercial, justifica-se que o ensino da língua inglesa "não foi muito bom". Sofia admira-se porque tem de aprender francês. Está de férias e com muito tempo para ocupar. Fernanda Fernandes encontrou uma professora reformada que vai dar aulas às crianças ucranianas .

"O mais complicado é não falar português, é muito complicado", diz a Ludmyla. Acompanha o que se passa no seu país, com a esperança de que os seus continuem bem. "Há bombas por toda a Ucrânia, mas graça a Deus está tudo bem onde os meus parentes moram. Explodiram bombas a duas horas de caminho da minha casa, muitas pessoas têm morrido, muito traumatizante". Em Portugal tem a paz e meios de subsistência que faltam na sua terra, gosta do clima e das pessoas, "muito simpáticas".

Está eternamente agradecida a Portugal, sobretudo a Fernanda Fernandes. "É o meu anjo, sem ela não poderia estar aqui". Espera o fim da guerra para regressar.

A Cáritas Paroquial da Caranguejeira acompanha atualmente seis famílias ucranianas, uma delas acabou de se mudar para Olhão, Algarve: mãe, pai (63 anos), filha e dois netos. Um imigrante ucraniano arranjou um contrato de trabalho para o homem, o que tinha dificuldade de obter na freguesia devido à idade. A filha foi conhecer Olhão e arranjou logo trabalho.

Inicialmente, viviam com uma família de acolhimento que improvisou uma garagem para ficarem. Trouxeram poupanças e Fernanda arranjou-lhes uma casa com quatro quartos por 400 euros mensais. Saíram há uma semana, de manhã, e à tarde já estava alugada a uma família brasileira.

Alojamento é difícil

A falta de cursos de língua portuguesa para as necessidades dos milhares de refugiados que chegam ao país é a maior dificuldade de integração, dizem Pavlo Sadokha e os ucranianos. O segundo problema é a dificuldade em conseguir uma habitação. "O alojamento é uma preocupação: quase todas as semanas recebemos pedidos de pessoas que têm de sair das casas de acolhimento e que não têm para onde ir. Muitas dessas casas estavam alugadas durante o verão."

O Alto Comissariado para as Migrações (ACM), em articulação com a sua rede de parceiros, composta por municípios e entidades da sociedade civil, tem apoiado os deslocados desde o início do conflito. Uma das áreas de atuação é o alojamento de emergência , que se divide em três níveis: acolhimento coletivo de emergência, acolhimento coletivo e habitações autónomas. A partir das 17.00 e aos fins de semana está disponível a Linha Nacional de Emergência Nacional,

Até ao momento, segundo o ACM, 10 080 pessoas usufruem de habitação comparticipada (1 099 em alojamento coletivo e 8 981 em residências autónomas). Acrescenta: "De acordo com dados de 4 de agosto, a grande maioria das 48 888 pessoas deslocadas da Ucrânia com pedido de proteção temporária foram acolhidas através das suas redes familiares e de amizade, atendendo à significativa comunidade ucraniana já residente em Portugal".

Para os restantes, que são a minoria, foi, ainda, acionado o programa Porta de Entrada, com alterações introduzidas em março (Decreto-Lei nº 24-B/2022). Esta medida visa responder às necessidades de alojamento em cada concelho, numa articulação tripartida entre o Instituto da Habitação e Reabilitação Urbana, o ACM e os municípios. Aderiram 95 autarquias (31 % do total), o que levou à sinalização de 2 102 habitações. A Câmara Municipal de Lisboa é uma das aderentes. Informou que tem em 44 candidaturas, cinco estão concluídas e aprovadas

Foram, ainda, abertas duas linhas de financiamento "dirigidas à sociedade civil e autarquias tendo em vista apoiar os processos de acolhimento e integração de pessoas refugiadas e deslocadas". Uma de 11 milhões de euros do Fundo para o Asilo, a Migração e a Integração (FAMI) e disponibilizado pela Secretaria-Geral do Ministério da Administração Interna; e outra de 1,25 milhões de euros do FAMI aberto pelo ACM. O prazo para candidaturas a este último financiamento acaba a 3 de outubro.

Quarto em menos de 24 horas

Carla Alvarenga, 62 anos, professora primária, ofereceu-se à sua coordenadora no Colégio Valsassina, em Lisboa, onde ensina, para ajudar os refugiados ucranianos. Pensava em doar alimentação, roupas, comprar o que precisassem. Dia 5 de abril, telefonou-lhe às 11 da noite, dizendo que precisava urgentemente de alojamento para duas pessoas. Rapidamente transformou o escritório num quarto no seu apartamento em Alfornelos, Amadora. No dia seguinte, às 17.00 horas duas mulheres foram ter com ela ao colégio - fez ontem quatro meses.

Recebeu Liliia Humeniuk, 50 anos, esteticista, e Nataliia Havryliuk, 38 anos, professora de canto. No sábado seguinte, visitou-as um casal que trabalha numa associação de apoio a ucranianos para ver em que condições viviam, nunca mais as contactaram. "A partir dai, orientei-me, recorremos à tradução online para comunicar, fomos aprendendo a conviver as três", explica Carla.

As duas mulheres dizem dever-lhe tudo. "Viemos com pouco dinheiro, se não fosse a Carla não sei como seria, tem-nos ajudado muito", repete Liliia. Acrescenta Nataliia: "É muito difícil viver num país estrangeiro, sem amigos, marido. Os meus parentes mais próximos aqui são a Carla, a Liliia e um amigo ucraniano". Ainda pensou em pedir apoio psicológico, concluiu que a "Carla e a Lili dão esse apoio".

Liliia, "Lili" para os amigos, é de, Kryvyi, chegou a Portugal pelos próprios meios, em março. "Saí da minha casa para ajudar a minha irmã a fugir para Itália, a ideia era regressar, mas os acontecimentos precipitaram-se, a guerra estava tão forte que não havia como voltar. Estava muito cansada e compreendi que qualquer lugar que escolhesse próximo da Ucrânia estaria com muita gente. Decidi ir para o país europeu mais longe, já que estava sem filhos, viajava só."

No aeroporto de Lisboa, dirigiu-se a um polícia que lhe deu o contacto de uma igreja onde poderia pedir apoio. "Fiquei numa fila, tinha passado meio dia e não avançava, comecei à procura de voluntários. Amigos ucranianos procuraram nas redes sociais apoios aos refugiados e deram-me quatro números de telefone. Liguei e um respondeu à chamada, levaram-me para Vale do Paraíso."

Quando rebentou a guerra, o marido, 58 anos, foi para Kiev para "defender a capital". Uma semana depois foi recrutado pelas Forças Patriotas da Ucrânia. Foi mobilizado para o sul (não pode especificar o sítio), falaram duas vezes ao telefone desde então, trocam mensagens. A mãe estava doente e morreu quando as filhas estavam a fugir da Ucrânia. O filho de Liliia, de 29 anos, vive na Polónia. Ainda pensou ir para a Polónia, mas estava lá muita gente. "Uma quantidade insuportável e não há trabalho." A irmã regressou, entretanto. Estão na Ucrânia o padrasto e os dois irmãos, com os filhos pequenos.

Nataliia Havryliuk, é de Yuzhne, no oblast de Odessa. Fugiu para a Polónia. "Decidi vir para Portugal logo que a guerra começou, sabia que havia gente boa e disponível para ajudar. Encontrei um grupo de voluntários que tinha vindo de avião, foram eles que me trouxeram para Vale de Paraíso, onde conheci a Lili. Vivi lá três semanas."

Conheceram-se no Pavilhão Gimnodesportivo de Vale do Paraíso, na Azambuja, que recebeu os primeiros refugiados a 10 de março, vindos num avião fretado para o efeito. A instalação e receção mobilizou uma equipa composta por elementos da Cruz Vermelha de Aveiras de Cima, Bombeiros de Azambuja e Alcoentre, Proteção Civil e Câmara de Azambuja.

O marido de Nataliia, pais e irmã permanecem na Ucrânia, estão bem, assim como as suas casas.

"Vivo na região de Odessa onde a guerra é intensa. Uma bomba caiu na aldeia onde mora a minha irmã, arrancou o telhado dos vizinhos, todo o mundo está vivo, mas é assustador. Estou à espera do fim da guerra para trazer o meu marido para Portugal", diz.

Carla Alvarenga providencia a alimentação e tudo o que precisam, dava-lhes uma "nota", quando não tinham apoio social. Os hábitos alimentares são diferentes, as ucranianas preferem as saladas e comidas leves e jantam às 17.00. Convivem bem com as diferenças.

As férias da Páscoa iniciaram-se a 11 de abril e Carla Alvarenga aproveitou para as acompanhar ao IEFP das Olaias, passou um mês e não houve contacto. Começou a dar-lhes aulas de português básico.

Numa conversa no cabeleireiro encontrou uma jornalista reformada que se prontificou a dar os passos necessários para obterem a documentação, isto em maio, e também a dar explicações de por-tuguês. Voltou a inscrevê-las no IEFP, desta vez em Pedralvas. Fizeram uma marcação online para a Segurança Social para 15 de julho, a data disponível. Tentaram ir presencialmente, o que conseguiram ainda em maio, a tempo de receberem o RSI desse mês.

Liliia frequenta um curso de português desde 15 de julho, que concede uma pequena bolsa. Tem aulas três vezes por semana, recebe 30 euros por mês, mais 1,70 euros por cada hora de estudo. Nataliia espera a todo o tempo ser chamada. "É fundamental aprender a língua portuguesa, sem esse conhecimento não somos contratadas", justifica. Liliia acrescenta: "Na minha profissão é muito importante falar corretamente".

Pensam ficar em Portugal. "O meu marido e eu queremos constituir família, mas a guerra não nos permite ter uma família, temos de esperar, o que é muito difícil para mim. E o meu país está a ficar destruído, quero morar aqui e poder visitar os meus pais na Ucrânia. É claro que apertam as saudades, que pensamos em voltar, mas a guerra não me permitiria criar uma família e dar à luz uma criança", diz Nataliia. Gostava que o marido também viesse para Portugal, ainda por cima, está sem trabalhar, "não faz nada". Liliia tem o mesmo desejoso. "O meu filho vive na Polónia, a minha mãe morreu, não tenho quem me prenda à Ucrânia, quero ficar em Portugal e visitar o meu país."

Sonham em trabalhar nas suas áreas em Portugal, Liliia como esteticista, a sua profissão há 20 anos, e Nataliia, como professora de canto. "Tenho estudos em canto, ensinei crianças durante 10 anos." Está a traduzir o diploma para tentar o reconhecimento das habilitações.

Tem demasiado tempo livre e com o pensamento na Ucrânia, sempre ligadas à Telegram, uma aplicação russa de mensagens, passeiam, fazem tricô. Nataliia faz sacos, Liliia faz pulseiras, nas cores do seu país: o amarelo e azul. "Estamos sempre a pensar na Ucrânia. Não sabemos como ajudar", diz Nataliia. Ao fim do dia, juntam-se a outros ucranianos, que já cá viviam, Nataliia canta e toca ukulele, o que também faz nas ações de protesto contra a guerra.

O que faz falta? "Gostamos muito dos portugueses, são muito acolhedores e amigos. Estamos muito gratas. O que nos faz falta não é aqui, mas na Ucrânia. Falta a paz, constantemente somos confrontados com a guerra da Ucrânia. A nossa Ucrânia, a nossa terra natal está em perigo."

Apoios sociais são pontuais

Qual é a situação legal dos refugiados vindos da Ucrânia?
Recebem o Estatuto de Proteção Temporária por um ano, prorrogável por igual período, tempo durante o qual são equiparados ao estatuto de refugiado para efeitos de acesso a direitos e prestações sociais.

É diferente dos outros refugiados?
O processo é muito mais ágil. Inscrevem-se no SEF e recebem logo a Residência Temporária e os números de Identificação Fiscal , de Identificação da Segurança Social e do Utente do Serviço Nacional de Saúde.

Apenas chegam ucranianos?
Não, estes representam cerca de 90 % das situações. Há pessoas de muitos outros países, maioritariamente Nigéria, Índia, Rússia, Bielorrússia, Argélia,
Marrocos e Paquistão.

Quais são os apoios sociais que podem receber?
O RSI, que atualmente é de 189,99 euros por cada titular do agregado familiar, os restantes membros maiores de idade recebem 132,76 (70 %).

Quanto é que recebem as crianças?
Têm acesso ao Abono de Família, 149,85 euros no 1.º escalão e para quem tem menos de três anos.
O valor deste apoio vai diminuindo à medida que aumenta a idade dos beneficiários e os rendimentos dos pais. Os que estão sem o pai, recebem mais um complemento.

Quando é que deixam de receber estes apoios?
Recebem enquanto não tiverem rendimentos, logo, até começarem a trabalhar. Se tiverem outros meios, estes são deduzidos no valor final.

Há apoios para habitação?
Sim, através do ACM e autarquias, nomeadamente através do programa Porta de Entrada.

Quantos cidadãos regressaram à Ucrânia?
Número exato ninguém sabe.
O SEF informou o DN que 824 pediram voluntariamente o cancelamento dos seus pedidos de proteção temporária.

O que é que acontece com as crianças que vêm sem os pais ou representantes legais?
É comunicado às autoridades.
O SEF informou o Ministério Público de 723 menores e a Proteção de Menores de 15 casos em perigo atual ou iminente.


ceuneves@dn.pt

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